Por Machado de Assis (1862)
Pode ser verdade, mas eu peço respeitosamente licença para declarar-lhe que estou com o novo princípio de não-intervenção nos Estados. Nada de intervenções.
VENÂNCIO
A minha intervenção é toda conciliatória.
PINHEIRO
Não duvido, nem duvidava. Não veja no que disse injúria pessoal. Folgo de recebê-lo e de contá-lo entre os afeiçoados de minha família.
VENÂNCIO
Muito obrigado. Dá-me licença?
PINHEIRO
Vai rancoroso?
VENÂNCIO
Ora qual! Até a hora do jantar.
PINHEIRO
Há de desculpar-me, não janto em casa. Mas considere-se com a mesma liberdade. (sai Venâncio. Entra Lulu)
Cena IV
PINHEIRO, LULU
LULU
Viva primo!
PINHEIRO
Como estás, Lulu?
LULU
Meu Deus, que cara feia!
PINHEIRO
Pois é a que trago sempre.
LULU
Não é, não, senhor; a sua cara de costume é uma cara amável; essa é de afugentar a gente. Deu agora para andar arrufado com sua mulher!
PINHEIRO
Mau!
LULU
Escusa de zangar-se também comigo. O primo é um bom marido; a prima é uma excelente esposa; ambos formam um excelente casal. É bonito andarem amuados, sem se olharem nem se falarem? Até parece namoro!
PINHEIRO
Ah! tu namoras assim?
LULU
Eu não namoro.
PINHEIRO
Com essa idade?
LULU
Pois então! Mas escute: estes arrufos vão continuar?
PINHEIRO
Eu sei lá.
LULU
Sabe, sim. Veja se isto é bonito na lua-de-mel; ainda não há cinco meses que se casaram.
PINHEIRO
Não há, não. Mas a data não vem ao caso. A lua-de-mel ofuscou-se; é alguma nuvem que passa; deixá-la passar. Queres que eu faça como aquele doido que, ao enublar-se o luar, pedia a Júpiter que espevitasse o candeeiro? Júpiter é independente, e me apagaria de todo o luar, como fez com o doido. Aguardemos antes que algum vento sopre do norte, ou do sul, e venha dissipar a passageira sombra.
LULU
Pois sim! Ela é o norte, o primo é o sul; faça com que o vento sopre do sul.
PINHEIRO
Não, senhora, há de soprar do norte.
LULU
Capricho sem graça!
PINHEIRO
Queres saber de uma coisa, Lulu? Estou pensando que és uma brisazinha do norte encarregada de fazer clarear o céu.
LULU
Oh! nem por graça!
PINHEIRO
Confessa, Lulu!
LULU
Posso ser uma brisa do sul, isso sim!
PINHEIRO
Não terás essa glória.
LULU
Então o primo é caprichoso assim?
PINHEIRO
Caprichoso? Ousas tu, posteridade de Eva, falar de capricho a mim, posteridade de Adão!
LULU
Oh!...
PINHEIRO
Tua prima é uma caprichosa. De seus caprichos nasceram estas diferenças entre nós. Mas para caprichosa, caprichoso; contrafiz-me, estudei no código feminino meios de pôr os pés à parede, e tornei-me de antes quebrar que torcer. Se ela não der um passo, também eu não dou.
LULU
Pois eu estendo a mão direita a um, e a esquerda a outro, e os aproximarei.
PINHEIRO
Queres ser o anjo da reconciliação?
LULU
Tal qual.
PINHEIRO
Contanto que eu não passe pelas forcas caudinas.
LULU
Hei de fazer as coisas airosamente.
PINHEIRO
Insistes nisso? Eu podia dizer que era ainda um capricho de mulher. Mas não digo não, chamo antes afeição e dedicação.
Cena V
PINHEIRO, LULU, ELISA
LULU
(baixo)
Olhe, aí está ela!
PINHEIRO
(baixo)
Deixá-la.
ELISA
Andava a tua procura, Lulu.
LULU
Para quê, prima?
ELISA
Para me dares uma pouca de lã.
LULU
Não tenho aqui; vou buscar.
PINHEIRO
Lulu!
LULU
O que é?
PINHEIRO
(baixo)
Dize a tua prima que eu janto fora.
LULU
(indo a Elisa, baixo)
O primo janta fora.
ELISA
(baixo)
Se é por ter o que fazer, podemos esperar.
LULU
(a Pinheiro, baixo)
Se é por ter o que fazer, podemos esperar.
PINHEIRO
(baixo)
É um convite.
LULU
(alto)
É um convite.
ELISA
(alto)
Ah! Se é um convite pode ir; jantaremos sós.
PINHEIRO
(levantando-se)
Consentirá, minha senhora, que lhe faça uma observação: mesmo sem a sua licença, eu podia ir!
ELISA
Ah! é claro! Direito de marido... Quem lho contesta?
PINHEIRO
Havia de ser engraçada a contestação!
ELISA
Mesmo muito engraçada!
PINHEIRO
Tanto, quanto foi ridícula a licença.
LULU
(continua...)
ASSIS, Machado de. O protocolo: comédia em um ato. Rio de Janeiro, 1862.