Por Machado de Assis (1876)
Alugou casa perto do convento da Ajuda, e ali estava morando, a título de ver a Capital. O romance assumiu proporções grandes, complicou-se o enredo, avultaram as descrições e as peripécias, e a obra ameaçava estender-se a muitos volumes. Nestas circunstâncias exigir do magistrado que se alongasse da Capital algumas semanas, era exigir o mais difícil e aspérrimo. Imagine-se com que alma saiu dali o magistrado. Qual fosse o negócio de Estado que obrigou aquele chamado noturno, não sei eu, nem importa sabê-lo. O essencial é que durante três dias ninguém arrancou um sorriso aos lábios do magistrado, e que no terceiro dia volveu-lhe a alegria mais espontânea e viva, que até ali tivera. Adivinha-se que a necessidade da jornada desapareceu e que o romance não ficava truncado.
O almotacé foi dos primeiros que viram esta mudança. Preocupado com a tristeza do juiz de fora, não menos o ficou ao vê-lo novamente satisfeito.
— Não sei qual foi o motivo da tristeza de V. S., disse ele, mas espero mostrar-lhe quanto me alegro com vê-lo tornado às suas usuais venturas.
Efetivamente, o almotacé tinha dito à filha que era necessário dar um mimo qualquer, de suas mãos, ao juiz de fora, com quem, se a fortuna a ajudasse, viria a ser aparentada.
Custódio Marques não viu o golpe que a filha recebeu com esta palavra; exigia o cargo municipal que ele fosse dali a serviço, e foi, deixando a alma da menina doente de maior aflição.
Entretanto, a alegria do juiz de fora era tal, e tão agudo se ia tornando o romance, que já o feliz magistrado observava menos as costumadas cautelas. Um dia, cerca das seis horas da tarde, passando o almotacé pela Rua da Ajuda, viu sair de uma casa, de nobre aparência, a venturosa figura do magistrado. Sua atenção encrespou as orelhas; e os olhos perspicazes faiscaram de contentamento. Haveria ali um fio? Logo que viu longe o juiz de fora, aproximou-se da casa, como farejando; dali foi à loja mais próxima, onde soube que na dita casa morava a interessante viúva mineira. A eleição de vereador ou um presente de quatrocentos africanos, não o contentaria mais.
— Tenho o fio! dizia ele consigo. Resta-me ir ao fundo do labirinto.
Daí em diante, não houve assunto que distraísse o espírito investigador do almotacé. De dia e de noite, vigiava a casa da Rua da Ajuda, com pertinácia e dissimulação raras; e tão feliz foi que, no fim de cinco dias, tinha certeza de tudo. Auxiliou-o nisso a indiscrição de alguns escravos. Uma vez sabedor da aventura, deu-se pressa em correr à casa do juiz de fora.
— Ainda agora aparece! exclamou este logo que o viu entrar.
— V. S. fez-me a honra de mandar chamar?
— Há meia hora que andam dois emissários em sua procura.
— Eu estava em serviço de V. S.
— Como?
— Não lhe dizia eu que havia de descobrir alguma coisa? perguntou o almotacé piscando os olhos.
— Alguma coisa!
— Sim, aquilo... V. S. sabe a que me refiro... Meteu-se-me em cabeça que V. S. não podia escapar-me.
— Não compreendo.
— Não compreende V. S. outra coisa, disse Custódio Marques deliciando-se com o repassar do ferro na curiosidade do protetor.
— Mas, sr. Custódio, trata-se...
—Trate-se do que se tratar; declaro a V. S. que sou de segredo, e por isso nada direi a ninguém. Que havia de haver algum bico d’ obra, era verdade; andei à espreita, e afinal descobri a moça ... a moça da Rua da Ajuda.
— Sim?
— É verdade. Fiz a descoberta há dois dias; mas não vim logo porque queria certificar-me bem. Agora, posso dizer-lh que ... sim, senhor ... aprovo. É muito bonita.
—Andou então na investigação dos meus passos?
— V. S. compreende que não há outra intenção...
—Pois, senhor Custodio Marques, madei-o chamar por toda a parte, visto que há cerca de três quartos de hora tive notícia de que sua filha fugiu de casa...
—O almotacé deu um pulo; seus dois olhinhos cresceram desmesuradamente; a boca, aberta, não ousava proferir uma só palavra.
—Fugiu de casa, continuou o magistrado, segundo notícia que tenho, e creio que ...
—Mas com quem? com quem? para onde? Articulou, enfim o almotacé.
— Fugiu com o Gervásio Mendes. Vão na direção da Lagoa da Sentinela...
— Sr. dr. Peço-lhe perdão, mas, bem sabe ... bem sabe ...
— Vá, vá ...
— Custódio Marques não atinava com o chapéu. Deu-lho o juiz de fora.
—Corra...
— Olhe a bengala!
O almotacé recebeu a bengala.
— Obrigado! Quem tal diria! Ah! nunca pensei... que minha filha, e aquele peralta... Deixe os comigo...
— Não perca tempo.
— Vou... vou.
— Mas, olhe cá, antes de ir. Um astrólogo contemplava os astros, com tamanha atenção, que caiu num poço. Uma velha da Trácia vendo-o cair, soltou esta exclamação: “Se ele não via o que lhe estava aos pés, para que havia de investigar o que lá fica tão em cima!” O almotacé compreenderia o apólogo, se pudesse ouvi-lo. Mas não ouviu nada. Desceu as escadas a quatro e quatro bufando como um touro.
Il court encore.
Baixar texto completo (.txt)ASSIS, Machado de. O astrólogo. Jornal das Famílias. Rio de Janeiro, 1876.