Por Joaquim Manuel de Macedo (1862)
O terraço era avarandado e lajeado de mármore. Uma grossa parede o defendia dos ímpetos arrojados do mar. Um parapeito o cercava todo, tendo vários alegretes com flores que entremeavam diferentes bancos de pedra comum, e ornados com vasos de mármore.
Nas extremidades do terraço levantavam-se dois pavilhões quadrangulares, ambos iguais e semelhantes nas proporções e forma exterior, e distinguindo-se apenas pelas estátuas que os coroavam; pois que o pavilhão do lado direito era dominado pela estátua de Apolo, que vibrava a lira, e o do lado esquerdo pela de Mercúrio com o caduceu. As arestas de um e outro eram guarnecidas por simples pilastras ornadas superiormente por vasos de mármore, dos quais nasciam ananases de ferro. As cobertas eram piramidais e de uma simplicidade agradável.
Iguais e semelhantes no exterior, como disse, os dois pavilhões diferiam completamente nos seus ornamentos do interior.
O teto do pavilhão da direita dividia-se em cinco grandes quadros, dos quais o culminante era quadrado e os quatro laterais trapezóides, e todos eles enfeitados de arabescos, palmas e flores, sobre fundo branco, tudo tão perfeitamente acabado que produzia uma suave ilusão, avultando o seu merecimento por serem as palmas, flores e arabescos formados de penas de diversas cores.
As sobreportas, do mesmo modo, se mostravam ornadas de baixos-relevos de pássaros do Brasil, formados das próprias penas deles. A meia altura das paredes, enfim, apreciavam-se lindos quadros elíticos feitos a pincel, representando diferentes fábricas e oficinas do país.
No pavilhão da esquerda notava-se idêntica disposição nos ornamentos. Estes, porém, eram de outra natureza. Nos cinco grandes quadros de teto as conchas substituíram as penas, e o fundo em vez de ser branco, tomava a cor azul. Nas sobreportas viam-se baixos-relevos de peixes dos nossos mares, feitos com as suas próprias peles e escamas. Os quadros elíticos representavam as maiores armadas que tinham até então entrado na baía do Rio de Janeiro, o incêndio de embarcações, e finalmente formosas vistas de sítios romanescos do litoral e do interior.
Todos estes encantos de arte gozavam-se também de noite, ao clarão de oito lampiões trabalhados com esmero e colocados na extensão do terraço.
Em duas pequenas casas construídas dentro do jardim guardavam-se muitos outros lampiões, que serviam nas iluminações das grandes festas públicas; mas, depois da chegada da família real ao Brasil, todos eles foram dali tirados para se aplicarem à iluminação do palácio e do largo do Paço.
Eis o que foi o Passeio Público do Rio de Janeiro na sua época primitiva no tempo do seu fundador, o vice-rei Luís Vasconcelos e Sousa. O que em seguida ele passou a ser tratarei de referir no próximo passeio.
Enquanto, porém, nos vamos recolhendo para casa, ouvi-me ainda duas palavras pronunciadas em tributo de gratidão à memória dos dois artistas que mais concorreram para o nosso até hoje único jardim público da cidade do Rio de Janeiro.
Convém ligar os nomes de Valentim e de Xavier às produções que ao talento de cada um deles devemos, e depois de o ter feito, atirarei no meio de vós uma consideração um pouco séria e filosófica, que aceitareis ou rejeitareis conforme for de vossa vontade.
O menino alado que segurava o quadro e as estátutas dos pavilhões eram de mestre Valentim, a quem se atribuem também os quadros elíticos, especialmente do pavilhão esquerdo, que passavam por primorosos. Todo o trabalho de penas, conchas e escamas pertencia ao Xavier dos Pássaros ou das Conchas e encantavam pela sua delicadeza e perfeição, chegando os baixos-relevos a parecerem antes obras da natureza do que da arte.
Valentim e Xavier tinham-se compreendido e ligado pelo mesmo pensamento, e haviam executado as suas dificílimas tarefas em tudo e por tudo muito brasileiramente, como propusera aquele mestre. Este fato, que hoje não teria uma grande importância, era naquela época a manifestação de um sentimento nobre e generoso, que, por assim dizer, pressagiava a independência do Brasil.
A poesia e as artes começavam a quebrar o jugo colonial, e inspiradas pelo patriotismo, lançavam no espírito público os germes da nossa futura regeneração política. José Basílio da Gama, no Uruguai, tinha já enriquecido a poesia com a originalidade, as imagens, as descrições e a cor da pátria; José de Santa Rita Durão ostentava-se mais brasileiro ainda no seu Caramuru, que ele escrevia pouco mais ou menos nos mesmos anos em que se executava a obra do Passeio Público do Rio de Janeiro; dirigidos pelo mesmo sentir, inflamados pelo mesmo amor, mestre Valentim e o Xavier das Conchas escreviam também os seus poemas especiais e cheios de patrióticas idéias, na cascata e nos pavilhões do Passeio Público.
Os idealistas, ainda sem o pensar talvez, preparavam a
revolução que, prematura e imprudentemente, quiseram realizar os poetas e
patriotas de Minas Gerais em 1789, e depois foi consumada pelos heróis do Rio
de Janeiro e do Ipiranga.
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. Um passeio pela cidade do Rio de Janeiro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=19326 . Acesso em: 31 jan. 2026.