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#Contos#Literatura Brasileira

O carro 13

Por Machado de Assis (1868)

Desta vez Amaro abriu a carta apressadamente, por ter visto que a letra era a mesma. O romance começava a interessá-lo.

Dizia a carta:

Foi inútil o meu protesto. Quis deixar de escrever-lhe mais; apesar de tudo, sinto que não posso deixar de fazê-lo. É uma necessidade fatal...

Ah! os homens ignoram quanto esforço é preciso a uma mulher para conter-se nos limites do dever.

Hesitei muito em escrever-lhe a primeira carta, e esta mesmo não sei se lha remeterei; mas o amor triunfou e triunfará sempre, porque eu já não vivo senão pela sua lembrança! De noite e de dia, a todas as horas, em todas as circunstâncias, a sua pessoa está sempre presente ao meu espírito.

Sei o seu nome, sei a sua posição. Sei mais que é um homem de bem. O senhor é que não sabe quem eu sou, e pensará ao ler estas cartas, que eu ando em busca de um romance que me rejuvenesça o coração e as feições. Não; sou moça, e posso afirmar que sou bela. Não é porque mo digam; poderão querer lisonjear-me; mas o que não é lisonja é o murmúrio de admiração que eu ouço apenas entro numa sala ou passo em alguma rua.

Desculpe se lhe falo de mim com esta linguagem.

O que importa saber é que eu o amo perdidamente, e que a ninguém mais pertenço, nem pertencerei.

Uma carta sua, uma linha, uma lembrança, para que eu tenha uma relíquia e um talismã. Se quiser fazer esta graça em favor de uma mulher desgraçada, escreva a P. L., e mande pôr no correio, que eu lá mandarei buscar.

Adeus! adeus!

Amaro Faria não estava acostumado a romances destes, nem eles são comuns na vida. A primeira carta produzira-lhe uma certa curiosidade, que aliás passou; mas a segunda já lhe produzira mais; sentia-se atraído para o misterioso e o desconhecido, isso a que ele fugira sempre, contentando-se com a realidade prática das coisas.

— Devo escrever-lhe? perguntava ele consigo. É positivo que esta mulher ama-me; não se escrevem cartas assim. É bonita, porque o confessa sem medo de prová-lo algum dia. Mas devo escrever-lhe?

Nisto batem palmas.

V

Era Luís Marcondes que chegava da Europa.

— Que é isto? já de volta? perguntou-lhe Amaro.

— É verdade; para variar. Eu é que me admiro de achar-te na corte, quando já te fazia na fazenda.

— Não, não fui à Soledade depois que voltei; e vais espantar-te da razão; vou casar-me.

— Casar-te!

— É verdade.

— Com a mão esquerda, morganaticamente...

— Não, publicamente, e com a mão direita.

— É assombroso.

— Dizes isso porque não conheces a minha noiva; é um anjo.

— Então dou-te os meus parabéns.

— Hei de apresentar-te hoje. E para festejar a tua chegada jantas comigo.

— Sim.

À mesa do jantar, Amaro contou a Marcondes a história das cartas; e leu-lhes ambas.

— Bravo! disse Marcondes. Que lhe respondeste?

— Nada.

— Nada! És um grosseirão e um tolo. Pois uma mulher escreve-te, mostra-se apaixonada por ti, e tu nada lhe respondes? Não fará isso o Marcondes. Desculpa se te falo em verso... O velho Horácio...

Estava iminente um discurso. Faria, para atalhá-lo, apresentou-lhe a lista, e Marcondes passou rapidamente do velho Horácio a um assado com batatas.

— Mas, continuou o amigo de Amaro, não me dirás por que motivo lhe não respondeste?

— Eu sei lá. Primeiramente porque não estou acostumado a esta espécie de romances vivos, começando por cartas anônimas, e depois porque vou casar...

— A isso respondo eu que uma vez é a primeira, e que o ires casar não impede nada. Indo daqui para Botafogo, não há motivo nenhum que me impeça de entrar no Passeio Público ou na Biblioteca Nacional... Queres tu ceder-me o romance?

— Isso nunca: seria uma deslealdade...

— Pois então responde.

— Mas que lhe hei de dizer?

— Dize-lhe que a amas.

— É impossível; ela não pode acreditar...

— Pateta! disse Marcondes pondo vinho nos cálices. Dize-lhe que a simples leitura das cartas te puseram a cabeça a arder, e que já sentes que hás de vir a amá-la, se já não a amas... e neste sentido escreve-lhe três ou quatro laudas.

— Então achas que eu devo...

— Sem dúvida alguma.

— Para falar a verdade eu tenho certa curiosidade...

— Pois avante.

Amaro escreveu nessa mesma tarde uma carta concebida nestes termos, que Marcondes aprovou integralmente:

Senhora. — Quem quer que seja, é uma alma grande e um coração de fogo. Só um grande amor pode aconselhar um passo destes tão arriscado.

Li e reli as suas duas cartas; e hoje, quer que lhe diga? penso nelas exclusivamente; fazem-me o efeito de um sonho. Eu pergunto a mim mesmo se é possível que eu inspirasse tal amor, e agradeço aos deuses o ter-me demorado aqui na corte, pois que tive ocasião de ser feliz.

(continua...)

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