Por Machado de Assis (1871)
— Eu fui o que ele vai sendo, respondeu Silvestre, e todavia ninguém me vence em bom comportamento. Deixe estar, padre, que ele há de seguir os exemplos do pai. Jorge trocou algumas palavras com a prima, e retirou-se para o seu aposento, enquanto a moça continuava a tocar e os dois velhos decidiam a partida.
Entrou, então, na sala um novo personagem: o dr. Marques, homem de seus quarenta e quatro anos, corado, vigoroso, um tanto grisalho de barba e dos cabelos. Era o médico da família; conhecia o comendador quase desde a infância, e entretinha laços de nunca desmentida amizade. Ele e o padre eram os dois mais íntimos da casa.
— Chega a propósito, disse o padre. Traz a caixa?
— Pois não, disse o recém-chegado depois de ir apertar a mão a Clarinha.
— Graças a Deus; venha de lá uma pitada.
— Duas, duas! emendou Silvestre; há de sofrer dois ataques, um por bombordo e outro por estibordo.
Ambos os gamonistas esfregaram os dedos no lenço, e sacaram da bolsa do dr. Marques duas grossas pitadas. O padre inseria a sua em ambas as ventas, e com o lenço sacudia o pó que lhe caíra na camisa, enquanto o comendador, carregando com o dedo polegar na venta direita, introduzia toda a pitada na venta esquerda.
Marques deixou os dois velhos entregues ao gamão e dirigiu-se ao piano, na ocasião em que a moça se ia levantar para deixar a sala.
— Não quer tocar mais? perguntou Marques.
— Tenho que fazer... murmurou Clara em voz baixa e sem levantar os olhos. Marques lançou um rápido olhar para os dois gamonistas, e vendo que estavam entretidos com os dados, murmurou ao ouvido da moça:
— E a resposta?
— Deixe-me sair... respondeu Clarinha.
E caminhando rapidamente para a porta, desapareceu da sala. Marques ficou ao pé do piano com o ar embaçado que o leitor naturalmente imagina, enquanto o padre Barroso, deitando os dados, exclamava alegremente:
— Coitadinho, comendador, coitadinho!
IV
UM CONSELHO
Marques foi ter com Jorge. Encontrou o filho do comendador a ler um romance de Feydeau. Fechou a porta do gabinete, puxou uma cadeira e foi sentar-se junto de Jorge. Este marcou a página com uma conta do alfaiate e sem mudar de posição, disse ao hóspede:
— Temos novidade?
— Nenhuma, respondeu Marques, e é justamente o pior.
— Que há?
— Perguntei-lhe agora pela resposta, e ela não me disse nada; mas saiu da sala com um modo que me tira toda a esperança. Creio que o seu conselho de escrever a carta foi mau.
— Mau! disse Jorge. Em nenhum caso podia sê-lo; uma carta não prova nada contra o senhor; podia, e pode dar um bom resultado. Quer que lhe diga uma coisa?
— Que é?
— Não desanime. A prima há de ceder, porque não pode encontrar melhor marido que o senhor... O senhor é capaz de a fazer feliz. Se ela não lhe respondeu é por excesso de reserva. Tem medo de que lhe levem a mal. Olhe, por que não fala a minha mãe?
— À sua mãe?
— Sim, ela obedece-lhe muito; estou que é um bom caminho. Vá, fale, e a coisa tomará bom caminho.
Marques levantou-se, tomou uma pitada, deu alguns passos no gabinete, concertou as
suíças a um espelho e voltou a assentar ao pé do sofá.
— Mas está certo, disse ele, de que não há outro namoro?
— Certo, não lhe digo que esteja, mas tudo faz crer que não. Clarinha é muito metida consigo, e passa a vida ocupada nos arranjos da casa. Estas coisas mais ou menos se sabem ou desconfiam. Nada me consta a respeito dela... Tome o meu conselho; fale com minha mãe.
— Está dito! exclamou Marques; tomo o seu conselho.
Trata-se, como se vê, de um amor que o médico da casa dedicava à sobrinha de Silvestre Aguiar. Este amor, não o quero dar como uma dessas paixões infrenes e fogosas da juventude, nem com um desses amores tardios que nascem com a maturidade. Era uma afeição branda, temperada, refletida. Marques nunca fora casado; o celibato fora o programa de toda a sua vida, e sê-lo-ia até ao dia da morte, se as qualidades de Clarinha, a sua aplicação ao trabalho, os seus hábitos inocentes e graves, lhe não tivessem influído no ânimo a ponto de lhe despertar a idéia do matrimônio.
O espetáculo de uma vida plácida no meio da família começou a seduzir-lhe o coração. A razão veio auxiliar este impulso natural; comparou o que seria uma velhice solitária com uma velhice cercada dos cuidados de uma esposa digna desse nome. Clarinha parecia reunir as qualidades necessárias para o papel de sua companheira, e o médico, que tinha intimidade com Jorge, confiou-lhe tudo. Jorge aconselhou-lhe a arma epistolar e Marques, com a docilidade de quem está disposto a tudo, arriscou logo a primeira carta à moça. A esta carta é que aludia. Já sabemos que a moça, não só não lhe respondera, mas até parecia fugir ao pretendente. Isto podia ser algum namoro, como sugerira a Jorge, mas também podia ser natural reserva de Clarinha, que observava rigorosamente as rígidas doutrinas de D. Joaquina. Na opinião desta boa senhora, a noiva só devia conhecer o noivo no dia do casamento.
— E já é conceder muito, acrescentava ela.
(continua...)
ASSIS, Machado de. O caminho de Damasco. Jornal das Famílias, 1871.