Por Bernardo Guimarães (1872)
– Não, não! – disse a moça cada vez com mais exaltação. Não consinto; fica aí, Eduardo. Não quero perder um momento... de tua companhia neste dia tão feliz... o melhor cordial é o nosso amor, não é assim, Eduardo?...
– É, d. Paulina, mas a sua saúde...
– Não me fales em saúde... eu não sofro nada... sou tão feliz.. Olha, Eduardo, olha esta face... este beijo funesto... está me ardendo ainda... apaga-o, Eduardo, apaga esse beijo com tua boca...
Falando assim Paulina estendia a cabeça, e apresentava a face a Eduardo de um modo tão meigo e suplicante, que ele quase contaminado do mesmo delírio chegou-lhe os lábios e beijou-a com ardor.
A face de Paulina estava fria. Eduardo aterrado desviou o rosto, e encarou-a com atenção. Os olhos baços mal refletiam uma luz frouxa como de quem vai adormecer; o carmim das faces tomava um tom lívido, as pálpebras tremiam-lhe; mas um fraco sorriso estava sempre fixo em seus lábios, e pairava-lhe sobre a fronte angélica serenidade.
Paulina enlaçou-se ao pescoço de Eduardo, e deitou a cabeça sobre o ombro dele como criança, que quer adormecer. – Eduardo! – murmurou com voz sumida, exalou um fraco soluço, e ficou imóvel.
– Paulina! Paulina! – exclamou o moço assustado, agitando a brandamente. – Estava de feito adormecida.
Eduardo pousou-a de mansinho sobre o travesseiro; examinou a com mais atenção. Estava morta !
Tão tênue era o fio, que prendia à vida aquela débil e mimosa criatura, que não pôde resistir àquela última emoção.
Morreu nos braços da felicidade, com o sorriso nos lábios e o prazer no coração.
Dir-se-ia, que não foi a morte com o seu sopro sinistro que extinguiu aquela existência; mas que um anjo de Deus, baixando sobre o frágil e formoso corpo de Paulina, veio sorrindo cerrar-lhe as pálpebras, e sorvendo-lhe a alma num beijo, a conduziu para o céu.
Algumas horas depois dois pretos conduzindo um cadáver ensangüentado em uma rede chegavam à casa de Joaquim Ribeiro.
Era o cadáver do infeliz Roberto, que levavam a sepultar no cemitério de Uberaba.
O padre, porém, não consentiu que dessem aquela caminhada inútil, fazendo-lhes ver que o pároco da Uberaba por modo nenhum podia consentir, que se enterrase em lugar sagrado o cadáver do suicida.
Foi sepultado a meia légua de distância da fazenda, junto a um capão à beira da estrada.
O padre não quis benzer o lugar da cova, nem rezar sobre o cadáver as orações dos finados.
Mas o povo, que compreende melhor a infinita misericórdia divina, e tem mais fé nelas do que os próprios ministros da religião, cravou sobre a sepultura uma cruz de pau toscamente lavrada; – à sombra desse símbolo santo toda a terra é sagrada.
Joaquim Ribeiro também não consentiu que a filha fosse enterrada no cemitério comum; não queria afastar-se, nem mesmo na morte, daquela que tanto idolatrara na vida. Não podendo guardar aqueles restos queridos em um magnífico túmulo de mármore, porque naqueles sertões faltava-lhe tudo – o artífice e a matéria – mandou benzer e cercar um pequeno terreno no alto de uma risonha colina que ficava à vista da casa, não muito além do sítio em que dormia o eterno sono o desafortunado Roberto, e ali guardou no seio da terra aquele depósito sagrado. Mandou depois erigir ali uma capelinha singela, mas alva e asseada, que se divisava a grandes distâncias servindo de farol ao viandante por aquelas vastas e descampadas solidões.
Ali o velho e infeliz pai ia rezar todos os dias, até que pouco tempo depois ali foi também repousar ao lado de sua filha.
Contava o povo, que um triste noitibó, que todas as noites fazia seu pouso nos braços da cruz da sepultura de Roberto, saía de lá alta noite soltando guinchos lamentosos, e vinha pousar nos muros do cemitério; e que uma pomba alva como neve saía batendo as asas da sepultura de Paulina, e desaparecia nos ares.
Era, dizia o povo supersticioso, a alma de Roberto, que andava penando em busca de Paulina, que fugindo sempre dele ia se esconder no céu.
Assim o sempre infeliz Roberto, bem como durante a vida, viera também depois de morto repousar e suspirar ainda junto daquela, por quem seu coração havia suspirado em vão durante a vida inteira.
Eduardo desapareceu, e ninguém sabe ao certo o que fora feito desse mal-aventurado moço.
Correu fama de que se retirara para a Bahia e que aí tomando o burel de frade morrera pouco tempo depois em um convento.
Jupira
Capítulo I
Jupira estava sentada à sombra de uma canjerana ainda nova, de folhagem mui viçosa e cerrada, que dava fresquíssima sombra. Estava tecendo um cabaz de palhas de buriti, enquanto sua mãe, índia algum tanto idosa, a alguns passos de distância moqueava um gordo e grande tiú.
Era isto à margem do Rio Grande de Minas, algumas léguas acima das paragens onde ele, reunindo-se ao Parnaíba toma o nome de Paraná.
(continua...)
GUIMARÃES, Bernardo. Histórias e tradições da Província de Minas Gerais. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2142 . Acesso em: 24 fev. 2026.