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#Crônicas#Literatura Brasileira

Os Romances da Semana

Por Joaquim Manuel de Macedo (1861)

Geraldo-Risota ri com effeito de todos e de tudo ; mas o seu rir é triste e desconsolador : é um rir que faz mal. Uma longa e dolorosa experiencia, uma série de desgostos e decepções, uma disposição natural do seu espirito, uma mania talvez, ou o quer que fosse, tinha alterado profundamente o caracter d'aquelle homem, tinha-o tornado tão descrente das cousas d'este mundo, que de todo se lhe apagaram a fé e a esperança no futuro da vida, da sociedade e do paiz ; mas essa descrença, em vez de tornal-o melancolico e rude em seu parecer, emprestáralhe esse rir de mofa, e o fazia soltar gargalhadas a respeito de tudo : era um Democrito grosseiro, que parecia feliz e devia ser desgraçado.

Geraldo-Risota passeiava, pois, esperando a chegada do trem de ferro, que emflm annunciouse por aquelle sibilo bem conhecido.

Alguns minutos depois, um homem e uma senhora, que erão sem duvida marido e mulher, e uma bella moça, provavelmente filha d'elles, sahírão da estação e saudarão amigavelmente a Geraldo, e logo em seguida appareceu um elegante mancebo, que correu para este com os braços abertos.

Geraldo-Risota abraçou o mancebo sem entusiasmo, sem ardor, mas com apparencias de interesse, e, tomando, immediatamente um carro de aluguel, partio com elle para sua casa.

— Pensei que te demorasses mais tempo na tua provincia, Innocencio, disse Geraldo.

— Não, meu padrinho ; eu estava ancioso por voltar á capital do Imperio ; brilhantes esperanças, nobres ambições, e agora quiçá também o amor marcão aqui o meu lugar.

O Risota soltou uma gargalhada.

— Que é isso, meu padrinho ?...

— Foi uma gargalhada muito longa, confesso; mas era preciso que fosse assim, visto que devia valer por tres, pois que a um só tempo me fallaste em tuas brilhantes esperanças, nobres ambições, e em amor.., tres cousas que me fazem sempre morrer de riso.

Innocencio não respondeu ; pôz-se a olhar para a rua, e dahi a pouco disse :

— Quando eu observo o desenvolvimento e progresso que teve a cidade do Rio de Janeiro nos oito annos que gastei estudando na Europa, sinto verdadeiro enthusiasmo imaginando o que será a nossa capital d'aqui a vinte ou a trinta annos !...

O Risota achou no que acabava de ouvir motivo para rir tanto que o mancebo desapontou e não disse mais palavra.

O carro parou finalmente á porta da casa de Geraldo, e este, depois de conduzir o seu afilhado ao aposento que lhe destinara, disse-lhe:

— Procede comigo como dantes, Innocencio : faze de conta que é tua a casa de teu padrinho ; almoça, descança; que eu tenho que fazer, e vou tratar da vida.

Innocencio ficou só : pedio almoço ao escravo que veio pôr-se ás suas ordens, e logo depois achou-se sentado á mesa.

Emquanto elle almoça, aproveitarei o tempo dizendo o que convém para tornar conhecido o afilhado de Geraldo.

Innocencio era filho de um honrado fazendeiro da provincia de... e tendo mostrado desde tenra idade muita disposição para a carreira das lettras, seu pai o mandou educar.

Geraldo, que era parente afastado, mas também padrinho de baptismo de Innocencio, recebeu em sua casa o afilhado, que fez no Rio de Janeiro os seus estudos de humanidades com applauso geral dos mestres, que admirarão a sua intelligencia, e não menos o seu caracter honestissimo.

Aos dezoito annos Innocencio partio para a Europa, e lá, em vez de passear e divertir-se empregou oito annos em estudos assiduos e conscienciosos, de modo que em 1860 voltou para o Brazil, rico de sciencia e de illustração, podendo ufanar-se de ser um mathematico habil, um engenheiro pratico e um litterato brilhante.

Innocencio perdera seu pai quando estava na Europa, viera porém encontrar uma doce consolação no amor da mais carinhosa mãi. Também tendo, de volta do velho mundo, chegado ao Rio de Janeiro em Junho de 1860, apenas se demorou oito dias nesta capital, e logo partio para sua provincia, onde ficou ao lado de sua mãi até o fim do anno, epoca cm que tornou para o Rio de Janeiro, chegando á cidade no dia 24 do primeiro mez de 1861, como se acaba de ver.

É certo que elle poderia ter chegado alguns dias mais cedo ; encontrando porém na fazenda de um velho amigo de seu pai, fazenda pouco distante da cidade, uma família da corte que alli fora passar a festa do Natal, deixou-se captivar e prender pelos encantos de uma interessante moça, amou-a, e não seguio a concluir a sua

viagem senão quando aquella família teve também de retirar-se, cabendo-lhe a dita de embarcar-se com os pais da sua amada e com esta no mesmo trem e no mesmo carro do caminho de ferro de D. Pedro II.

Creio que se adivinhará facilmente que a familia de que se trata é aquella mesma que saudou com signaes de amizade a Geraldo ao sahir da estação do campo da Acclamação.

(continua...)

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