Letras+ | Letródromo | Letropédia | LiRA | PALCO | UnDF




?
Busca avançada
Compartilhar Reportar
#Romances#Literatura Portuguesa

Os Brilhantes do Brasileiro

Por Camilo Castelo Branco (1869)

― Lá conhecê-lo, não conheci; mas a quem dava ela o dinheiro? A minha casa não ia homem de suspeita. Ela não se visitava com fôlego vivo. Mulheres destas de mexericos não me punham lá o pé das escadas acima, a não ser a costureira, de longe a longe. Não sei; o que sei é que descobri que ela vendia os brilhantes duma pulseira que lhe dei, e distribuía o dinheiro.

― Quantia grande?

― Que eu saiba 1.650$000 réis. Não era pelo dinheiro, que isto cá a mim não me fazia mossa; a minha questão era saber a quem deu ela este capital. Isso é que nem Deus nem o diabo foram capazes de lhe tirar do bucho.

Deteve-se Francisco a pensar naquela quantia de dinheiro, confrontando-a com outra que recebera durante o tempo da sua formatura. O homem tinha momentos de cuidar-se alucinado ou adormecido. Às vezes, a ânsia com que perguntava e o alvoroço com que ouvia as respostas, inclinavam-no sobre a cara do enfermo, que tinha razão de se espantar da torva inquietação do doutor.

― Queira dizer-me... – voltou Francisco, e susteve-se embaraçado com a torrente de perguntas que lhe soçobravam o espírito.

― O quê? – perguntou Hermenegildo, que parecia folgar nestas confidências com o seu médico. ― Já me disse que a sua casa ia apenas uma costureira...

― É verdade...

― E essa costureira...

Susteve-se outra vez o interrogador, receando demasiar-se em averiguações que deviam parecer desnecessárias ao marido de Ângela.

― Da costureira não desconfiava eu, nem me importava que ela lá fosse; mas olhe que não deixei de indagar da vida dela.

― E soube alguma coisa?

― Soube que era uma viúva honrada e que vivia com um irmão. Chamava-se ela Joana, e por sinal que não era má fatia! – acrescentou ele, piscando o olho direito e trejeitando um careta de sibarita.

O facultativo calava-se a intervalos grandes. Dir-se-ia que o nojo crescendo, subindo e empolando-se do peito acima, lhe impedia a fala.

De súbito, perguntou com a fronte avincada.

― E para onde foi a Sr.ª D. Ângela?

― Não sei: os meus amigos ainda a viram sair com a criada pela rua acima, tomar para o largo do Laranjal, e não souberam mais nada. Eu, passadas duas semanas, fiz-me de vela para aqui.

― Mas não pode o Sr. Fialho conjecturar onde ela iria ter?

― Quem sabe lá?!

― Ela saiu sem dinheiro?

― Acho que sim. não me faltou nada de casa. Tinha lá umas jóias, que eram da mãe, e deixou-as. ― Então saiu em circunstâncias de pedir esmola?

― Esmola?... Acho que não...

― Por que acha que não?... Uma senhora pobre, educada como fidalga, não exercitada em qualquer trabalho, de repente privada de meios, e indigente, que faria?

― Não sei... lá se avenha...

― Suponha o Sr. Fialho que D. Ângela de Noronha, em vez de trabalhar, porque não sabia, e em vez de mendigar, porque não podia, começou a vender-se porque era bonita!... Se assim acontecesse... Demorou-se, instantes, sufocado Francisco, e repetiu:

― Se assim acontecesse...

― O senhor parece que está a lagrimejar?!

― Estou, não há dúvida... porque me compadeço dessa pobre senhora...

― Compadece?... Então acha que é bonito uma mulher desonrar um homem de bem?

― Quem é o homem de bem?

― Sou eu...

― O Sr. Fialho?!

― Então vossa senhoria duvida?!

― Não duvido. Tenho a certeza de que o senhor é...

A cadeira de Francisco Costa tremia em vibrações. Ao brasileiro aumentou-se-lhe o espanto, quando viu o doutor erguer-se de salto e lançar mão do chapéu.

― Vai-se embora doutor?!... O senhor não vai bom!... Que é lá isso? Venha cá!

― Lembrei-me que tenho doentes, e a hora de os visitar já passou, mas volto logo – respondeu o médico, examinando o relógio, sem ver a hora.

― Nada... vossa senhoria sabe alguma coisa de minha mulher... Aqui há história...

― Sei!... – disse Francisco Costa, encarando-o de lado quando se retirava. – Sei que D. Ângela, até ao momento em que o senhor a expulsou de casa, foi pura e honrada esposa.

― Venha cá! Como sabe isso? – bradou Fialho sentando-se no leito.

O médico tinha saído.

― Aqui há mandinga, por mais que me digam! – monologava o brasileiro, apalpando ao mesmo tempo o fígado congestionado. – Quem diabo disse a este sujeito que a minha mulher estava honrada? É o primeiro homem que me diz isto!... Quero saber este negócio como é! À tarde vou mandá-lo chamar. Se ele puder provar que Ângela estava inocente, mando-a procurar, e dou-lhe uma boa mesada, e a quinta dos Choupos. Mas onde estará ela a esta hora!...

Meditou uma curta pausa e acrescentou:

― Ora bolas! Qual pura nem qual cabaça!... Se ela estivesse inocente, ia pela porta fora?!...

(continua...)

« Primeiro‹ Anterior...3738394041...Próximo ›Último »
Baixar texto completo (.txt)

← Voltar← AnteriorPróximo →