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#Romances#Literatura Brasileira

A Condessa Vésper

Por Aluísio Azevedo (1897)

— Mas lembre­se de que são mais de uma dúzia...

— Ora! se eu fosse rapaz, amava­as a todas. Não há como ser homem!... O homem pode viver como quiser, fazer o que bem entender, amar a todas as mulheres ao seu alcance; enganá­las, ridicularizálas, e... nem por isso deixará de ser um rapaz comme il faut, desde que se vista à moda, tenha uma cara suportável, algum emprego ou algum capital, e, um bocadinho de tino... para não dizer asneiras seguidas. Ao passo que a pobre mulher coitadal se quiser amar, há de contentar­se com um indivíduo, que ela só conhecerá depois de ter ligado para sempre a seu destino ao dele; quando aliás um marido é como charuto, que só se pode saber se é bom depois de aceso. As aparências nada valem!...

— V. Exa. pinta o charuto tão ao vivo que faria acreditar que já fumou!...

— Figuradamente, como lhe acabo de falar, não, porque sou solteira, e não tenho pressa... mas se o senhor se refere à verdadeira acepção da palavra, responder­lhe­ei que sim; já fumei. Pura extravagância

— Não lhe fez mal?

— Muito! Tive vertigens, ânsias; passei mal uma noite inteira... Jurei não cair noutra!

— Ah!

— E creio justamente que com o casamento me aconteça o mesmo... Não com uma noite, mas com a vida inteira!...

— Então não tenciona casar?...

— Tenciono, pois não! Nós, as mulheres, somos muito desgraçadas a este respeito: temos às vez es horror ao casamento, mas que fazer!... Não o podemos dispensar. Oh! o senhor bem sabe que a mulher só se emancipa quando se escraviza ao marido... Desgraçadinha daquela que não tiver um guarda­costas que a represente na sociedade e que com ela partilhe um pouco dos perigos que a esperam.

— V. Exa. faz­me pasmar com a sua experiência...

— Não sei porquê! Eu não tenho mais experiência que qualquer outra senhorita nas minhas condições; apenas sou menos hipócrita, e não quero impingir minha mão ao primeiro que apareça...

— Mas, uma vez resolvida a casar, qual será o noivo que lhe convém? quais serão nele as qualidades que a poderão conquistar?

— Sei cá! mas, se tivesse rigorosamente de escolher marido, escolheria um homem que me parecesse bem vulgar.

— O que, minha senhora? V. Exa. não preza a distinção?...

— Não, decerto. A distinção será muito boa para o homem que a possua, nunca será para a mulher que com ele se case. A distinção! Mas não vê o senhor que, quanto maior for a superioridade do marido, tanto maior será também a inferioridade da mulher!... Com um homem vulgar, sucede precisamente o contrário: ela terá o primeiro lugar, e não precisará pôr­se nas pontinhas dos pés para falar com ele, o que é incômodo.

— Mas terá de abaixar­se...

— Qual! ele que trepe! é sempre o mais baixo que procura os meios de subir... Digo­lhe e repito: A ter de casar, prefiro um homem vulgar, trabalhador e honesto.

— Creio que estou no caso..

— Não sei se totalmente. Trabalhador e honesto, só mais tarde o saberemos, porque o senhor entra agora na vida; quanto ao vulgar, isto está! — a sua observação acaba de prová­lo...

— Sou tão vulgar quanto V. Exa. é severa...

— Sincera, é que deve dizer...

— Contudo, não me pareceu sincera no que disse a respeito do casamento..

— Pois não! O homem, meu caro senhor, apresenta­se­nos sempre por um prisma falso; é a capa do charuto de que há pouco lhe falei... Por fora, muito liso, muito cheiroso e com um ar magnífico. Quem dirá pelas aparências que tão sedutor charuto não é bom?... Entretanto, se o senhor o acender e insistir em fumá­lo, far­lhe­á ele uma ferida na língua. Desdobre­o! há de achar dentro, em vez de tabaco, papelão! Imagine que eu encontrasse na sociedade um homem de bom­tom, um elegante com a resposta pronta, a casaca irrepreensível e a luva fresca, e ligasse o meu destino ao dele; mas que, na ocasião íntima de desdobrar esse belo espírito lhe descobrisse o tal miolo de papelão...

— Oh!

— É justamente o que eu diria: "Oh!"

E Ambrosina comprimiu os lábios com a graça de um beijo.

— O que, todavia, não evitava, continuou ela rindo, que tivesse eu aquele trambolho amarrado à minha vida como uma grilheta de condenado. Escolhendo, ao contrário, um homem sem qualidades brilhantes, não teria eu de sofrer decepção de nenhuma espécie, e é possível até que chegasse, depois do casamento, a descobrir em meu marido algum dote, verdadeiro e sólido, para o qual a sociedade não se desse ao trabalho de reparar...

Gabriel soltou uma risada, e Ambrosina prosseguiu:

(continua...)

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