Por Machado de Assis (1862)
(baixo)
Isto não se faz! (a Carlota) Aqui tem, minha senhora...
CARLOTA
Agradecida. Por que se retirou ontem tão cedo? Não lho quis perguntar... de boca; mas creio que o interroguei com o olhar.
INOCÊNCIO
(no cúmulo da satisfação)
De boca?... Com o olhar?... Ah! queira perdoar, minha senhora... mas um motivo
imperioso...
DOUTOR
Imperioso... não é delicado.
CARLOTA
Não exijo saber o motivo; supus que se houvesse passado alguma coisa que o desgostasse...
INOCÊNCIO
Qual, minha senhora; o que se poderia passar? Não estava eu diante de V. Exa. para consolar-me com seus olhares de algum desgosto que houvesse? E não houve nenhum.
CARLOTA
(ergue-se e bate-lhe com o leque no ombro)
Lisonjeiro!
DOUTOR
(descendo entre ambos)
V. Exa. há de desculpar-me se interrompo uma espécie de idílio com uma coisa prosaica, ou antes com outro idílio, de outro gênero, um idílio do estômago; o almoço...
CARLOTA
Almoça conosco?
DOUTOR
Oh! minha senhora, não seria capaz de interrompê-la; peço simplesmente licença para ir almoçar com um desembargador da relação a quem tenho de prestar umas informações. CARLOTA
Sinto que na minha perda, ganhe um desembargador; não sabe como odeio a toda essa gente do foro; faço apenas uma exceção.
DOUTOR
Sou eu.
CARLOTA
(sorrindo)
É verdade. Donde concluiu?
DOUTOR
Estou presente!
CARLOTA
Maldoso!
DOUTOR
Fica, não, Sr. Inocêncio?
INOCÊNCIO
Vou. (baixo ao Doutor) Estalo de felicidade!
DOUTOR
Até logo!
INOCÊNCIO
Minha senhora!
Cena IV
CARLOTA, VALENTIM
CARLOTA
Ficou?
VALENTIM
(indo buscar o chapéu)
Se a incomodo...
CARLOTA
Não. Dá-me prazer até. Ora, por que há de ser tão suscetível a respeito de tudo o que lhe digo?
VALENTIM
É muita bondade. Como não quer que seja suscetível? Só depois de estarmos a sós é que V. Exa. se lembra de mim. Para um velho gaiteiro acha V. Exa. palavras cheias de bondade e sorrisos cheios de doçura.
CARLOTA
Deu-lhe agora essa doença? (vai sentar-se junto à mesa)
VALENTIM
(senta-se junto à mesa defronte de Carlota)
Oh! não zombe, minha senhora! Estou certo de que os mártires romanos prefeririam a morte rápida à luta com as feras do circo. O seu sarcasmo é uma fera indomável; V. Exa. tem certeza disso e não deixa de lançá-lo em cima de mim.
CARLOTA
Então sou temível? Confesso que ainda agora o sei. (uma pausa) Em que cisma?
VALENTIM
Eu?... em nada!
CARLOTA
Interessante colóquio!
VALENTIM
Devo crer que não faço uma figura nobre e séria. Mas não me importa isso! A seu lado eu afronto todos os sarcasmos do mundo. Olhe, eu nem sei o que penso, nem sei o que digo. Ridículo que pareça, sinto-me tão elevado o espírito que chego a supor em mim algum daqueles toques divinos com que a mão dos deuses elevava os mortais e lhes inspirava forças e virtudes fora do comum.
CARLOTA
Sou eu a deusa..
VALENTIM
Deusa, como ninguém sonhara nunca; com a graça de Vênus e a majestade de Juno. Sei eu mesmo defini-la? Posso eu dizer em língua humana o que é esta reunião de atrativos únicos feitos pela mão da natureza como uma prova suprema do seu poder? Dou-me por fraco, certo de que nem pincel nem lira poderão fazer mais do que eu.
CARLOTA
Oh! é demais! Deus me livre de o tomar por espelho. Os meus são melhores. Dizem coisas menos agradáveis, porém mais verdadeiras.
VALENTIM
Os espelhos são obras humanas; imperfeitos, como todas as obras humanas. Que melhor espelho, quer V. Exa, que uma alma ingênua e cândida?
CARLOTA
Em que corpo encontrarei... esse espelho?
VALENTIM
No meu.
CARLOTA
Supõe-se cândido e ingênuo?
VALENTIM
Não me suponho, sou.
CARLOTA
É por isso que traz perfumes e palavras que embriagam? Se há candura é em querer fazer-me crer...
VALENTIM
Oh! não queira V. Exa. trocar os papéis. Bem sabe que os seus perfumes e as suas palavras é que embriagam. Se eu falo um tanto diversamente do comum é porque falam em mim o entusiasmo e a admiração. Quanto a V. Exa. basta abrir os lábios para deixar cair dele aromas e filtros cujo segredo só a natureza conhece.
CARLOTA
Estimo antes vê-lo assim. (começa a desenhar distraidamente em um papel)
VALENTIM
Assim... como?
CARLOTA
Menos... melancólico.
VALENTIM
É esse o caminho do seu coração?
CARLOTA
(continua...)
ASSIS, Machado de. O caminho da porta. Rio de Janeiro, 1862.