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#Comédias#Literatura Brasileira

Quase ministro

Por Machado de Assis (1862)

Mas há de ser, deve ser. (depois de uma pausa) A poesia e a política acham-se ligadas por um laço estreitíssimo. O que é a política? Eu a comparo a Minerva. Ora, Minerva é filha de Júpiter, como Apolo. Ficam sendo, portanto, irmãs. Deste estreito parentesco nasce que a minha musa, apenas soube do triunfo político de V. Exa., não pôde deixar de dar alguma cópia de si. Introduziu-me na cabeça a faísca divina, emprestou-me as suas asas, e arrojou-me até onde se arrojava Píndaro. Há de me desculpar, mas agora mesmo parece-me que ainda por lá ando.

MARTINS

(à parte)

Ora dá-se.

BASTOS

Longo tempo vacilei; não sabia se devia fazer uma ode ou um poema. Era melhor o

poema, por oferecer um quadro mais largo, e poder assim conter mais comodamente todas as ações grandes da vida de V. Exa.; mas um poema só deve pegar do herói quando ele morre; e V. Exa., por fortuna nossa, ainda se acha entre os vivos. A ode prestava-se mais, era mais curta e mais própria. Desta opinião foi a musa que me inspirou a melhor composição que até hoje tenho feito. V. Exa. vai ouvi-la. (mete a mão no bolso)

MARTINS

Perdão, mas agora não me é possível.

BASTOS

Mas...

MARTINS

Dê cá; lerei mais tarde. Entretanto, cumpre-me dizer que ainda não é cabida, porque ainda não sou ministro.

BASTOS

Mas há de ser, deve ser. Olhe, ocorre-me uma coisa. Naturalmente hoje à tarde já isso está decidido. Seus amigos e parentes virão provavelmente jantar com V. Exa.; então no melhor da festa, entre a pêra e o queijo, levanto-me eu, como Horácio à mesa de Augusto, e desfio a minha ode! Que acha? é muito melhor, é muito melhor.

MARTINS

Será melhor não a ler; pareceria encomenda.

BASTOS

Oh! Modéstia! Como assenta bem em um ministro!

MARTINS

Não é modéstia.

BASTOS

Mas quem poderá supor que seja encomenda? O seu caráter de homem público repele isso, tanto quanto repele o meu caráter de poeta. Há de se pensar o que realmente é: homenagem de um filho das musas a um aluno de Minerva. Descanse, conte com a sobremesa poética.

MARTINS

Enfim...

BASTOS

Agora, diga-me, quais são as dúvidas para aceitar esse cargo?

MARTINS

São secretas.

BASTOS

Deixe-se disso; aceite, que é o verdadeiro. V. Exa, deve servir o país. É o que eu sempre digo a todos... Ah! não sei se sabe: de há cinco anos a esta parte tenho sido cantor de todos os ministérios. É que, na verdade, quando um ministério sobe ao poder, há razões para acreditar que fará a felicidade da nação. Mas nenhum a fez; este há de ser exceção: V. Exa. está nele e há de obrar de modo que mereça as bênçãos do futuro. Ah! os poetas são um tanto profetas.

MARTINS

(levantando-se)

Muito obrigado. Mas há de me desculpar. (vê o relógio) Devo sair.

BASTOS

(levantando-se)

Eu também saio e terei muita honra de ir à ilharga de V. Exa.

MARTINS

Sim... mas, devo sair daqui a pouco.

BASTOS

(sentando-se)

Bem, eu espero.

MARTINS

Mas é que eu tenho de ir para o interior de minha casa; escrever umas cartas.

BASTOS

Sem cerimônia. Sairemos depois e voltaremos... V. Exa. janta às cinco?

MARTINS

Ah! quer esperar?

BASTOS

Quero ser dos primeiros que o abracem, quando vier a confirmação da notícia; quero antes de todos estreitar nos braços o ministro que vai salvar a nação.

MARTINS

(meio zangado)

Pois fique, fique.

Cena VI

Os mesmos, MATEUS

MATEUS

É um criado de V. Exa.

MARTINS

Pode entrar.

BASTOS

(à parte)

Será algum colega? Chega tarde!

MATEUS

Não tenho a honra de ser conhecido por V. Exa., mas, em poucas palavras, direi quem sou...

MARTINS

Tenha a bondade de sentar-se.

MATEUS

(vendo Bastos)

Perdão; está com gente; voltarei em outra ocasião.

MARTINS

Não, diga o que quer, este senhor vai já.

BASTOS

Pois não! (à parte) Que remédio! (alto) Às ordens de V. Exa.; até logo... não me demoro muito.

Cena VII

MARTINS, MATEUS

MARTINS

Estou às suas ordens.

MATEUS

Primeiramente deixe-me dar-lhe os parabéns; sei que vai ter a honra de sentar-se nas poltronas do Executivo, e eu acho que é do meu dever congratular-me com a nação.

MARTINS

Muito obrigado. (à parte) É sempre a mesma cantilena.

MATEUS

O país tem acompanhado os passos brilhantes da carreira política de V. Exa. Todos contam que, subindo ao ministério, V. Exa. vai dar à sociedade um novo tom. Eu penso do mesmo modo. Nenhum dos gabinetes anteriores compreendeu as verdadeiras necessidades da pátria. Uma delas é a idéia que eu tive a honra de apresentar há cinco anos, e para cuja realização ando pedindo um privilégio. Se V. Exa. não tem agora muito que fazer, vou explicar-lhe a minha idéia.

MARTINS

Perdão; mas, como eu posso não ser ministro, desejava não entrar por ora no conhecimento de uma coisa que só ao ministro deve ser comunicada.

MATEUS

(continua...)

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