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#Romances#Literatura Brasileira

Numa e a Ninfa

Por Lima Barreto (1911)

— Você diz isso, porque não é casada com um general... Quem vai para a guerra? O que é mais difícil: falar na Câmara ou ir para a guerra? O Manoel tem mais serviços que muitos, entretanto ainda não foi para o Supremo. É verdade!

Quem ficará na guerra, Edgarda?

— Não sei. Por ora...

— Eu sei; o Chaves ficou provisoriamente. Mas quem vai? D. Celeste sabe?

— Não sei. Quem vai para o Ministério é cá o marido da minha amiguinha...

E apontou o leque para Mme. Costale.

— Ora! — fez ela com um riso chocho. — Dizem isto há tanto tempo.

— Agora vai — confirmou Edgarda.

— Você é bem feliz — disse Mme. Forfaible; — meu marido é que não arranja nada. Não tem sorte.

Com a resignação do presidente, houve grande mudança nos altos cargos políticos; essa mudança, porém, não se deu imediatamente. O substituto, temendo não satisfazer todos os seus amigos, insistira para que os antigos detentores ficassem. Poucos aceitaram e assim mesmo interinamente, para não criar tropeços ao novo governo. Davam-se vagas e era uma dificuldade preenchê-las. Acontecia que nem sempre o candidato de Bastos era de Bentes; e, às vezes, o de Bastos era inimigo de Bentes e o de Bentes era inimigo de Bastos, coisa vulgar. Um único obteve a concomitância dos dois poderosos padrinhos, fora Xandu, que estava à espera do antigo deixar a pasta para ocupá-la. Quanto à de chefe da polícia, o novo executivo reservara a nomeação para si. Escolheu entre os seus amigos um velho compadre roceiro, arruinado, que precisava dos proventos do cargo para resgatar hipotecas. Era o Dr. José Dias Chaveco, mais conhecido por Juca Chaveco que, naquele instante, expunha a Bogoloff as suas doutrinas policiais.

— Quá retrato, doutô! Quá nada! Se arguém viu, o marvado pode sê preso, mas se não viu — quá! só se outro vié contá.

Bogoloff tinha há pouco tempo entrado no convívio daqueles homens todos; mas era tal a sua flexibilidade, a sua maleabilidade de espírito, que lhes inspirava confiança, merecia-lhes consideração e ele, em troca, os tratava com um digno respeito.

A Chaveco, havia-lhe falado em processos modernos de investigação, mas o chefe da polícia tinha a respeito idéias simples de delegado da roça. Deixou-o e foi ter ao grupo em que falava Neves Cogominho. No momento, a conversa era conduzida por Macieira Galvão. Tinha andado este deveras atrapalhado com a posição que devia tomar na política; tendo querido que o presidente, por um dos seus ministros, demitisse um funcionário e nomeasse um seu parente, não fora satisfeito e pensou em declarar-se oposição; mas não o fizera francamente, mandando que um dos seus deputados o fizesse. O seu jogo fora pressentido e denunciado. Para disfarçar o insucesso, resolveu afastar-se, fazendo-se eleger governador de Palmeiras.

— Eu bem vi — dizia ele — que o “velho” não ia... não nos queria atender. Foi isso que se viu.

Fuas Bandeira confirmou:

— Era de uma teimosia de criança... Vejam só este caso da Estrada de Mato Grosso... Não prejudicou as finanças?

Numa acrescentou:

— Ele se havia fossilizado nos processos imperiais da política. Há necessidade de vistas novas.

Fuas ia perguntar com jeito, alguma coisa, sobre as tais vistas novas na política, quando Pieterzoon veio interrompê-los. Bandeira era inculto e a sua leitura ia pouco além dos jornais; mas diariamente saudava este ou aquele mais ilustrado e calcava seus imponentes artigos nas opiniões deles, falando de Darwin, de finanças e economia política e outras coisas de que nada sabia. Ele, como toda a gente, julgava Numa ilustrado e estudioso e estava disposto a surripiar-lhe algumas opiniões sobre a nova política, quando o deputado Pieterzonn cortou-lhe as vazas, perguntando ao colega:

— Numa, você ainda não disse nada sobre o caso do Espírito Santo?

— Não é preciso.

— Como não é preciso? — fez Fuas; — vejam só o ataque do Salomão. É preciso tirar-lhe os dentes.

— Frases! Frases! — disse hamleticamente Xandu.



(continua...)

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