Por Aluísio Azevedo (1890)
A idéia do suicídio veio-lhe então. Ou pelo menos a idéia de encontrar a morte em um qualquer combate. Porque ele sentia-se melhor do que era. E via-se infeliz, fazendo a desgraça de todos aqueles de quem se aproximava.
Lá em Argel vieram-lhe, porém, novos amores e uns anos de calma fruídos lentamente no gozo lascivo dos serralhos.
O Bey apaixonara-se por essa criança esquisita, de olhar altivo, mas tenebroso, e que tão bem sabia gargalhar um riso triste, de amarguras e de dores. E o moço italiano foi prosperando de haveres e de posições. Quando o instinto das batalhas o espicaçava muito furte, seguia para o deserto à caça do leão.
Noticias, porém, da sua pátria, a intolerável opressão austríaca e as guerras valentes de Bonaparte o fizeram voltar para a sua terra onde melhor podia viver o seu gênio aventureiro de fidalgo.
Cumpria-se, entretanto, a fatal predição da cigana. E semelhante projeto foi o ponto de partida de uma série de desastres Um naufrágio fez-lhe perder a galera, onde iam os seus tesouros e as suas escravas, quase à entrada mesmo do porto de Nápoles.
E foi como simples soldado que ele entrou no exército da Venécia. Prisioneiro do austríaco e condenado à morte, conseguiu fugir entretanto graças ao auxílio de um fidalgo espanhol a quem salvara a vida e que o levou a Madri.
Foi ai que ele conheceu d. Bias, com quem se passou para Portugal e mais tarde para o Brasil junto com a comitiva de d. João VI que o escolhera para mestre de armas de seus filhos.
Na corte do monarca lusitano, o Satanás fez-se também escultor, artista galante, querido das damas, a quem impressionava pela altivez cavalheirosa de seu porte e pelo aventureiro de seu viver.
E nos anais do tempo ficou celebrado o seu amor com uma das damas da rainha, de quem houve uma filha, que estava sendo misteriosamente educada, ninguém sabia onde.
Aqui no Brasil fora ele quem dera a nota boêmia da vida nas tavernas, protegido que andava pela amizade de d. Pedro.
Velho embora, e taciturno, ele sabia fazer a alegria em torno de si. Tinha idéias esquisitas, caprichos de imaginação e principalmente um gênio batalhador que dava às suas noitadas um aspecto aventuroso de novidades e imprevistos.
E por muitas vezes pareceu-lhe que se renovavam para si aqueles bons tempos ditosos de Argel. Enriquecia e subia em considerações e importâncias.
Com o regresso de d. João VI, entregue que ficou a colônia ao príncipe regente, o Satanás foi quase a segunda pessoa do Estado, muito ouvido e atendido por d. Pedro, que conservara um grande respeito pelo seu velho mestre de armas de quem fazia guarda-costas nas costumeiras excursões noturnas.
Por isso estavam todos agora muito respeitosos, ali na bodega do Trancoso.
Apenas d. Bias teve a coragem de sentar-se junto a mesa, como velho conhecido de todos os tempos e de todas as vicissitudes. Beberam juntos, muito calados, logo após a troca. de algumas palavras.
E o Satanás pediu logo a espada que tinha mandado limpar.
- Boa lâmina! disse o Carniça para fazer conversa.
Mas ninguém teve a coragem de acrescentar palavra porque Satanás voltou-se e esparramou um olhar de desprezo por sobre os circunstantes.
Depois ergueu-se e atirou para cima do balcão uma moeda de ouro, dizendo ao Trancoso:
- Pague isso em bebidas a esta gente.
E saiu, sem ligar importância aos agradecimentos que lhe queriam fazer, chapinhando na lama do Piolho com as grandes botas de cavaleiro, e misturando nas trevas do derredor o longo fantasma de seu vulto de capa preta.
III
O PARAÍSO DE SATANÁS
O Satanás seguiu toda a Rua do Piolho e enveredou pela do Conde Lourenço da Cunha. Quase ao chegar ao campo de Santana, parou à porta de uma casinha modesta, de varanda pintada de verde, e bateu três vezes com os copos da espada.
Era ali, desconhecido e afastado, que fulgurava para o Satanás, o que ele chamava - o seu paraíso: era ali que o escultor escondia, como um avarento esconde o seu tesouro, a filha adorada única afeição pura da sua vida.
Ângelo Pallingrini, o Satanás, como mestre d'armas do príncipe, dedicara-se a guiar-lhe e fortificar-lhe o pulso; e quando o príncipe se fez homem, quando o seu altivo temperamento cavalheiresco se desenvolveu, ávido de amores e de façanhas, o Satanás passou sem transição do ofício de mestre d'armas ao ofício de alcoviteiro, e depois de guiar-lhe o pulso, começou a guiar-lhe o coração. Dentro do bolso do seu gibão havia sempre a certeza de se encontrar pelo menos um bilhetinho amoroso do real conquistador. O Satanás desbravava o caminho, aplanava-o, desembaraçava-o de todas as dificuldades.
Quando o príncipe chegava, estava tudo feito: via e vencia - e, logo perto, ficava o servidor fiel, de espada em punho, vigiando os amores do seu amo, para não deixar que os fosse perturbar a fúria de um pai rebarbativo ou a inconveniência de um marido indignado.
(continua...)
AZEVEDO, Aluísio Azevedo. O esqueleto. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7409 . Acesso em: 18 mar. 2026.