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#Contos#Literatura Brasileira

Ruty de Leão

Por Machado de Assis (1872)

Daí a dias apareceu efetivamente o padre Norberto, que andava em missão. Disseram-lhe que havia ali um homem seu compatriota; foi vê-lo. Eram conhecidos. O frade Norberto falou de Portugal e da família de Ruy. Disse-lhe que os seus parentes se achavam mortos com exceção de um primo que fora meter uma lança em África.

— Pouco me importa saber, frade Norberto, do que vai lá pela minha família, nem se são vivos ou mortos. Hoje a minha família é Nanavi e meu filho.

Justamente nessa ocasião acordou o pequerrucho; o frade Norberto viu o fruto do amor da indígena com o europeu; e disse ao fidalgo.

— Vamos batizá-lo?

— Não.

— Pois quê! não quer?

— Não.

— Meu Deus! continuou o frade Norberto, será isso possível! dir-se-á que estes gentios nascidos e criados sem a luz da fé, são mais fáceis de converter que V. Mercê nascido e criado no seio da Igreja.

O argumento não tinha resposta; por isso mesmo o fidalgo tentou sofismá-lo. O digno frade ouviu-o silencioso.

Quando o fidalgo acabou disse o frade:

— Peço a Deus que não faça cair sobre V. Mercê a justa pena deste ato... E saiu.

Logo nessa noite, teve Ruy de Leão uma intensa febre; no dia seguinte piorou. Nenhuma raiz, nenhuma folha pôde abrandar o mal do pobre Ruy. Esgotou-se a farmacopéia do deserto; a doença tinha todos os sinais de ser mortal. Três dias durou esta luta entre a natureza e a ciência. Ao cabo desse tempo resolveu-se que, se o último remédio não produzisse efeito, devia recorrer-se ao medicamento eleitoral do cacete.

Ruy não sabia que já estava condenado, mas suspeitava-o bem, porque o remédio que lhe deram como definitivo nenhum efeito produzira. Viu a morte diante de si; lembrou-se das palavras do frade Norberto; contemplou o filho, apenas nascido, a mulher ainda no viço dos anos. Todas estas coisas juntas fizeram com que Ruy reunisse todas as suas forças (que bem poucas eram), e tentasse de noite ir ao elixir da imortalidade.

Fê-lo a muito custo; logo à porta da cabana teve um desmaio. Conseguiu levantar-se sem despertar ninguém. Caminhou lentamente para o montículo onde estava enterrado o vaso; cavou a terra com as unhas; arrancou o vaso e bebeu parte do conteúdo. No dia seguinte amanheceu melhor. Os parentes de Nanavi, que já preparavam os ventres para o condigno enterro do estrangeiro ilustre, ficaram agradavelmente surpresos quando viram a rápida melhora que naturalmente atribuíram ao remédio que tomara. Restabeleceu-se Ruy de Leão da moléstia, e grande alegria houve por isso, pois o fidalgo era realmente a luz daquela gente e o melhor conselho dos casos difíceis. Certeza de que estava imortal, não a tinha ainda Ruy de Leão; mas certeza de que o elixir curasse febres teimosas, essa adquiriu logo. Esperemos o resto, dizia ele consigo. E esperou.

Não tardou que se admirasse toda a gente daquelas paragens da robustez crescente de Ruy de Leão; era o segundo efeito do elixir. Multiplicaram-se-lhe as forças e a atividade, coisa que sumamente agradava a Nanavi, pois naquele tempo e entre aqueles povos, a glória não estava em agitar um junco parisiense, mas em brandir uma pesada maça de guerra.

Com os anos cresceram as esperanças de Ruy. O tempo nenhuma ação tinha nele; não só os poucos cabelos que tinha continuaram a ficar pretos, senão que lhe nasceram outros, e dentro em pouco tempo tinha o homem uma verdadeira floresta na cabeça, a qual floresta, atenta à falta de pentes no sertão, era uma verdadeira floresta virgem. Nenhuma ruga lhe afeiou o rosto: nenhum abalo lhe fraqueou o pulso.

Tinha Ruy sessenta anos e era o mesmo homem dos quarenta. Não eram isto indícios da imortalidade? Ruy adquiriu a plena certeza de que tinha vencido a morte. Não aconteceu o mesmo à pobre Nanavi, que andando um dia a colher frutas no mato, recebeu em cima da cabeça um tronco que a levou desta para melhor. Ficou a criança, rapazote de largas esperanças, único fruto dos amores de Ruy e Nanavi.

Como o frade Norberto continuasse em missão, encontrou-o um dia o nosso neo-tamoio e travou conversa com ele.

Sem descobrir o segredo do pajé, disse-lhe que tinha meios de fazer uma conversão em larga escala durante longos decorreres de anos; que para isso ajudaria com dedicação os frades da companhia não somente com as luzes que tinha da língua do Brasil como também pela autoridade moral que adquirira entre os índios; finalmente que por prova de que servia sinceramente a igreja, dava a batizar o filho de Nanavi.

— De boa razão é vosso procedimento sr. Ruy de Leão e eu estou que a fé colherá grande proveito com o auxílio de vossa pessoa. Suspeitar de vossa sinceridade fora além de injustiça, erro grosseiro, porquanto entrais no corpo da Igreja passando a porta preciosa e precedendo ao inocente filho que nos dais para batizar e iniciar na fé. Onde está a mãe?

— A mãe morreu.

— Culpa vossa, sr. Ruy de Leão; perdeu-se uma alma pela obstinação com que V. M. se houve...

(continua...)

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