Por Coelho Neto (1898)
José deitara-se na arca e adormecera, com uma ponta do manto sobre o rosto e viu, em sonho, um anjo — o mesmo que lhe apparecera para confortar-lhe o coração envenenado pela suspeita — que lhe disse :
— Ergue-te, leva o Menino e sua Mãi e foge para o Egypto. Lá ficarás até que eu te avise, por que Herodes ha de buscar a Jesus para o matar.
Levantou-se de prompto o patriarcha — extinguira-se a chamma da candeia, mas o luar, infiltrando-se por uma aberta do colmo, fizera sobre o berço do Infante um cortinado de luz — despertou Maria e, dizendolhe o que sonhara, ajoelharam-se ambos dando graças a Deus pelo aviso e, á pressa, reunindo o que puderam, tomou a Virgem o Menino, agasalhou-o ao collo e, trancando a porta do casebre, puzeram-se a caminho.
Abandonando as estradas procurou José os trilhos mais agrestes, veredas pedrentas, carreiros beirados de espinhaes, por montes, porque assim evitavam encontros.
Occultando-se durante o dia, só á noite caminhavam protegidos pela treva; ainda assim mal presentiam rumores, logo precipitadamente refugiam escondendo-se em bosques, enlapando-se em furnas ou cosendo-se com os penhascos até que passassem os caminheiros.
Então deixavam os esconderijos e, de novo, cautelosamente, retomavam o passo.
Ao romper d'alva José, agasalhando a Virgem e o Menino em lugar seguro, aventu rava-se em busca de alimentos.
De uma feita, pousando em deserta, charneca, Maria, que sempre se mostrara resignada não articulando queixa, não poude conter as lagrimas. É que a sêde, longamente supportada, ia-se tornando em fogo que a consumia. Os lábios fendiam-se-lhe, vertigens abalavam-na obscurecendo-lhe a vista e, ávida, em delirio, febricitada, ouvia o fresco murmurio de fontes em torno, mas andando com o olhar em volta, via apenas arêas e raizes retorcidas.
Queixou-se, então, mas a sua queixa foi ainda um cântico de amor :
-- Não é pelo meu soffrimento que choro, disse, mas pelo receio que tenho de que o leite estanque em meus peitos. Estas mesmas lagrimas são desperdicios da minha fraqueza, pudesse eu absorvê-las para que se transformassem em leite e assim o meu soffrimento serviria para nutrir o meu amor e, emquanto durasse a minha angustia, elle teria garantido o alimento. Mas as lagrimas perdem-se. Ai! de mim.
José procurava por toda a parte uma fonte, um resto d'água em concavo de rocha, mas tudo era aridez.
Uma lagrima, porém, rolando dos olhos de Maria, cahiu na dura encosta de um penedo e logo a pedra reluziu como se a alagasse um suor. Um fio d'água brotou, desceu pelas arestas enchendo-se, engrossando, alastrando em lençol alvo e frio e ajuntou-se na terra entre o pedregullio adusto.
José deteve-se pasmado, mas a sede tirou-o do espanto. Então, reunindo-se á Virgem, que se ajoelhara e orava, louvaram ambos o Senhor, o mesmo Deus de bondade que respondera aos clamores de Agar, no deserto, e que ali, de novo, revelava-se. Depois, inclinando-se, beberam a goles fartos d'a-quella água misericordiosa que nascera da baga de pranto como de uma semente.
E disse Maria:
— Senhor, se as proprias pedras do deserto commovem-se com as supplicas do meu co ração, porque não ha de o homem ouvi-las ? Que mal pôde trazer ao mundo uma criança que nem ainda se firmou na terra, porque não anda ? que ainda não poude soltar o pensa- mento por falta da aza, que é a palavra ? Que ma pôde fazer um innocento para que assim o persigam ?
E José respondeu :
— Sigamos. O coração do máu é pedra que se não converte. O rochedo gera a fonte, se o ferires responderá com a centelha; o coração dá a lagrima e flammeja em ódio. Ha corações, porém, que são feitos de neve : nelles a lagri- ma está petrificada : brilham, mas não têm lume. Para esses não ha piedade nem colera, são os impassiveis, os indifferentes: cora- ções brancos, corações diaphanos, corações vazios.
Outros ha que fervem em ódio perenne, são corações de bitume abrasados em ira.
Não compares os corações dos maus ás pedras misericordiosas.
Emquanto foram pela Galiléa sempre se lhes depararam pousios: cavernas escusas, que eram asylos de algáras, aduares de nomades. Entravam por ellas e, sem receio, agasalhavam-se.
E nunca lhes succedeu serem incommodados pelos moradores, ou fosse porque andassem em razzias pelas estradas mais corridas, ou fosse porque os contivesse á distancia a Providencia que velava sobre os peregrinos.
Avisinhando-se de Jerusalém, já sentindo o poder crudelissimo de Herodes, maior se lhes tornou o receio. Não se atreviam a caminhar senão a horas altas, quando nos campos cessava, por completo, o movimento e morriam todos os lumes das choças e nos cortelhos e corveiros os proprios cães dormiam,
(continua...)
COELHO NETO, Henrique. As Sete Dores de Nossa Senhora. Rio de Janeiro: E. Bevilacqua & Cia., 1907. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=43241 . Acesso em: 30 abr. 2026.