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#Romances#Literatura Brasileira

Sonhos d’Ouro

Por José de Alencar (1872)

Naquele tempo as porcadas percorriam as ruas, como ainda hoje os bandos de perus. Estando parados em uma rua, enquanto o velho comprava chita, um moleque à sorrelfa introduziu no ouvido de um leitão uma bicha. Ao estalo do foguete, espirrou o bacorinho, e ei-lo a correr espavorido. O rapazinho barafustou atrás, para atar-lhe a corrida. Mas corrida foi aquela que o meteu por um labirinto de ruas, onde a cabo de uma hora achou-se às tontas, sem novas do bacorinho nem do tio. Quanto mais procurava orientar-se, mais se atrapalhava; e todo o resto do dia levou a quebrar esquinas, até que exausto de fome e de cansaço, acocorou-se no vão de uma porta, a engolir as lágrimas que lhe queriam saltar aos bugalhos. 

Passava um menino de volta do colégio, acompanhado de seu pajem, que sentindo lhe puxarem pelo jaqué, voltou-se e viu o lapuzinho, de mãos postas a implorá-lo. 

- Que tem você? perguntou-lhe com pena. 

- Me perdi! 

O menino era Barros, filho do consignatário, onde já estava de caixeiro João Barbalho. Levou o caipirinha para a casa; e a família compadecida o agasalhou, mandando em busca do velho roceiro, que não foi possível encontrar apesar de todas as pesquisas. Resolvido a encarreirar o rapazito, o consignatário o arranjou de caixeiro em casa de um cambista; e aí começou ele a carreira que devia levá-lo ao apogeu da riqueza. 

De gênio franco e jovial, tinha Soares uma fonte perene de alegria, com que orvalhava as agruras da vida; mas através dos risos e pilhérias, seu espírito pronto e seguro trabalhava com a inflexibilidade da moda de aço que move as figuras de um realejo. 

Suas melhores operações, combinava-as no meio de um jantar ou de uma partida de jogo, e executava-as a galhofar. Brincava com seus milhões, como um menino com seus trebelhos. 

Sendo de todos o mais rico, era para notar-se que fosse o menos graduado. A comenda era uma história, e vale a pena saber-se. 

Quando a riqueza de Soares tornou-se sólida e incontestável, até para os invejosos, começaram a chamá-lo de comendador, e por mais que o milionário metesse a coisa a ridículo, defendendo-se contra a honraria, por tal modo vulgarizou-se o tratamento, que não houve meio de resistir-lhe. O público soberano entendeu que um homem tão recheado de ouro não podia existir sem que fosse ao menos comendador, como qualquer troca-tintas.

- Ora pois! dizia o Soares, eis-me comendador por unânime aclamação dos povos. Mas há de ser da ordem do bacorinho! 

Essa referência à humildade de sua origem, ele a fazia freqüentemente; e percebia-se que tinha sua vaidade em ter subido de tão baixo àquela sumidade financeira. Custava-lhe a compreender o vexame do barão do Saí, quando aludiam ao começo de sua carreira, e por isso estava sempre a apoquentar o amigo chamando-o de barão do lote, com o que este se resmoía. 

Ficou pois o Soares comendador, por uso e cortesia, como tanta gente boa; e ninguém havia nesta corte imperial que não o acreditasse inscrito no grande livro das ordens; no que de todo não erravam, pois era ele terceiro de São Francisco de Paula. Mas este Santo não consta que fosse cavaleiro, e palmilhava como qualquer plebeu sem esporas, nem prosápias. 

Em cartas, sobretudo nas de empenho, em listas de acionistas de banco, chapas de diretores, e gazetilhas, lá vinha estampado o infalível “comendador”; que aderira ao nome do Soares, como uma dessas alcunhas implacáveis que perseguem certos indivíduos toda a vida, e afinal colam-se à geração, criam raízes e transmitem-se a toda a descendência. O público é um tirano, e bem gaiato às vezes. 

É bem possível, pois, que à imitação dos mais, já o trataste eu de comendador e continue a fazê-lo. 

 

XIII 

 

A partida estava empenhada. O Barros fizera a vaza; cabia-lhe a mão.

- Quem joga? perguntou Soares. 

- É o conselheiro! respondeu o Barão. 

- Então podemos ir jantar. Temos tempo, e ainda chegaremos cedo.  

De fato o Barros, na forma do costume, esperava que o concílio dos sujeitos que o estavam aperuando, decidisse a grande questão da melhor carta a jogar. 

- O homem quer abarrotar-nos? observou o visconde. Está pensando. 

- Anda conselheiro, instou o Soares; se pensas tanto, ficas em branco para outra vez. 

O banqueiro queria bem, do fundo d’alma, ao filho de seu falecido benfeitor, e por ele faria todos os sacrifícios. Mas a veia sarcástica, que ao próprio dono não poupava, às vezes sem ele o querer, beliscava o inofensivo e pachorrento amigo. Nunca o Soares pudera tomar ao sério o título de conselheiro do Barros; e por isso inventara aquele termo mais apropriado, pela etimologia idêntica à de cabeleireiro. 

Impassível como sempre, o Barros nem se ressentiu, nem se apressou. 

Foi nessa ocasião que aproximou-se o Guimarães, acompanhado de Ricardo e Fábio, a quem fora receber na entrada: 

- Sr. Comendador, tenho o prazer de apresentar-lhe os meus amigos, os Srs. Dr. Nunes e Dr. Araújo! 

(continua...)

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