Por Euclides da Cunha (1909)
Vai-se, por ex., com Fred. Katzer a seriar, a escandir e aconfrontar velhíssimos petrefactos ou graptólitos numa longa romaria ideal pelos mais remotos pontos nas mais remotas idades - largo tempo, a debater-se entre as classificações maciças, a enredar-se na trama das raízes gregas das nomenclaturas bravias - e de improviso, os dizeres da ciência desfecham num quase idealismo: as análises rematam-nas prodígios; as vistas abreviadas nos microscópios desapertam-se no descortino de um passado muitas vezes milenário; e esboçados os contornos estupendos de uma geografia morta, alonga-se-lhe aos olhos a perspectiva indefinida daquele extinto oceano médio-devônico que afogava todo o Mato Grosso e a Bolívia, cobrindo quase toda a América meridional e chofrando no levante as antiquíssimas arribas de Goiás, últimos litorais do continente brasilio-etiópico que aterrava o Atlântico indo abranger a África... Segue-se com os naturalistas da Comissão Morgan, e a história geológica, a despeito de linhas mais seguras, não perde o traço grandioso, desenvolvendo-se às duas margens do largo canal terciário que por longo tempo separou os planaltos brasileiros e os das Guianas, até que o vagaroso sublevar dos Andes, no Ocidente, serrando-lhe um dos extremos, o transmudasse em golfo, em estuário, em rio.
Ao cabo, ainda atendo-se aos fatos atuais da fisiografia amazônica, restam outros agentes nímio perturbadores da fria serenidade das observações científicas.
Basta mostrar-se de relance que, ainda nos casos mais simples, há no Amazonas um flagrante desvio do processo ordinário da evolução das formas topográficas.
Em toda a parte a terra é um bloco onde se exercita a molduragem dos agentes externos entre os quais os grandes rios se erigem como principais fatores, no lhe remodelarem os acidentes naturais, suavizando-lhos. Compensando a degradação das vertentes com o alteamento dos vales, correndo montanhas e edificando planuras, eles vão em geral entrelaçando as ações destrutivas e reconstrutoras, de modo que as paisagens, lento e lento transfiguradas, reflitam os efeitos de uma estatuária portentosa.
Assim o Hoang-Ho aumentou a China com um delta, que é uma província nova; e, ainda mais expressivo, o Mississipi assombra o naturalista, com a expansão secular do aterro desmedido que em breve chegará às bordas da profundura onde se encaixa o Gulf-Stream. Nas suas águas barrentas andam os continentes dissolvidos. Mudam-se países. Deconstituem-se territórios. E há um encadeamento tão lógico nos seus esforços contínuos, onde incidem as grandes energias naturais, que o acompanhá-los implica algumas vezes o acompanhar-se o próprio rumo de um aspecto qualquer da atividade humana: das páginas de Herôdoto às de
Maspéro, contempla-se a gênese de uma civilização de par com a de um delta; e o paralelismo é tão exato, que se justificam os exageros dos que, a exemplo de Metchnikoff, vêem nos grandes rios a causa preeminente do desenvolvimento das nações.
Ao passo que no Amazonas, o contrário. O que nele se destaca é a função destruidora, exclusiva. A enorme caudal está destruindo a terra. O Professor Hartt, impressionado ante as suas águas sempre barrentas, calculou que "se sobre uma linha férrea corresse dia e noite, sem parar, um trem contínuo carregado de tijuco e areias, esta enorme quantidade de materiais seria ainda menor do que a de fato é transportada pelas águas..."
Mas toda esta massa de terras diluídas não se regenera. O maior dos rios não tem delta. A Ilha de Marajó, constituída por uma flora seletiva, de vegetais afeitos ao meio maremático e ao inconsistente da vasa, é uma miragem de território. Se a despissem, ficariam só as superfícies rasadas dos "mondongos" empantanados, apagando-se no nivelamento das águas; ou, salteadamente, algumas pontas de fragueados de arenito endurecido, esparsas, a esmo, na amplidão de uma baía. À luz das deduções rigorosas de Walter Bates, comprovando as conjeturas anteriores de Martius, o que ali está sob o disfarce das matas, é uma ruína: restos desmantelados do continente, que outrora se estirava, unido, das costas de Belém às de Macapá - e que se tem de restaurar, hipoteticamente, em passado longínquo, para explicar-se a identidade das faunas terrestres, hoje separadas pelo rio, do Norte do Brasil e das Guianas.
O Amazonas, entretanto, poderia reconstruí-lo em pouco tempo, com os só 3.000.000 de metros cúbicos de sedimentos, que carrega em vinte e quatro horas. Mas dissipa-os. A sua corrente túrbida, adensada nos últimos lances de seu itinerário de 6.000 milhas, com os desmontes dos litorais, que dia a dia se desbarrancam, fazendo recuar a costa que se desenrola desde o Paru ao Araguari, decanta-se toda no Atlântico. E os resíduos das ilhas demolidas - entre as quais a de Caviana que lhe foi antiga barragem e se bipartiu no correr de nossa vida histórica - vão cada vez mais delindo-se e desaparecendo, no permanente assalto daquelas correntezas poderosas. Destarte, desafoga-se mais e mais a desembocadura principal da grande artéria e acentua-se o seu desvio para o norte, com o abandono contínuo das paragens que lhe demoram a leste e sobre as quais ele passou outrora, deixando ainda, nas áreas recém-desvendadas dos brejos marajoaras, um atestado tangível daquele deslocamento lateral do leito, que tem dado aos geólogos inexpertos a ilusão de um levantamento ou de uma reconstrução da terra.
(continua...)
CUNHA, Euclides da. À Margem da História. 1909. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16624. Acesso em: 17 jun. 2026.