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#Romances#Literatura Brasileira

A Mortalha de Alzira

Por Aluísio Azevedo (1891)

Depois, tirou a sua carteira, tomou algumas notas a lápis, e em seguida foi assentar-se à cabeceira do leito do doente, consultando o relógio de instante a instante.

Assim esteve até pela manhã, quando percebeu que Ângelo ia voltar a si.

Ergueu-se na ponta dos pés e foi ter com a criada, que dormia a um canto da sala de jantar, sentada num banco de pau.

— Olhe! disse-lhe em voz baixa. O vigário vai despertar... É preciso ter todo o cuidado com ele, entende?... Observe-o com atenção para me dizer depois o que se passar. Convém que ele me não veja e que não desconfie sequer que eu cá estive...

É preciso não deixá-lo perceber que está doente, porque senão ficará pior e talvez perdido... A respeito de tudo que se deu aqui esta noite—nem palavra, ouviu? Isto é o principal! A menor palavra a esse respeito po-lo-ia doido! Todo o cuidado é pouco!

Salomé, de boca aberta e olhos arregalados, ouvia-o sem pestanejar.

— Mas, disse ela, e se o senhor vigário me fizer alguma pergunta a respeito do que se passou à noite?

— Finja que de nada sabe. Assim é preciso se a senhora não o quer ver doido varrido! Adeus. Não se descuide, hein!... E tome lá de novo para o seu rapé! Até logo. Eu voltarei mais tarde.

Deu-lhe outra moeda e saiu, andando cautelosamente, como se receasse acordar alguém.

Ângelo, entretanto, acabava nesse momento de voltar a si.

Abriu os olhos, passeou-os estranhamente em volta da cama, depois tornou a fechá-los, deixou cair de novo a cabeça sobre o travesseiro e começou a dormir, como se continuasse um sono, apenas por um instante interrompido.

Eram duas da tarde quando se ergueu do leito.

CAPÍTULO V

Entre a vida e o sonho

Depois daquele imenso temporal da noite inteira, o dia abriu formoso e resplandecente de luz. A areia dos caminhos brilhava, secando ao sol; as chaminés das cozinhas atiravam para o ar penachos cor de pérola, que se agitavam suavemente às brisas refrescadas pela chuva.

A aldeia parecia sorrir. Os pardais saltavam por toda a parte e grasnavam por entre as ripas dos telhados. As borboletas saíam do mistério dos seus casulos, e vinham peraltear à grande claridade dos vergéis alegres e floridos.

Ângelo, entretanto, continuava a dormir profundamente, como um enfermo que acabasse de escapar à morte, depois de ter atravessado muitas noites em claro. Não sonhava, não se movia no leito. Era um sono de pedra.

Quando acordou às duas horas, fez as suas orações, tomou um copo de leite, que lhe haviam posto à cabeceira da cama, e deixou-se ficar no quarto até ao momento de ir rezar às Trindades na capela.

Saiu em silêncio, em silêncio atravessou por entre os aldeões, e foi colocar-se defronte do altar, com os braços abertos, e olhos perdidos no vago, imóveis, a desfiarem lágrimas.

Já não eram lágrimas de sacerdote, era o seu ferido coração de homem que sangrava.

Por esse tempo, Jerônimo e Salomé conversavam lá fora, sob o velho parreiral que havia em frente à pobre vivenda do pároco.

Falavam em voz baixa, como se conspirassem

— Ora, segredou o hortelão, muito me conta a tia Salomé a respeito do nosso vigário!... Bem me dizia vossemecê ainda ontem que o homem às vezes parecia apatetado!...

— Não estou nada satisfeita, mestre Jerônimo. Durante o tempo do defunto padre René nunca vi cousa assim! O padre René contava-me tudo, tudo que se passava com ele ao passo que este agora, nem só nada diz, como ainda por cima o médico me proíbe de lhe fazer perguntas!... Tem lá jeito!

— Ah! o Dr. Cobalt proibiu de lhe falar, hein?

— É exato! Jurou-me que, se o senhor vigário ouvisse uma só palavra do que se passou de ontem à noite para hoje, ficaria doido varrido...

— E o que foi que se passou, tia Salomé?

— Sei cá o que se passou! E, ainda que o soubesse, não o diria, porque o médico proibiu!

— O médico proibiu de contar ao senhor vigário e não a mim... Ora essa!

— Não sei! Prometi de não contar, não conto a ninguém!

— A tia Salomé terá receio de que eu também fique com a bola virada ao ouvir a tal história?... Se o caso é esse perca o receio e desembuche, que eu cá respondo por mim!

— Mas é que eu de nada sei, homem de Deus!

— Não sabe?... Então a que vem a recomendação do doutor?...

— Naturalmente cuida que estou a par de tudo... E confesso que já agora não se me dava de saber que história é essa, que põe a gente com o juízo transtornado...

— O que me parece, tia Salomé, é que para o vermos doido, não é preciso que vossemecê lhe conte a tal história!...

— Para longe o agouro, mestre Jerônimo!

— Ora! Um homem que anda sempre como se estivesse dormindo em pé!... Suponho que nem dá pelo que se passa em redor dele...

— É um santo!

— É! por isso anda sempre lá pelo céu, com a lua.

— Credo, mestre Jerônimo! Isso não se diz. Você está ficando ateu!

(continua...)

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