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#Romances#Literatura Brasileira

A Mortalha de Alzira

Por Aluísio Azevedo (1891)

Foram interrompidos pelo Dr. Cobalt, que surgiu por entre moitas de verbena, a olhar misteriosamente para todos os lados.

— Onde está ele?... perguntou ao ouvido de Salomé. Saiu para a rua?...

— Não, Sr. Doutor, está rezando às Trindades. O senhor vigário, sempre que não diz missa, reza às Trindades.

— Você nada lhe disse, hein?...

— Não trocamos palavras. Ele só saiu do quarto para ir direitinho para a capela.

E, como o sino principiasse a tocar, a criada acrescentou:—Acabou a reza! O senhor vigário vai voltar naturalmente.

— Bom! bom! disse o médico, apressando-se. Vou, antes que ele chegue. Não lhe diga que estive aqui, percebe?

— Sim, Sr. Doutor.

E Cobalt resmungou contrariado: — E eu que tenho de partir esta noite para

Paris... Diabo!

Voltou-se para Salomé e falou-lhe de carreira:— Olhe, minha amiga, preciso afastar-me daqui, não sei por quanto tempo... você fica encarregada de, quando eu voltar, dar-me conta de todos os passos do nosso doente. Tenha todo o cuidado com ele, que a recompensarei. Não o contrarie nunca, ouviu?... Não o apoquente, e principalmente não lhe dê uma palavra a respeito do que se tem passado. Observe-o bem. Adeus. Saio aqui pelos fundos da casa, para me não encontrar com ele Tome para o rapé!

E fugiu, depois de atirar-lhe na mão uma nova moeda.

— Deus lhe pague, Sr. Doutor. E acrescentou para o hortelão:

— Muito gosta este homem de dar dinheiro para rape...

— É um médico esquisito, observou aquele; tem medo de encontrar-se com o seu doente...

— Bem, mestre Jerônimo, vou lá para dentro cuidar da merenda do Sr. vigário.

— Eu também me vou chegando, tia Salomé. Boas noites.

— Deus lhe dê as mesmas!

E Salomé afastou-se para recolher-se à casa.

Ângelo, nesse instante, acabava de sair da capela e atravessava o jardim.

Entrou na sala de jantar como um sonâmbulo, sem olhar para os lados, e foi assentar-se no banco ao lado da mesa, fitando inalteravelmente o teto.

Estava muito mais pálido e mais abatido que na véspera.

A criada aproximou-se para lhe dar boa noite. Ele não respondeu, nem fez com a cabeça o menor gesto.

Ela saiu da sala, demorou-se um pouco lá dentro, e voltou com o candeeiro aceso.

Ângelo durante esse tempo conservou-se na mesma imobilidade.

— O senhor vigário quer tomar já a sua sopa?... perguntou a boa velha.

E, como não recebesse resposta, chegou-se mais para ele, segurou-lhe o braço com brandura e repetiu a pergunta.

Ângelo tomou-lhe as mãos e fixou-a.

— Diga-me uma cousa, minha boa amiga... pediu ele. Que horas eram, quando ontem à noite vieram chamar-me aqui?...

— Aqui?... repetiu Salomé, desviando a vista. E acrescentou de si para si: — Agora é que são elas!...

— Sim, insistiu o pároco; refiro-me àqueles dois homens que vieram buscar-me à noite...

— Que homens?...

— Ho! Aqueles com quem eu saí a cavalo...

Salomé engoliu em seco, estalou várias vezes a língua contra o céu da boca, e declarou afinal, tomando uma resolução:

— Vossa reverendíssima ontem à noite não saiu de casa!

— Não saí?!...

E Ângelo ergueu-se, abrindo muito os olhos. Como não saí?!...

— Não saiu, não senhor. Vossa reverendíssima recolheu-se ontem ao seu quarto e só apareceu hoje à tarde para rezar às Trindades...

O pároco tornou a segurar-lhe as mãos, e perguntou, deveras abismado:

— Pois eu não saí ontem com duas pessoas que vieram chamar-me?... Pois não foi a senhora, tia Salomé, quem me acordou?... Não me disse até que era temeridade sair com o tempo que fazia?... — Eu?! Eu, não senhor!...

Ângelo levou as mãos à cabeça e exclamou: Ó meu Deus! eu estarei louco?... Salomé abaixou os olhos, dizendo consigo mesma:

— Quanto mais se eu confessasse a verdade!...

O padre pôs-se a cismar, passeando ao longo da sala.—Seria um sonho?...

pensou ele. Ela em verdade não teria morrido?... Estará viva?...

— Posso trazer a merenda, Sr. vigário?... perguntou a criada.

E acrescentou para si, vendo que ele não dava resposta:—Coitado, se eu pudesse, dizia-lhe tudo!... E saiu.

— Foi um sonho! ... não há dúvida... Logo eu, de fato, não pequei!...

E respirou aliviado, encaminhando-se para a mesa.

(continua...)

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