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#Contos#Literatura Brasileira

Quinhentos contos

Por Machado de Assis (1859)

Helena era, como dizia Alves, uma mulher formosa. Era alta, de olhos e cabelos negros, mão delicadíssima, formas cortadas em mármore... adivinhava-se ao menos. Trazia um vestido cinzento pérola, muito sério e muito elegante. Penteava-se à Maria Stuart, sem curar de saber se a moda passara ou não.

O coronel era um velho de setenta anos como há poucos, robusto e corado. Esperados com ânsia por Alves, foram recebidos com alvoroço, o que faria crer da parte do dono da casa uma amizade mais profunda que a real, se alguma havia.

Alves apresentou o amigo às duas visitas. O coronel e Batista conheciam-se apenas de vista; mas à declaração feita por Alves de que Batista era o seu mais antigo amigo, o coronel deu-lhe logo maiores testemunhos de apreço. Era um bom velho o coronel!

A visita durou pouco; apenas um quarto de hora; mas nem Helena nem o avô saíram sem que Alves prometesse que lá iria aquela noite.

Alves prometeu.

— E o senhor também, disse Helena voltando-se para Batista.

— Hoje? disse este.

— Está cansado, não é? acudiu o coronel. Pois bem, amanhã.

— Sim, amanhã.

Enfim, despediram-se. Apenas as portas fecharam-se sobre os dois, Alves voltou-se para Batista, e perguntou-lhe:

— Viste-a?

— Vi, respondeu Batista. E nem de propósito. É esta a mulher de quem te falei há pouco.

— De quem falaste? o quê?

— É o casamento que eu tenho em vista para meu filho, respondeu Batista.

— É singular, é também esta...

— A do Luís?

— Sim!

Batista e Alves olharam-se algum tempo.

Afinal Batista rompeu o silêncio.

— Poucas vezes se dará coisa semelhante, disse ele. Dois homens separados pelo oceano terem a um tempo a mesma pretensão.

— É incrível, mas é verdade!

— O que nos vale é que esta circunstância em nada pode alterar a afeição de dois amigos velhos.

— De modo nenhum! É coisa que não pode pesar na balança da amizade!

— Está dito!

E como se ambos estivessem cheios da mesma idéia, voltaram-se um para o outro, e ao mesmo tempo soltaram estas duas terríveis palavras:

— Tu cedes!

— Quem? disse Alves.

— Eu? disse Batista.

— Ceder! tomou o primeiro. Em nome de quê? por que motivo?

— Não somos amigos? Que é a amizade senão o afeto mútuo e o concurso recíproco?

— Mas, meu caro, disse Alves, isso tudo é verdade; mas se é verdade é a meu favor, porque o sacrifício deve partir de ti e não de mim... porque há longo tempo que eu cá estou na luta, e não vejo razão para que te ceda o campo, a ti, que vens de fora, e apenas tens na cabeça a sombra de um projeto.

Batista sorriu ouvindo as palavras de Alves, e replicou:

— Se a prioridade é razão, é razão a meu favor; o meu projeto é anterior ao teu.

— Mas se ela enviuvou há oito meses, e nesse tempo ainda estavas na Europa!

— Quando lhe deitei os olhos ela ainda estava casada.

— Contavas com a morte do marido?

— Não tinha certeza matemática; mas era uma espécie de loteria; comprei bilhete e esperei que andasse a roda. Desgraçadamente para o defunto a roda correu e eu tirei a sorte grande. Nem era necessário grande tino para ver que entre o marido já idoso, e a mulher na flor da idade, era ele quem devia despedir-se primeiro deste mundo de enganos e de lágrimas. Pensei mal?

Já a este tempo Alves tinha-se levantado e passeava pela sala, agitado e fumando em dois sentidos. Quando Batista acabou de falar, Alves parou e disse-lhe:

— Mas enfim, é dever de lealdade...

— Adeus! temos agora lealdade; mas quem fala em lealdade? Tu não farias o mesmo no meu lugar?

— Queres então brigar comigo?

— Qual brigar! exclamou Batista. Não há briga possível entre dois amigos. Pode haver conflitos de interesses; mas o interesse não fica empenhado nos pactos do coração; é por sua natureza uma restrição mental. Queres casar teu filho com a viúva; és lógico e mostras ser homem de juízo; mas eu também quero ter juízo e mostrar-me lógico.

— Mas logo esta! disse Alves.

— Ave rara, meu amigo. Só vejo um meio de conciliar tudo.

Alves, que passeava agitado, parou, e disse:

— Qual é?

— Era cederes tu, e deixar que o meu rapaz...

— Ora!

— Não serve? perguntou Batista levantando-se. Nesse caso lutaremos ambos. Vença quem for mais hábil ou mais feliz. Agüenta-te nos estribos, porque eu vou a toda a desfilada.

— Farei por ser bom cavaleiro.

Nesse momento entravam na sala os dois rapazes que eram a causa, sem o saberem, daquele conflito.

Batista já tinha o chapéu na mão, e apenas avistou Carlos disse-lhe que saísse com ele, acrescentando baixinho que aquilo ali era território inimigo. Carlos compreendeu que havia alguma coisa, e modelou a sua atitude na despedida pela do pai.

(continua...)

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