Por Joaquim Manuel de Macedo (1845)
— Oh! mas isto é já uma loucura!... balbuciou Honorina.
— É admirável!... porém aquele que se esconde no mistério é um homem de quem se deve fugir.
— Sim, mãe Lúcia, disse automaticamente a moça, é um homem de quem se deve fugir. E, deixando-se insensivelmente sentar na cadeira, Honorina pareceu entregar-se à mais profunda meditação.
Era de ver-se essa jovem tão bela e tão interessante caída nessa posição desleixada, e tão fechada consigo mesma no íntimo de seus ocultos pensamentos; pálida, como a sombra da mais linda virgem refletida em água de fonte sossegada; com as mãos esquecidas sobre o colo; com seus cabelos espalhados e soltos negligentemente; com seus belos olhos desmaiados em doce quebrantamento; e em todo o seu semblante, com traços ligeiros dessa melancolia inefável, que tanto pode nos corações!
Lúcia olhava em silêncio para Honorina... parecia querer adivinhar seus pensamentos na expressão de seu rosto... bebê-los no ar que ela, respirando, deixava sair embalsamado por entre seus lábios cor-de-rosa.
No fim de um quarto de hora a moça levantou a cabeça e com as mãos afastou para trás das orelhas as aneladas madeixas, que lhe brincavam nas faces; estava então perigosamente fascinadora! era já absolutamente outra!... via-se sua fronte umedecida por leve suor, em seus olhos brilhava fogo celeste... suas faces mostravam-se brandamente coradas... suas narinas um pouco dilatadas... e pelos lábios, entreabertos, escapava-lhe respiração difícil e quase suspirante, que lhe agitava o seio, como se se sujeitasse a repetidos choques elétricos, de momento a momento estremecia; depois de alguns instantes mais, ela passou a mão pela testa e, erguendo-se, desassossegada:
— O sarau!... exclamou, o sarau!... que se me penteie... que se me vista depressa!... eu preciso sair... eu quero respirar o ar livre... e depois esquecer-me do mundo e de mim mesma na embriaguez de uma noite de prazeres ruidosos!... Mãe Lúcia, a minha cabeça me está ardendo! eu tenho nela alguma coisa que me queima... que me devora... que pode enlouquecer-me de um instante para outro!...
— Menina!...
— Que me penteiem!... que me vistam depressa!...
— Então será preciso mandar vir outro cabeleireiro...
— Oh!... quanto tempo perdido!... mas é impossível que fosse Raquel quem me mandasse aquele homem!... é impossível que se ela tenha ligado com ele para conspirar contra o meu sossego!...
— Um cabeleireiro, que vem da parte da Sr.ª Raquel, disse uma escrava, aparecendo na porta do gabinete.
— Que entre! exclamou a moça; mãe Lúcia... não foi, portanto, Raquel quem o mandou cá...
O cabeleireiro entrou; a moça estava perfeitamente toucada uma hora depois.
No entanto, o primeiro cabeleireiro, que havia estado com Honorina, pouco depois de ter saído da casa dela, buscou apressadamente o ponto da praia, onde em Niterói se encontram as faluas; aí cercado e perseguido pelos patrões e remadores, que à porfia lhe ofereciam seus batéis, o mancebo livrou-se deles, empurrando-os para os lados, e, saltando dentro da primeira falua que viu, gritou:
— Para a corte! velas ao vento, remos ao mar! e uma boa molhadura, se curta for a viagem!...
Meia hora depois o mancebo desembarcava no cais da rua fresca, devendo apenas notar-se que, com a pressa com que saltou fora do batel, desarranjou-se-lhe a cabeleira ruiva que trazia, e ele, para não demorar-se concertando-a, arrancou-a, e guardou-a no bolso da casaca.
XI
O sarau de Tomásia
Este mundo é grande campo, esta vida uma longa batalha, mercê de quem todos se combatem, embora a cada espécie e ainda a cada sexo caiba seu gênero de peleja particular, assim como a cada classe sua estratégia peculiar. Os homens, que têm para si tomado o que há de mais grave e talvez de mais difícil na ordem da sociedade, se dão batalha por diversos modos: e, pois, o político se bate no parlamento e nas ante-salas de palácio; o diplomata nos brilhantes salões; o literato no prelo; os artistas nas exposições etc. As senhoras não podiam deixar de ter no mundo o seu campo de guerra; elas o tem, o mote de todas é um só quero agradar, e o triunfo de uma significa a derrota de todas as outras.
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. O moço loiro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2107 . Acesso em: 6 jan. 2026.