Por Machado de Assis (1866)
Oito dias antes, as folhas dos dois contendores começaram a agitar a questão. O Farol, de Manoel Tobias, começou por um artigo de fundo estirado e indigesto; o jornalista, querendo provar que Chico Teles não podia exercer o cargo que ocupava, viu-se obrigado a remontar aos gregos, e a descrever o ostracismo. A resposta de Chico aproveitou-se da alusão histórica, e lembrou que também Aristides fora desterrado, apesar de justo, mas que ele confiava no bom senso do povo da vila.
Três dias antes da eleição fervia tudo; circularam as chapas, umas verdes, outras amarelas; faziam-se visitas, e até as folhas adversárias deram suplementos todas as tardes, cheios de artigos coruscantes.
O sr. Anselmo aproveitou esta situação, e disse no Azorrague:
Parece que não é um presidente de irmandade que se vai eleger, mas um papa dos doidos, e a irmandade há de ver-se atrapalhada para escolher entre o Teles e o Tobias. O nosso conselho é que escolha ambos.
Enfim, raiou o dia.
Teles vestiu-se de ponto em branco, pôs a sua comenda, e encaminhou-se para a matriz; já lá estava Manoel Tobias, igualmente enfeitado; conversava com o padre vigário, mas via-se pelo olhar vago que ele não se preocupava muito com a reverendíssima conversa.
Chico Teles tinha arranjado de véspera uns vinte capangas, que se foram postar à porta da igreja para dar-lhe vivas, apenas ele assomasse. Assim aconteceu. Chico Teles fez-se muito comovido, e agradeceu com o chapéu aquela manifestação de popularidade.
Fez-se a eleição. Foi muito solene; Teles contava sair, e Tobias estava certo de derrotá-lo: o candidato apresentado por este era uma figura secundária, mas a sua influência dava-lhe valor.
Para vencer este pleito tinham ambos posto em prática os meios mais engenhosos; promessas, nomeações, e até hábitos de Cristo, tudo. Que luta! No fim de alguns minutos, porém, tudo estava acabado; Teles venceu, e estava presidente da irmandade por mais um ano.
Tobias saiu da sacristia, e não voltou, senão à hora do sermão, por pedido do padre vigário, que nesse dia impingia um pot-pourri de Bourdaloue e Antônio Vieira.
Teles deu um grande jantar a vários amigos, e festejou desse modo o seu triunfo.
No dia seguinte o Atalaia publicava uma longa narração da festa, e quanto à eleição do presidente dizia:
Apesar das cabalas e das torpeza de certo caturra desta vila, o sr. Francisco Teles foi reeleito presidente da irmandade de S. Francisco. Foi um verdadeiro triunfo. Nem podia deixar de ser assim. Quem possui a popularidade de tão distinto chefe não deve temer nunca.
Para prova de que o sr. Teles é o querido do povo basta ver como a opinião pública o recebeu à porta da igreja com vivas e aclamações.
Honra à população desta vila!
No dia em que saiu este artigo, os vinte capangas da véspera foram à casa de Chico receber um suplemento ao donativo que já lhes havia este fornecido. Quando os viu à porta, Alfredo que assistira à cena da véspera, e lera a folha do dia, foi correndo chamá-lo:
— Meu pai! meu pai! aí está a opinião pública.
CAPÍTULO VI
Manoel Tobias não podia sofrer impunemente a derrota. Retirou-se às suas tendas e entrou a refletir nos meios de tirar uma desforra tremenda, e aniquilar de uma vez o subdelegado Chico Teles.
Muitas lhe lembraram, mas Tobias, apesar do fervor em que estava, podia refletir no perigo de uma nova derrota, se o plano não fosse inteiramente eficaz. Mortificava-o sobretudo a idéia de que ele, juiz de paz tão estimado do povo, pudesse ser vencido na ocasião da eleição da irmandade de S. Francisco. É verdade que nesse pleito não estavam empenhados os interesses políticos da vila; todavia, o bom juiz de paz assustou-se com a direção que iam tomando os espíritos, e meditou profundamente nas modificações da opinião pública.
O que lhe pareceu mais sensato, no fim de uma hora de reflexão, foi aguardar as eleições municipais e políticas que se deviam fazer naquele mesmo ano.
Entretanto não lhe pareceu desacertado lançar algumas sementes à terra, e começou enviando para o governo do Rio de Janeiro uma coleção do Farol, com os artigos que descompunham Chico Teles marcados a tinta vermelha.
O ministro recebeu os jornais, e sem abri-los, deu-os a um filho, que fez da prosa de Manoel Tobias chapéus armados e canudos.
Novo presidente foi tomar conta da província, e uma circular dirigida a todas as autoridades declarou-lhes que a administração nova seguiria os passos da primeira.
Quando a circular chegou às mãos de Manoel Tobias, conversava este com o padre vigário.
— É um novo presidente, disse Tobias.
— Safa! exclamou o vigário, é quase um por mês. Parece que o governo não tem outro fim senão dar às províncias o espetáculo de novas caras. E a política?
— É o statu quo.
(continua...)
ASSIS, Machado de. O Teles e o Tobias. Semana Ilustrada. Rio de Janeiro, 1866.