Por Machado de Assis (1869)
Enquanto lavava o rosto, perguntou-lhe o criado:
— A que horas almoça?
— Almoçar?
— Sim, almoçar.
— Pois eu vou ficar aqui?
— São ordens que tenho.
— Mas, enfim, estou ansioso por falar a esse major que não conheço, e que me tem preso sem que eu saiba por que motivo.
— Preso! exclamou o criado. O senhor não está preso; meu amo quer falar-lhe, e por isso é que eu o fui chamar; deu-lhe quarto, cama, dá-lhe um almoço; creio que isto não é tê-lo preso.
O doutor tinha enxugado o rosto, e sentou-se numa poltrona.
— Mas que me quer teu amo? perguntou-lhe.
— Isso não sei, respondeu o criado. A que horas quer o almoço?
— A que for do teu gosto.
— Bem, respondeu o criado. Aqui tem as folhas.
O criado fez um respeitoso cumprimento ao doutor e saiu fechando a porta. Cada minuto que passava era para o desgraçado moço um século de angústia. O que mais o torturava eram precisamente aquelas atenções, aqueles obséquios sem explicação possível, sem presumível desfecho. Que homem seria esse major, e que lhe queria ele? O doutor fez mil vezes esta pergunta a si mesmo sem achar resposta possível.
Do criado já sabia ele que nada poderia alcançar; além de novo na casa, parecia absolutamente estúpido. Seria honesto?
O dr. Antero fez esta última reflexão metendo a mão no bolso e tirando a carteira. Restavam-lhe ainda uns cinqüenta mil-réis.
— É quanto basta, pensou ele, para conseguir deste pateta que me ponha fora daqui. O doutor esquecia que já na véspera o criado recusara dinheiro em troca de um serviço menos importante.
Às nove horas o criado voltou trazendo numa bandeja um almoço delicado e apetitoso. Apesar da gravidade da situação, o nosso herói atacou o almoço com uma intrepidez de verdadeiro general de mesa. Dentro de vinte minutos só restavam nos pratos mortos e feridos.
Ao mesmo tempo que comia ia ele interrogando o criado.
— Dize-me cá; queres fazer-me um grande favor?
— Qual?
— Tenho aqui cinqüenta mil-réis à tua disposição, e amanhã posso dar-te mais cinqüenta, ou cem, ou duzentos; em troca disto peço-te que arranjes meio de me pôr fora desta casa.
— Impossível, senhor, respondeu o criado sorrindo; eu só obedeço a meu amo.
— Sim; mas teu amo nunca virá a saber que eu te dei dinheiro; tu podes dizer-lhe que a minha fuga foi devida a um descuido, e deste modo ficamos ambos salvos.
— Eu sou honrado; não posso aceitar o seu dinheiro.
O doutor ficou desanimado com a austeridade do fâmulo; bebeu o resto do borgonha que tinha no copo, e levantou-se fazendo um gesto de desespero.
O criado não se impressionou; preparou o café para o hóspede e foi oferecer-lhe. O doutor bebeu dois ou três goles e restituiu-lhe a xícara. O criado arrumou a louça na bandeja e saiu.
No fim de meia hora voltou o criado dizendo que seu amo estava pronto para receber o dr. Antero.
Conquanto o doutor desejasse sair da situação em que se achava, e saber o fim para que o haviam mandado buscar, nem por isso o impressionou menos a idéia de ir ver enfim o terrível e desconhecido major.
Lembrou-se que podia haver algum perigo, e instintivamente apalpou a algibeira; esquecia-se de que ao deitar-se tinha posto a pistola debaixo do travesseiro. Era impossível tirá-la à vista do criado, resignou-se.
O criado fê-lo sair primeiro, fechou a porta e seguiu adiante para guiar o mísero doutor. Atravessaram o corredor por onde haviam passado na véspera; depois entraram em outro corredor que ia ter a uma pequena sala. Aí disse o criado ao doutor que esperasse enquanto ia dar parte a seu amo, e penetrando numa sala que ficava à esquerda, voltou pouco depois dizendo que o major esperava o dr. Antero.
O doutor passou à outra sala.
IV
Estava ao fundo, sentado numa poltrona de couro, um velho alto e magro, envolvido num largo chambre amarelo.
O doutor deu apenas alguns passos e parou; mas o velho, apontando-lhe para uma cadeira que lhe ficava defronte, convidou-o a sentar.
O doutor obedeceu imediatamente.
Houve um curto silêncio, durante o qual o dr. Antero pôde examinar a figura que tinha diante de si.
Os cabelos do major Tomás eram completamente brancos; a tez era pálida e macilenta. Os olhos vivos, mas encovados; dissera-se a luz de uma vela prestes a extinguir-se, e soltando do fundo do castiçal os seus últimos lampejos.
Os beiços do velho eram finos e brancos; e o nariz, curvo como um bico de águia, assentado sobre um par de bigodes da cor dos cabelos; os bigodes eram a base daquela enorme coluna.
(continua...)
ASSIS, Machado de. O anjo Rafael. Jornal das Famílias. Rio de Janeiro, 1869.