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#Romances#Literatura Brasileira

Til

Por José de Alencar (1872)

- Hum!... 

- O senhor bem podia nos dar alguma inculca do bicho? 

- Cá o amigo Chico é quem há de saber por onde anda o cujo. Oh! psiu!... 

- Nhô Pinta... Ah! Nhô Gonçalo! Acudiu o Tinguá querendo engolir as primeiras palavras escapadas. 

- Não sabe que rumo levou o Jão? 

- Tanto como mecê. 

- Ora, ande lá. 

- Ele aparece aqui, e arrancha tal e qual como os outros; não conta onde pousa; nem a gente indaga da vida alheia. 

- Pois tocava uma boa maquia a quem nos pusesse no rasto da onça. Cem bicos! 

Nesse momento um bacorinho de pelo ruivo, embestegava com um trote miúdo, mas ligeiro, pela cozinha, e atravessou toda a casa até a pousada, onde conversava a capangada. Aí começou a fossar nas pernas do Chico Tinguá, que, arrancando-se à balorda posição, desfechou no importuno animal um pontapé. 

- Arre, patife. 

  Deu-se por advertido o bacorinho, que imediatamente enfiou outra vez pela venda e foi sair no quintal, onde pôs-se a grunhir com o focinho ao vento e os olhos na porta da cozinha. 

- Pelos modos lá o homem de Campinas está com gana mesmo no Bugre? 

observou o Gonçalo que não tirava os olhos do Chico. 

  Pudera não! Da maneira por que arranjou-lhe o pai! 

- Xô!... Eh! Baia!... xô!... Diabo de mula canhambola! 

  Partiam vozes do vendilhão, que fazia um grande escarcéu com braços e pernas, a fim de espantar uma besta muar que sua imaginação figurava estar furando a cerca do pasto, ao lado direito da casa. Entretanto o inocente animal assim caluniado pelo dono restolhava pacatamente a grama tosada, em companhia de uma porca e um bacorinho preto, de tamanho igual ao do outro. 

 Afinal atirou-se o Chico para a cerca, sempre a enxotar o burro, e quebrando o canto desapareceu. 

  O Gonçalo, a quem não escapara esse manejo, ergueu-se pronto da mesa, e, correndo ao ângulo da casa, observou o campo oculto pela quina da parede. 

  O bacorinho trotava pela vereda que ia dar ao mato, e seguindo-lhe as pegadas, o Chico Tinguá estugava o passo. 

  Riu-se o Gonçalo, e do terreiro disse ao Filipe: 

  O patrício faz favor? 

 

XXII 

O trato 

 

  O tal Gonçalo era um valentão; e tinha-se na conta do mais façanhudo espoleta de toda aquela redondeza. 

  Não acreditava, porém, a gente do lugar nas proezas de arromba que blasonava o pábulo, nem tomava ao sério as roncas e bravatas com que andava sempre a azoinar aos mais. 

  Para dar à sua peça um tom ameaçador e ao mesmo tempo disfarçar o senão do rosto, engendrara o Gonçalo sagazmente o apelido de Suçuarana, que a todo instante atirava à barba dos outros, mostrando as pampas da cara. 

  Mas à exceção dele, ou de algum súcio que lhe filava a pinga, ninguém o chamava pelo tal apelido senão pela alcunha de Pinta, que lhe tinham posto para o distinguir de outro Gonçalo carafuz, também morador no lugar. 

  Não aturava, porém, o valentão esse desaforo; e disparatava com quem o tratasse pela alcunha. Para não se meter em rixas, evitava a gente de o chamar daquele modo na presença, ainda que muitas vezes pelo costume lá escapava a palavra; mas o Gonçalo fingia não ouvir. Também, segundo contavam, já por vezes lhe tinham chimpado com o Pinta de propósito e mesmo na bochecha, sem que ele respingasse. 

  Todavia o que mais amofinava o Gonçalo era a fama de Jão Fera, de quem invejava não só a força e valentia, como o apelido, que lhe granjeara sua malvadeza, o terror que inspirava aquele nome, e até as mortes de que acusavam o outro, eram para ele façanhas de estrondo. 

(continua...)

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