Por Franklin Távora (1876)
— Pode fazer do peito do velho Timóteo bainha da sua faca. Já bebeu a minha aguardente, não será para admirar que queira agora dar meu sangue a seu cachorro magro. Mas de uma coisa tenha você certeza; ainda que me mate, ainda que me esfole, não passa o gadanho no meu zimbo. Poderá comer mais sardinhas, chupar do meu vinho, mas de dinheiro nem ceitil há de cair na sua unha.
Timóteo dizia a verdade. Ele tinha todo o seu haver amoedado em lugar só dele conhecido.
Ficara só no mundo depois da morte da Chica, e entesourava sem destino o que ilicitamente adquiria. Seus únicos companheiros de casa eram um cão e dois gatos. Estes últimos comiam com ele à mesa, quase no mesmo prato, e, para bem dizermos, dormiam na mesma cama.
Por isso, quando viu os misteriosos vultos parados defronte da taberna; quando os viu mais tarde dirigir-se para esta no momento em que ele ia fechar as portas por se haver de uma vez retirado a freguesia do dia, disse Timóteo com a maior fleuma:
— Podem entrar sem susto, que o Timóteo é amigo.
Os desconhecidos ganharam de um pulo a tasca, e trataram de fechar as portas.
— Fazem bem — disse-lhes o vendeiro, sem se dar por achado. — O tempo não está para graças. Mas se vosmecês estão aqui de emboscada a algum tonante, será bom deixarem aberta esta janelinha da porta.
— Não estamos de emboscada a ninguém, porque quem queríamos já está seguro — disse um deles, trancando com a taramela a janelinha indicada. — Ah ! Já sei. Querem cear comigo. Não ponho dúvida.
Os desconhecidos entreolharam-se como se consultassem.
— Não façam cerimônia, camaradas. Naquela mesinha, que ali vêem, muito fidalgo tem feito a sua refeição. Tirem os capotes, se querem estar à vontade; e esperem um momento que não há demora.
Sem esperar resposta, o velho tomou o interior do casebre, e voltou logo, trazendo pães, postas de peixe frito, e uma cuia com farinha.
— Então ? Que fazem ? Vão sentando-se, e toca a comer.
Não esperem por mim, que sou de casa e não tenho etiquetas.
E entrou novamente, manifestando, pela prontidão com que tratava de pôr a ceia, a melhor vontade de ser agradável aos estranhos hóspedes.
Não eram estes no todo simpáticos, mas também não eram mal encarados.
O que representava ser mais moço era seco de corpo, tinha boa estatura, cor fula, olhos cintilantes e redondos, cabelo chegado ao casco. O nariz um pouco rombo estava em desarmonia com as outras partes da cara onde se lia uma expressão de audácia, que respondia bem à agilidade do corpo.
O outro era feio de feições, baixote e roliço. A cor, o ângulo facial, o cabelo carapinha estavam claramente denunciando a sua proveniência africana.
Por baixo dos capotes, já velhos, cingia-lhe os rins um cinto de couro donde a cada um pendia uma espada de ponta direita. Eram as espadas as únicas armas que traziam à vista. Sentaram-se à mesa sem tirar os chapéus de palha com que estavam cobertos.
— Vinho ou cachaça ? — perguntou o velho, apontando, de volta, na porta, com uma penca de bananas que lhe vinham caindo das mãos de maduras.
— Vinho — disse o mais moço.
— Traga da cana para mim — acrescentou o outro.
— Muito bem — respondeu Timóteo. — Olhem: o pão é da padaria do Zé Braga, o peixe é do viveiro do Muniz, a farinha é de Muribeca, e as bananas são do meu quintal. A cachaça é do engenho Mendonça, e o vinho é puro de Lisboa.
No fim da ceia, que as reiteradas libações prolongaram, e que correu animada, por mais de um dito, um gracejo, uma sentença licenciosa, o Timóteo dirigiu estas palavras aos hóspedes:
— Não está má esta. Dei-lhes da minha ceia sem saber quem são vosmecês. Agora, os seus semblantes, se não me falta a memória, não me são de todo estranhos.
— Assim deve ser — disse o cabra. — Mais de uma vez tenho comprado aqui o meu vintém de aguardente.
— Isto é outro cantar; já vejo que somos conhecidos velhos.
— Tão conhecidos somos, seu Timóteo — replicou o cabra — , que tomo a liberdade de o convidar para um passeio agora mesmo por esta estrada afora.
— Nossa Senhora da Paz livre-me tal — disse Timóteo empalidecendo. — Sair a esta hora, por este tempo, deixar a minha casa à revelia, Santo Deus! Nem pensem nisto, meus bons amigos.
— Não tem que recear, meu caro. Cada um de nós traz, como vê, uma espada à cinta, e a sabe manejar.
— Bem estou vendo — disse Timóteo. — Mas sempre lhes quero dizer: o crioulo Gabriel sabia muito bem jogar a espada, e melhor a faca, mas o Cabeleira o lambeu.
— Ah ! o Cabeleira? — disse o negro.
— Sim, senhor; ele aparece por aqui às vezes; eu o tenho visto fazer proezas de espantar.
— Seu Timóteo — disse o cabra, levantando-se — , fez bem em falar no
Cabeleira. Eu quero perguntar ao senhor uma coisa…
Antes que terminasse a sua oração fez-lhe um sinal o negro, e ele disfarçou por este modo:
— Mas é já tarde, e nós não podemos demorar mais. Vem ou não vem ?
— Para onde, senhor ? — perguntou o vendeiro, levantando-se aterrado por haver finalmente compreendido que tinha diante dos olhos dois inimigos.
— Saberá depois. O essencial é que nos acompanhe.
(continua...)
TÁVORA, Franklin. O Cabeleira. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16631 . Acesso em: 28 fev. 2026.