Por Machado de Assis (1872)
Deitou um olhar à rua; ninguém o via nesse momento. Persignou-se e entrou no jardim. Lúcia viu aparecer à porta o vulto e fez um sinal com o lenço. Coelho aproximou-se cautelosamente da janela, que ficava elevada. A idéia da existência de algum cão atravessou-lhe o espírito:
— Oh! meu Deus! disse ele.
E estacou.
Mas a moça estava presente e não havia recuar. Continuou a andar na direção da janela.
— És tu, Carlos? perguntou a moça.
— Sou eu, disse Coelho, com voz fraca.
— Não pude vir mais cedo, disse Lúcia, porque minha tia quis por força que eu ficasse na sala. Agora pude sair sem que ela reparasse. A nossa conversa não pode ser longa. Ninguém te viu?
— Ninguém, murmurou Coelho, que não queria ser descoberto pela voz.
— Sabes o que tem acontecido?
— Não.
— Meu tio anda desconfiado do nosso amor.
— Ah!
— Ouvi-o no domingo estar conversando com minha tia e dizendo que havia de saber quem era o brejeiro que andava a namorar-me, e que lhe havia de quebrar as costelas. Ouviu-se um suspiro; ele pensou que era alguém de casa, mas reparou que era ela mesma.
— Não te parece que estamos mal? perguntou a moça.
— Sim, disse Coelho.
— Mas que tens hoje? disse ela. Estás tão calado! Não me respondes senão com palavras soltas. Sofres alguma coisa?
— Oh!
— É aquela dor de peito que te continua a dar?
— É.
— Pobre Carlos!
Neste momento, ouviu-se um rumor. Era um pisar mansinho na areia do jardim.
— Que será? pensou Coelho.
— Guardei uma flor para ti, disse a moça. Queres?
— Quero, grunhiu Coelho.
— Lá vai.
E Lúcia debruçando-se na janela atirou a flor, que Coelho apanhou e levou aos lábios.
— Céus! que é isto? murmurou a moça.
Era a voz de um cão que se ouvira, e a voz de alguém que animava o cão.
— Há alguém?
— Há, disse Coelho mais morto que vivo.
— Há de ser o preto.
E olhou na direção do latido.
Coelho não queria saber se era ou não o preto; a sua idéia definitiva era dirigir-se à porta e pôr-se ao fresco.
Nesse sentido, começou a recuar; mas o latido do cão aproximava-se e dentro de pouco tempo um vulto de homem e um vulto de cão se apresentaram em frente de Coelho. O cão parou e pareceu consultar o homem. Este fez um sinal e chegou-se a Coelho. Coelho encomendou a alma a Deus.
Um grito ouviu-se da janela. Era Lúcia, que desapareceu imediatemente.
— Quem é o senhor? disse o vulto.
— Eu... balbuciou Coelho.
— Sim... diga!
— Eu...
— Eu quem?
E como Coelho não respondesse, o vulto pegou-lhe no braço e procurou arrastá-lo para dentro. Coelho resistiu.
— Vou dizer tudo, gritou ele.
— Venha cá dentro; estaremos mais a gosto.
Era impossível resistir; Coelho acompanhou o vulto.
V
O VULTO
Ao rés-do-chão, e por baixo das janelas, havia uma sala, com uma mesa e poucas cadeiras, iluminada por um bico de gás.
Aí entraram o vulto, Coelho e o cão.
Este foi acocorar-se a um canto com os olhos em Coelho à espera de um sinal do vulto. Coelho e o vulto encararam-se antes de se sentarem.
— Ah! exclamou o vulto.
— Ah! exclamou Coelho.
— Pois é o senhor?
— Eu...
— Temos o eu outra vez, disse o vulto, que era nem mais nem menos Ypsilanti.
— Vou explicar-lhe tudo, disse Coelho, resolvido a contar a história da carteira, o mau pensamento que tivera, e obter assim o perdão do que acabava de fazer.
— Sente-se, disse Ypsilanti
— Coelho obedeceu. Ypsilanti sentou-se em frente dele, do outro lado.
— O senhor sabe, disse o velho tio de Lúcia, que acaba de fazer uma coisa muito feia.
— Sei, sim, senhor.
— Uma coisa horrível, que eu não lhe perdoarei jamais?
Coelho estendeu a mão:
— Se me quiser ouvir, disse ele.
— Ouvi-lo? Mas que me dirá o senhor para justificar o que acaba de fazer? É desse modo que pretende haver alguma coisa, que possuo? Está em minhas mãos, e eu posso fazer do senhor o que quiser. Que diria o senhor se eu o denunciasse à polícia como ratoneiro?
— Senhor!
— E ratoneiro é o senhor, porque tirar um par de galinhas de um quintal e um par de contos da algibeira de um homem honesto, é a mesma coisa; só difere o meio. O senhor quis tirar-me um par de contos...
— Enfim
— disse Coelho ansioso por explicar tudo, e chamar o furor do velho para o verdadeiro ratoneiro, como ele disse —, enfim, eu espero convencê-lo de que não sou tão culpado como pareço.
— Há de ser difícil.
— Não é.
— Estou ouvindo.
(continua...)
ASSIS, Machado de. Quem não quer ser lobo.... 1872. Publicado originalmente em periódico.