Por Machado de Assis (1868)
- Tenho que fazer; mas logo aparecerei em tua casa; quero ver se ainda é tempo de arrancar-te a esse abismo.
E saiu.
Capítulo III
Os dous ficaram sós.
- Então é certo que estás apaixonado?
- Estou. Eu bem sabia que vocês dificilmente acreditariam nisto; eu próprio não creio ainda, e contudo é verdade. Acabo por onde tu começaste. Será melhor ou pior? Eu creio que é melhor.
- Tens interesse em ocultar o nome da pessoa?
- Oculto-o por ora a todos, menos a ti.
- É uma prova de confiança...
Gomes sorriu.
- Não, disse ele, é uma condição sine qua non; antes de todos tu deves saber quem é a escolhida do meu coração; trata-se de tua filha.
- Adelaide? perguntou Vasconcelos espantado.
- Sim, tua filha.
A revelação de Gomes caiu como uma bomba. Vasconcelos nem por sombras suspeitava semelhante cousa.
Este amor é da tua aprovação? perguntou-lhe Gomes.
Vasconcelos refletia, e depois de alguns minutos de silêncio, disse:
- O meu coração aprova a tua escolha; és meu amigo, estás apaixonado, e uma vez que ela te ame...
Gomes ia falar, mas Vasconcelos continuou sorrindo:
- Mas a sociedade?
- Que sociedade?
- A sociedade que nos tem em conta de libertinos, a ti e a mim, é natural que não aprove o meu ato.
- Já vejo que é uma recusa, disse Gomes entristecendo.
- Qual recusa, pateta! É uma objeção, que tu poderás destruir dizendo: a sociedade é uma grande caluniadora e uma famosa indiscreta. Minha filha é tua, com uma condição.
- Qual?
- A condição da reciprocidade. Ama-te ela?
- Não sei, respondeu Gomes.
- Mas desconfias...
- Não sei; sei que a amo e que daria a minha vida por ela, mas ignoro se sou correspondido.
- Hás de ser... Eu me incumbirei de apalpar o terreno. Daqui a dous dias dou-te a minha resposta. Ah! se ainda tenho de ver-te meu genro!
A resposta de Gomes foi cair-lhe nos braços. A cena já roçava pela comédia quando deram três horas. Gomes lembrou-se que tinha rendez-vous com um amigo; Vasconcelos lembrou-se que tinha de escrever algumas cartas.
Gomes saiu sem falar às senhoras.
Pelas quatro horas Vasconcelos dispunha-se a sair, quando vieram anunciar lhe a visita do Sr. José Brito.
Ao ouvir este nome o alegre Vasconcelos franziu o sobrolho. Pouco depois entrava no gabinete o Sr. José Brito.
O Sr. José Brito era para Vasconcelos um verdadeiro fantasma, um eco do abismo, uma voz da realidade; era um credor.
- Não contava hoje com a sua visita, disse Vasconcelos.
- Admira, respondeu o Sr. José Brito com uma placidez de apunhalar, porque hoje são 21.
- Cuidei que eram 19, balbuciou Vasconcelos.
- Anteontem, sim; mas hoje são 21. Olhe, continuou o credor pegando no Jornal do Comércio que se achava numa cadeira: quinta-feira, 21.
- Vem buscar o dinheiro?
- Aqui está a letra, disse o Sr. José Brito tirando a carteira do bolso e um papel da carteira.
- Por que não veio mais cedo? perguntou Vasconcelos, procurando assim espaçar a questão principal.
- Vim às oito horas da manhã, respondeu o credor, estava dormindo; vim às nove, idem; vim às dez, idem; vim às onze, idem; vim ao meio-dia, idem. Quis vir à uma hora, mas tinha de mandar um homem para a cadeia, e não me foi possível acabar cedo. Às três jantei, e às quatro aqui estou.
Vasconcelos puxava o charuto a ver se lhe ocorria alguma idéia boa de escapar ao pagamento com que ele não contava.
Não achava nada; mas o próprio credor forneceu-lhe ensejo.
- Além de que, disse ele, a hora não importa nada, porque eu estava certo de que o senhor me vai pagar.
- Ah! disse Vasconcelos, é talvez um engano; eu não contava com o senhor hoje, e não arranjei o dinheiro...
- Então, como há de ser? perguntou o credor com ingenuidade.
Vasconcelos sentiu entrar-lhe n’alma a esperança.
- Nada mais simples, disse; o senhor espera até amanhã...
- Amanhã quero assistir à penhora de um indivíduo que mandei processar por uma larga dívida; não posso...
- Perdão, eu levo-lhe o dinheiro à sua casa...
- Isso seria bom se os negócios comerciais se arranjassem assim. Se fôssemos dous amigos é natural que eu me contentasse com a sua promessa, e tudo acabaria amanhã; mas eu sou seu credor, e só tenho em vista salvar o meu interesse... Portanto, acho melhor pagar hoje...
Vasconcelos passou a mão pelos cabelos.
- Mas se eu não tenho! disse ele.
- É uma coisa que o deve incomodar muito, mas que a mim não me causa a menor impressão... isto é, deve causar-me alguma, porque o senhor está hoje em situação precária.
- Eu?
(continua...)
ASSIS, Machado de. O segredo de Augusta. Jornal das Famílias. Rio de Janeiro, 1868.