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#Romances#Literatura Brasileira

A Condessa Vésper

Por Aluísio Azevedo (1897)

Daí a dois dias, apareceu no Jornal do Comércio um artigo, descrevendo minuciosamente o escândalo do baile do comendador. O escrito tinha frases bombásticas; elogiava ó procedimento do velho coronel e comparava o caráter do honrado militar com o tipo baixo e vil do comendador.

Esta publicação surpreendeu em extremo o coronel e os seus. Nenhum destes podia atinar quem seria o espontâneo autor de semelhante defesa.

O Moscoso, ao lê­la ficou possuído de uma cólera tremenda, e jurou vingar­se melhor do que ate aí.

Os artigos continuaram. Eram escritos pelo Melo Rosa. O esperto calculara uma engenhosa especulação para desfrutar ainda o comendador: Este, desde que encontrasse qualquer correspondência no Jornal a seu respeito, teria que responder, e havia de recorrer àquele. Assim sucedeu. O Rosa escrevia, contra e a favor, tanto do coronel, como do Moscoso.

A luta estava perfeitamente travada.

O coronel caía de surpresa em surpresa, e o Melo Rosa ia empalmando os cobres que lhe dava o comendador.

Afinal, um belo dia estando Pinto Leite em casa a conversa com o filho e Gabriel, foram interrompidos por um meirinho, que apresentou ao veterano uma citação em nome do comendador Moscoso.

O pai de Ambrosina comprara as dívidas do adversário, que montariam a uns dez contos de réis.

Foi sacrifício, mas o perverso não desdenhou arrostá­lo para dar pasto à sua vingança.

O coronel tinha de entrar com aquela quantia dentro de vinte e quatro horas.

— Onde iria ele de pronto, buscar esse dinheiro... E o pobre do coronel olhou abstratamente para o meirinho, depois para o filho, em seguida para Gabriel, e por fim escondeu o rosto nas mãos e ficou a cismar, completamente possuído pela sua perplexidade.

Gabriel, porém, apossou­se da intimação, e disse alegremente ao veterano.

— Não lhe dê isso cuidado, meu amigo. Lembre­se de que sou filho de Violante! O senhor pode perfeitamente pagar o triplo dessa importância, sem o menor constrangimento.

E, voltando­se para o meirinho, acrescentou com a voz calma e resoluta:

— Retire­se! O senhor coronel Pinto Leite entrará com o dinheiro.

E, antes de esgotado o prazo fatal, já o belo moço tinha com efeito pago as dívidas do benfeitor de sua mãe.

Mas, para liquidar a transação, foi­lhe necessário entender­se diretamente com o comendador Moscoso, que estava de cara à banda porque contava que o coronel nunca pudesse pagar as dívidas.

Gabriel, para dar caráter mais espetaculoso ao negócio, preferiu que o credor o recebesse em sua casa particular.

Moscoso marcou­lhe uma entrevista às sete horas da noite.

Gabriel apresentou­se. Veio recebê­lo Ambrosina.

— Como! pois V. Exa. é filha do comendador?

— É verdade, sou. Não sabia?

— Ignorava­o totalmente. Como tem passado?

— Bem. E o senhor?

— Eu... um pouco pior depois que sei o que acabo de saber...

— Ora, essa! por quê?...

— Ainda não lhe posso dizer a razão...

E os dois, que já se conheciam, olharam­se de um modo estranho.

XVI

A FORMOSA AMBROSINA

A filha do comendador estava mulher, e mulher bela.

Aquela criança, franzina e linfática, se transformara em uma mulher encantadora e forte.

A não ser os olhos, que foram sempre formosos, toda ela se havia metamorfoseado. O pescoço, os braços e os quadris enriqueceram­se de graciosas curvas, o cabelo fez­se volumoso, a tez pálida e fresca, os ombros um primor de estatuária, a boca um ninho de sorrisos cor­de­rosa e cor de pérola.

Toda ela respirava, porém, uma híbrida fascinação de anjo e de demônio. Os seus lindos olhos verdeescuros, tanto poderiam servir para ensinar o caminho do céu, como o caminho do inferno.

Havia alguma cousa do pecado de Eva paradisíaca na elasticidade ofídia e ondulosa do seu corpo, na mancenilha daqueles cabelos crespos, no viço provocador daqueles lábios carnudos e vermelhos.

A sua voz era como um hino de amor e de revolta, feito de ironia, de súplica, de desdém e de ternura.

Gabriel só viu e percebeu de tudo isso o lado risonho e claro, quando se achou pela primeira vez em presença de Ambrosina.

Foi em um baile, na casa de um dos seus colegas de academia, que também voltava formado de S. Paulo.

O filho de Violante dançou com a formosa moça; muito, e ele, já cativo, rudemente lhe declarou que a achava encantadora e que seria o mais feliz dos mortais, se pudesse amá­la com a esperança de ser correspondido.

Ela riu­se, e aconselhou­o a que desistisse de semelhante loucura.

Na Corte havia muita menina bonita. Gabriel, chegando naquele instante, nada ainda tinha visto; não se deixasse por conseguinte levar pelas primeiras impressões...

— São sempre as melhores... respondeu ele sorrindo.

— Qual o quê! replicou Ambrosina. O senhor arrepender­se­ia. Só eu, tenho mais de uma dúzia de amigas que, se fosse rapaz, amá­las­ia de joelhos... São lindas

(continua...)

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