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#Romances#Literatura Brasileira

O Sertanejo

Por José de Alencar (1875)

— Olhe, Alina, aquele mais alto, que tem a casaca de sêda açafroada. Sabe quem é?

— O Fragosos, de quem você falava pouco há? 

— Êle mesmo. 

— É um galante fidalgo. 

Nesse momento o mancebo avistando as moças fez com o chapéu profunda saudação a D. Flor, que respondeu confusa e recolhendo-se da janela. 

— Que virá êle fazer à Oiticica? perguntou ingenuamente a filha do fazendeiro à sua camarada. 

— Não adivinha, Flor? disse Alina sorrindo. 

— Eu não, menina. 

— Dí-lo a cantiga. 


Saudades que me deixaste,

Saudades me levarão.

Aonde foram-se os olhos,

Vai após meu coração. 

 

D. Flor ouvindo a copla que Alina cantarolou à meia voz com ar malicioso, correu a ela para fazer-lhe cócegas, e retribuindo-lhe a amiga, desataram ambas a rir da mútua travessura. 

Entretanto o capitão-mór Campelo, saindo ao patamar, convidava os hóspedes a entrarem. Adiantou-se o mancebo, que vestia casaca de sêda côr de açafrão, e saudou o fazendeiro com estas palavras: 

— O capitão Marcos Fragoso, de jornada para sua fazenda do Bargado com êrstes amigos que lhe fizeram o obséquio de sua companhia, não podia, passando a primeira vez pela Oiticica, faltar à cortesia de saudar o sr. capitão-mór Gonçalo Pires Campelo, como vizinho, e ainda mais como filho de um velho amigo seu, o coronel Fragoso. 

— O capitão Marcos Fragoso e seus amigos serão sempre bem vindos à nossa casa, e nos darão prazer se quiserem receber o agasalho que lhe oferecemos de boa vontade. 

— Era nossa intenção pedí-lo, para refrescar da calma; epois do que seguiremos para o Bargado, onde já deve estar a nossa comitiva, da qual nos separámos pouco há na encruzilhada. 

Entrados na sala, o Marcos Fragosodesignou ao capitão-mór seus amigos cada um por seu nome e indicações: 

— Êste amigo é o capitão João Correia, do têrço do Recife; estoutro é o licenciado Manuel da Ailva Ourém, de Lisboa, que veio visitar e conhecer nossos sertões; aquele é o alferes Daniel Ferro, filho do dono das Flechas nos Inhamuns, ambos meus parentes e vizinhos. 

— Estão todos em sua casa, disse o capitão-mór, convidando-os a sentarem-se. 

Depois de alguns cumprimentos dos recém-chegados e encarecimentos das excelências, 

granjeio das terras e boa casaria, o capitão-mór disse, retribuindo a cortesia: 

— Vão os senhores ver também a fazenda do Bargado que é das mais belas dêste Quixeramobim. No tempo em que alí morava o finado coronel Fragoso, poucos podiam competir com ela; mas depois que êle morreu tem estado ao desamparo. O sr. capitão Marcos não quis ser nosso vizinho como foi seu pai; os mancebos gostam mais da praça; não há que estranhar. 

— Costumo demorar-me no Recife, é certo, senhor capitão-mór; mas tenho minha casa nas Araras, onde fico mais perto de meus parentes, que são todos de Inhamuns. Meu pai gostava mais do Bargado. 

— E tinha razão. 

— Não digo o contrário; foi êle de natural reconcentrado e amigo da solidão. 

— Isso era. Em tantos anos que tivemos de vizinhança receberíamos dele três visitas, se tantas, observou Campelo. 

— Eu que alí me criei nunca vim a Oiticica, porque êle não gostava de trato e comunicações que o tirassem de seus hábitos sertanejos. 

— E como consumia o tempo neste deserto? perguntou o licenciado Ourém. 

— Quanto a isto não falta em que ocupar-se um homem ativo, acudiu o Daniel Ferro. 

— Basta a labutação da fazenda, acrescentou o capitão Fragoso. Se não acredita, Ourém, eu o emprazo para Bargado. 

Voltando-se depois para o capitão-mór prosseguiu: 

— Sabendo do desamparo em que vai a minha fazenda resolví passar aí o inverno e vim com êstes amigos assistir às vaquejadas. Durante a minha estada conto prover o necessário, para tornar o Bargado ao estado próspero em que o deixou meu pai, que não é de razão se perca tão rica herdade. 

Na continuação da prática veio a falar-se do Recife e das festas que houve pela chegada do Conde de Vila Flor: 

— Nunca mais se descobriu quem foi aquele embuçado que se intrometeu no jôgo da argolinha? perguntou o capitão-mór. 

— Oh! Êle terá o cuidado de sumir-se de minha vista, pois sabe quanto lhe sairia cara a graça! redarguiu Marcos Fragoso com arrogância de voz que mal encobria o vexame produzido pela alusão. 

— Aquilo foi uma surpresa vil, acudiu o Ourém em abono do amigo. Se não fosse o imprevisto do ataque, nunca lograria o intruso arrebatar o argolão ao nosso Marcos Fragoso, que é campeão para maiores façanhas. 

(continua...)

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