Por Machado de Assis (1868)
Desta vez Amaro abriu a carta apressadamente, por ter visto que a letra era a mesma. O romance começava a interessá-lo.
Dizia a carta:
Foi inútil o meu protesto. Quis deixar de escrever-lhe mais; apesar de tudo, sinto que não posso deixar de fazê-lo. É uma necessidade fatal...
Ah! os homens ignoram quanto esforço é preciso a uma mulher para conter-se nos limites do dever.
Hesitei muito em escrever-lhe a primeira carta, e esta mesmo não sei se lha remeterei; mas o amor triunfou e triunfará sempre, porque eu já não vivo senão pela sua lembrança! De noite e de dia, a todas as horas, em todas as circunstâncias, a sua pessoa está sempre presente ao meu espírito.
Sei o seu nome, sei a sua posição. Sei mais que é um homem de bem. O senhor é que não sabe quem eu sou, e pensará ao ler estas cartas, que eu ando em busca de um romance que me rejuvenesça o coração e as feições. Não; sou moça, e posso afirmar que sou bela. Não é porque mo digam; poderão querer lisonjear-me; mas o que não é lisonja é o murmúrio de admiração que eu ouço apenas entro numa sala ou passo em alguma rua.
Desculpe se lhe falo de mim com esta linguagem.
O que importa saber é que eu o amo perdidamente, e que a ninguém mais pertenço, nem pertencerei.
Uma carta sua, uma linha, uma lembrança, para que eu tenha uma relíquia e um talismã. Se quiser fazer esta graça em favor de uma mulher desgraçada, escreva a P. L., e mande pôr no correio, que eu lá mandarei buscar.
Adeus! adeus!
Amaro Faria não estava acostumado a romances destes, nem eles são comuns na vida. A primeira carta produzira-lhe uma certa curiosidade, que aliás passou; mas a segunda já lhe produzira mais; sentia-se atraído para o misterioso e o desconhecido, isso a que ele fugira sempre, contentando-se com a realidade prática das coisas.
— Devo escrever-lhe? perguntava ele consigo. É positivo que esta mulher ama-me; não se escrevem cartas assim. É bonita, porque o confessa sem medo de prová-lo algum dia. Mas devo escrever-lhe?
Nisto batem palmas.
V
Era Luís Marcondes que chegava da Europa.
— Que é isto? já de volta? perguntou-lhe Amaro.
— É verdade; para variar. Eu é que me admiro de achar-te na corte, quando já te fazia na fazenda.
— Não, não fui à Soledade depois que voltei; e vais espantar-te da razão; vou casar-me.
— Casar-te!
— É verdade.
— Com a mão esquerda, morganaticamente...
— Não, publicamente, e com a mão direita.
— É assombroso.
— Dizes isso porque não conheces a minha noiva; é um anjo.
— Então dou-te os meus parabéns.
— Hei de apresentar-te hoje. E para festejar a tua chegada jantas comigo.
— Sim.
À mesa do jantar, Amaro contou a Marcondes a história das cartas; e leu-lhes ambas.
— Bravo! disse Marcondes. Que lhe respondeste?
— Nada.
— Nada! És um grosseirão e um tolo. Pois uma mulher escreve-te, mostra-se apaixonada por ti, e tu nada lhe respondes? Não fará isso o Marcondes. Desculpa se te falo em verso... O velho Horácio...
Estava iminente um discurso. Faria, para atalhá-lo, apresentou-lhe a lista, e Marcondes passou rapidamente do velho Horácio a um assado com batatas.
— Mas, continuou o amigo de Amaro, não me dirás por que motivo lhe não respondeste?
— Eu sei lá. Primeiramente porque não estou acostumado a esta espécie de romances vivos, começando por cartas anônimas, e depois porque vou casar...
— A isso respondo eu que uma vez é a primeira, e que o ires casar não impede nada. Indo daqui para Botafogo, não há motivo nenhum que me impeça de entrar no Passeio Público ou na Biblioteca Nacional... Queres tu ceder-me o romance?
— Isso nunca: seria uma deslealdade...
— Pois então responde.
— Mas que lhe hei de dizer?
— Dize-lhe que a amas.
— É impossível; ela não pode acreditar...
— Pateta! disse Marcondes pondo vinho nos cálices. Dize-lhe que a simples leitura das cartas te puseram a cabeça a arder, e que já sentes que hás de vir a amá-la, se já não a amas... e neste sentido escreve-lhe três ou quatro laudas.
— Então achas que eu devo...
— Sem dúvida alguma.
— Para falar a verdade eu tenho certa curiosidade...
— Pois avante.
Amaro escreveu nessa mesma tarde uma carta concebida nestes termos, que Marcondes aprovou integralmente:
Senhora. — Quem quer que seja, é uma alma grande e um coração de fogo. Só um grande amor pode aconselhar um passo destes tão arriscado.
Li e reli as suas duas cartas; e hoje, quer que lhe diga? penso nelas exclusivamente; fazem-me o efeito de um sonho. Eu pergunto a mim mesmo se é possível que eu inspirasse tal amor, e agradeço aos deuses o ter-me demorado aqui na corte, pois que tive ocasião de ser feliz.
(continua...)
ASSIS, Machado de. O carro nº 13. Jornal das Famílias. Rio de Janeiro, 1868.