Por Joaquim Manuel de Macedo (1848)
Depois de um teimoso recusar da parte do velho Rodrigues, conseguiu enfim a “Bela Órfã” o que pedia. E desde então, em todas as horas de sesta, o guardaportão lhe ia cantar um solau ou uma balada, e em troco Celina fazia ouvir suas mais belas peças.
E havia beleza nesse cantar do velho.
Rodrigues, com seu trêmulo barítono, com sua coroa de neve na cabeça, e sua melancolia do declinar da vida, parecia ainda mais próprio para a execução daqueles cantos do passado.
E havia também, apesar de tudo, muito interesse nesses mesmos cantos do passado.
A balada, o solau, o romance nacional é o canto do coração e da natureza. Não é seu único mérito o ter sido com eles que outrora nossas mães nos embalavam no berço e nos adormeciam no colo. É principalmente porque há neles a música, a cor e o falar da pátria; é porque eles cantam o caro que se passou na terra que nos viu nascer; porque enfim a balada, o solau, o romance nacional é como nós filho de uma só terra, é nosso irmão.
Celina tinha de tal modo tomado gosto por esse gênero de música, que a presença do guarda-portão em seus estudos da tarde já era para ela uma necessidade. Por isso, foi com vivo movimento de prazer que ela viu mostrar-se à porta da sala a cabeça branca e o olhar malicioso do velho Rodrigues.
– Ah! exclamou; entre, entre, meu bom mestre de baladas; então, que teremos hoje?...
– Quase que já esgotei tudo quanto sabia, respondeu o velho.
– Pois então repitamos tudo quanto já ouvimos.
– Esses pobres cantos ouvidos mais de uma vez perdem talvez todo interesse que podiam ter merecido.
– Não; não. Vamos, sr. Rodrigues. Escolhamos um dos que já foram mesmo mais cantados. Por exemplo – Lindóia.
– Esse não...
– A Tamoia feita escrava?...
– Também não...
– O Sino do Colégio?...
– Cantei-o já três vezes.
– Escolha então o senhor um outro.
– Pois bem, senhora, cantarei – o Sonho da Virgem.
– Oh! esse ainda não o ouvi eu.
– É um romance moderno, feito ao molde dos antigos.
– Pois bem; vamos a ele.
O velho começou com voz pausada e melancólica a cantar assim:
Era um dia um mancebo que ardente Pobre vida esquecido vivia,
E uma virgem formosa inocente,
Que outra igual não se viu, não se via.
Quem separa o ardor da beleza?...
Um abismo fatal: – a pobreza.
O mancebo a donzela adorava?...
Quem o sabe?... ninguém dele ouviu.
Em seu peito esse amor sepultava, Se o amor em seu peito nutriu,
E se amava, era triste esse amar; Era um mudo e terrível penar.
E se amava, quem disso curou?
Quem ouvira do pobre o gemido?... Se o seu peito um ai só desatou, Foi um ai no deserto perdido. E podia alta e nobre donzela
Ver um pobre chorando por ela?...
O que é feito da virgem, do pobre?...
Quando o dia voltar to direi.
Negro manto da noite nos cobre. Ela dorme... mas ele... não sei. É na terra das trevas o véu;
Vagam sonhos... misteriosos do céu.
Eis a virgem... num vale formoso, De tapete de relva coberto,
Assentada em outeiro mimoso
Vendo um lago, que mora ali perto: Cobre-a teto de mil trepadeiras,
Há dois montes, que c’roam palmeiras.
Vêm dos montes meninos amores,
Em seus braços cestinhas trazendo; Tiram delas e espargem mil flores
Sobre a virgem, que os olha tremendo; E os amores seus jogos seguindo
Vão brincando, dançando, e se rindo.
Soa um canto dormente, mavioso, Que entoado no céu parecia,
Já das flores ao bafo oloroso, E perfumes o ar rescendia:
E a donzela, que tanto sentiu,
Entre eflúvios e cantos dormiu.
E um menino com seta afiada
Rasga o peito da virgem então,
E com hábil mãozinha apressada Rouba o puro, feliz coração. E a ferida nem sangue jorrou, Nem doeu, antes logo sarou.
Despertou a donzela assombrada
Com os clamores do bando loução. E a chorar desatou desolada
Vendo o roubo do seu coração. E o cruel, o fatal roubador
Foi na terra plantá-lo, qual flor.
A donzela chorava... chorava...
E os meninos as mãos ajuntaram.
E correndo pra onde ela estava,
Nas mãozinhas seu pranto apararam; E vão todos com gesto apressado A regar, o que estava plantado.
E nasceu um arbusto mimoso...
E do céu um anjinho baixou, Que fiel, vigilante, piedoso
Pela virgem constante velou. E esse anjinho amoroso, que vela, Tem o rosto da mãe da donzela...
Já o pranto da virgem secou,
E o arbusto nascido cresceu; De folhinhas mimosas se ornou;
O seu caule de espinhos se encheu. Coração de uma jovem formosa Brotou linda roseira viçosa.
Os meninos fugiram pra o monte, Três botões a roseira brotou,
Dois aos lados um doutro defronte, E o terceiro superno ficou.
Estava ali no envoltório da flor
Um segredo, um mistério de amor.
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. Os Dois Amores. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2158 . Acesso em: 6 jan. 2026.