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#Ensaios#Literatura Brasileira

O subterrâneo do Morro do Castelo

Por Lima Barreto (1905)

Na sua mudez de catacumbas seculares, os subterrâneos do Castelo bem serviriam para guardar os tesouros da Ordem mais rica do mundo e ainda os guardam certamente.

Mas agora chegou o tempo de quebrar o segredo de sua riqueza e ser espoliado de seu olímpico depósito.

O homem já não se contenta em querer escalar o céu, quer também descer ao coração da terra e não poderá o morro do Castelo embaraçar-lhe a ação.

Há de rasgar-se, há de mostrar o labirinto de suas acidentadas galerias e há de espirrar para fora os milhões que vêm pulverizando numa digestão secular.

Um dia destes foi num dos flancos que se abriu a boca silenciosa de um corredor escuro que os homens interrogam entre curiosos e assustados; hoje é a própria cripta do morro que se parte como a querer bradar para o céu o seu protesto contra a irreverência e avidez dos homens!

Mas os operários prosseguem cada vez mais porfiados em ver quem primeiro colhe o prazer ultra-marinho de descobrir o moderno Eldorado.

Foi ontem; uma turma explorava o dorso imoto do morro; súbito a ponta da picareta de um operário bate num vazio e some-se...

A boca negra de um outro subterrâneo escancarava-se.

Pensam uns que é a entrada, arteiramente disfarçada, de uma outra galeria, opinam outros que é simples ventilador dos corredores ocultos.

Seja o que for, porém, a coisa é verdadeira, lá está a 8 metros abaixo do solo emparedada a tijolo velho.

Trouxemos uma terça parte de um dos tijolos para nosso escritório onde quem quiser a pode examinar.

Correio da Manhã - quinta-feira, 4 de maio de 1905

OS SUBTERRÂNEOS DO RIO DE JANEIRO E AS RIQUEZAS DOS JESUÍTAS

A multidão apinhava-se curiosa, diante do morro do Castelo, em cujo imenso bojo se entesouram riquezas fabulosas, abandonadas pelos jesuítas na precipitação da retirada.

Olhos ávidos de descobrir na sombra pesada da galeria o rebrilho de uma peça de ouro, ouvidos atentos ao mínimo ruído vindo de dentro, toda aquela gente, nos lazeres do feriado de ontem, se acotovelava ao longo da cerca de arame, que a previdência oficial construiu, para maior segurança do subterrâneo opulento.

Íamos sequiosos de novas do Castelo e das suas lendárias coisas; mas, a dilatada área defesa ao público, não havia o movimento habitual dos dias de labor.

Pequerruchos despreocupados revolviam a terra e à porta soturna da galeria dois negros cérberos vigiavam, modorrentos, o tesouro secular.

Aproximamo-nos. Havia uma franca comunicatividade entre os curiosos, trocavam-se comentários estranhos sobre a direção dos subterrâneos, as salas amplas, em mármore rosado, nas quais se enfileiram, pejadas de ouro e pedrarias, as arcas dos discípulos de Loiola.

Mas, em meio a multidão, salienta-se um senhor alto, de bigodes grisalhos e grandes olhos penetrantes, cuja voz pausada e forte atrai a atenção de toda gente.

O círculo de curiosos se aperta a pouco e pouco e os ouvidos recebem deleitados as palavras do oráculo.

De coisas extraordinárias sabe este homem; tem talvez cinqüenta anos de idade, dois terços deles gastos no esmerilhamento das verdades ocultas nas entrelinhas de pergaminhos seculares.

Ele sabe de todo um Rio subterrâneo, um Rio inédito e fantástico, em que se cruzam extensas ruas abobadadas, caminhos de um Eldorado como não no sonhara Pangloss.

Acercamo-nos também, na ânsia de escutar a palavra sábia; ele já enveredara por um detalhe trágico da história conventual do Castelo: a história de uma condessa italiana, da família dos Médicis, raptada, em noite escura, de um palácio florentino e conduzida num bergantim para o claustro dos jesuítas, onde, em babilônicas orgias, seu alvo corpo palpitante de mocidade e seiva corria de mão em mão, como a taça de Hebe; depósito sagrado de um capitoso vinho antigo.

Os circunstantes ouviam boquiabertos a interessante narrativa; um senhor, nédio e rosado, aparteava de quando em vez, pilhérico.

Ousamos uma pergunta:

— Há documentos a respeito?

— Preciosíssimos, meu amigo; eu tive sob os olhos todo o roteiro das galerias; conheço-as como a palma das minhas mãos. A reconstrução daquela época trágica seria uma obra de fazer arrepiar os cabelos!...

— E quanto às duas galerias recentemente descobertas?

Ele disse:

— Não valem nada, meu amigo; o caminho está errado; por aí não darão no vinte.

— Mas, neste caso, que utilidade tem estas?

(continua...)

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