Por Machado de Assis (1866)
Silêncio.
— Não sei. Tudo depende...
Novo silêncio.
— Depende? repetiu o oficial.
— Depende das circunstâncias.
— Quais serão essas circunstâncias? perguntou Luís Pinto sorrindo. Madalena sorriu igualmente.
— Ora! disse ela, são as circunstâncias que produzem todos os casamentos. Luís Pinto calou-se. Minutos depois:
— Lembra-me agora que a senhora podia estar casada.
— Como?
A pergunta pareceu perturbar o moço, que não lhe respondeu logo. A viúva repetiu a pergunta.
— Melhor é não falar do passado, disse ele enfim.
Desta vez foi a viúva que não respondeu. Os dois ficaram calados algum tempo até que ela levantou-se para ir falar à dona da casa. Daqui a vinte minutos acharam-se outra vez ao pé um do outro.
— Não me responde? perguntou ele.
— A quê?
— Ao que lhe disse há pouco.
— Não me fez nenhuma pergunta.
— É verdade mas fiz uma observação. Concorda com ela?
A moça calou-se.
— Já sei que não concorda, observou o oficial de marinha.
— Quem lhe disse isso?
— Ah! concorda?
Madalena fez um gesto de impaciência.
— Não declarei nada, respondeu.
— É verdade, mas concluí.
— Concluiu mal. Não tem nada que concluir, porque nada disse; limitei-me a calar. Luís pinto ficou um pouco desconsolado.
A moça consolou-o dizendo:
— É sempre mau falar do passado.
— Talvez, murmurou ele.
— Se foi triste, para que recordá-lo? Se foi venturoso, para que amargurar mais a hora presente?
— Sim? mas se for possível reproduzi-lo?
— Reproduzi-lo?
— Sim.
— Como?
— Pergunte a si mesma.
— Já perguntei.
— Ah! exclamou Luís Pinto.
A viúva compreendeu que ele lhe supunha uma preocupação anterior e entendeu que devia dissuadi-lo disso.
— Perguntei agora mesmo...
— E que responde?
— Respondo...
Vieram convidá-la para cantar. Madalena levantou-se, e Luís Pinto deu a todos os diabos o convite e a música.
Felizmente Madalena cantava como um anjo. Luís Pinto ficou encantado com ouvi-la. Nessa noite, porém, foi-lhe impossível encontrar-se mais a sós com ela, ou porque as circunstâncias o não permitiam, ou porque ela mesma se esquivasse a encontrar-se com ele.
O oficial desesperou.
Teve, porém, uma grande consolação à saída. A viúva, quando se despediu dele, fitou-o calada durante alguns minutos, e disse em tom significativo:
— Talvez!
— Ah!
Luís Pinto foi para casa satisfeito. Aquele talvez era tudo ou quase tudo. No dia seguinte foi visitar a viúva. A moça recebeu-o com o mais amorável de seus sorrisos.
— Repete-me a palavra de ontem?
— Qual palavra? perguntou Madalena.
Luís Pinto franziu o sobrolho e não respondeu. Nessa ocasião entrou na sala o filho da viúva; esta beijou-o com ternura de mãe.
— Quer que repita a palavra?
— Desejava.
— Pois sim.
— Repete?
— Repito.
— Vamos lá! Pode reproduzir-se o passado?
— Talvez.
— Por que não afirma?
— Nada se pode afirmar.
— Está em nossas mãos.
— O quê?
— Sermos felizes.
— Oh! eu sou muito feliz! disse a viúva beijando o filho.
— Sermos felizes os três.
— Não é feliz?
— Incompletamente.
Daqui a um pedido de casamento só havia um passo; e o conto acabaria aí, se pudesse acabar. Mas o conto não acabou, ou não acabou logo, conforme se verá das poucas linhas que vou ainda escrever.
Luís Pinto não a pediu logo. Havia certeza de que o casamento era o natural desfecho da situação. O oficial de marinha não se achou com ânimo de precipitá-lo. Os dias corriam lhe agora suaves e felizes; ele ia todos os dias vê-la ou três vezes por semana, pelo menos. Encontravam-se muitas vezes em reuniões e ali conversavam à larga. O singular era que não falavam de si como acontece com os demais namorados. Não falavam também do casamento. Gostavam de falar porque eram ambos amáveis e bons
palestradores. Luís Pinto reconheceu isto mesmo, uma noite em que se retirava para casa.
Dois meses haviam corrido depois do último colóquio acima narrado, quando Luís Pinto ouviu ao comendador a pergunta seguinte:
— Então parece que D. Madalena tem fumaças de casar?
— De casar? Não admira; está moça e é bonita.
— Isso é verdade.
— Casar com quem?
— Com o dr. Álvares.
— O dr. Álvares!
Luís Pinto fez aquela exclamação de um modo que o comendador desconfiou alguma coisa a seu respeito.
— Admira-se? perguntou ele.
— Ignorava o que me está dizendo.
(continua...)
ASSIS, Machado de. O pai. Jornal das Famílias. Rio de Janeiro, 1866.