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#Romances#Literatura Brasileira

O Cabeleira

Por Franklin Távora (1876)

Alguns parasitas, plantas conhecidas e existentes em todas as regiões, mas muito mais abundantes nas regiões oficiais, ou governativas, correram ao palácio a verem se podiam, pelos meios que sabe a astúcia pérfida e servil, inferir das palavras de José César, ditas na intimidade, o destino a que se dirigia a coluna militar, inesperadamente posta em armas e a caminho. O semblante do governador, porém, semelhava uma superfície plana; não apresentava uma só roga que pudesse trair oculto desgosto, ou indicar grave apreensão. Se da fronte passavam a estudar as palavras de José César, não descobriam no sentido destas menos discrição e reserva do que tinham encontrado na expressão daquela. Os lábios do governador guardavam com a severidade da disciplina militar e das práticas do governo naqueles tempos silêncio absoluto a respeito do acontecimento que preocupava os grandes e o popular.

A curiosidade pública mostrou-se dentro em pouco ainda mais excitada com certas notícias trazidas do interior pelos boiadeiros, almocreves e estafetas. Em todos os distritos, por ordem dos respectivos capitães mores, de acordo com os coronéis de ordenanças, se tinham levantado milícias locais que evidentemente se aprestavam para um fim de grande importância, a julgar pelas aparências.

Das sedes de alguns desses distritos já os destacamentos haviam marchado para certos e determinados pontos que os informantes não sabiam dizer.

Enfim, tendo reunido todos estes elementos de duvidar e de decidir, e os tendo pesado na balança da crítica, arte ou ciência comum a todas as sociedades ainda as que se acham no estado mais rudimentar, julgou-se o publico autorizado a afirmar que se tratava de efetuar uma diligência de alta monta, para a qual tinham de concorrer simultaneamente as diferentes forças locais, de combinação com algum destacamento da capital.

CAPÍTULO XI

Antes de se haver movido da capital o destacamento que foi estacionar em Afogados, grande confusão dominara nos espíritos dos habitantes desta localidade.

Foi o caso que pelas oito horas da noite, pouco mais ou menos, dois vultos se tinham ido colocar defronte da taberna do Timóteo.

A alguns fregueses e freqüentadores do taberneiro causou reparo o misterioso par que ninguém se animou a ir reconhecer, não obstante a todos parecer ele equívoco e digno de recear-se.

Não se podia confiar no tempo, principalmente nos lugares afastados da vila.

Roubos e assassinatos repetiam-se a cada canto. Na própria capital os habitantes não tinham por seguras nem sua propriedade nem sua vida. Por isso, qualquer sujeito duvidoso suscitava, com razão, desconfianças e medos nos homens pacíficos que por interesse próprio se apartavam sem demora dos pontos onde tais sujeitos apareciam ou podiam aparecer.

Quem menos se inquietou com os desconhecidos foi o Timóteo que, acostumado a tratar, de instante a instante por assim dizermos, com essa espécie de gente, se considerava fora de todo risco ainda quando este se desenhasse, como em certas ocasiões, com as mais vivas e medonhas cores. A seu parecer, de indivíduos tais só tinha ele que esperar favor e proteção, visto que, sendo sua taberna ponto obrigado das relações da capital com o centro, quer fosse de dia quer de noite, assim de inverno como de verão, tinham eles, como ele próprio, grande interesse, se não maior do que ele tinha, em conservar, defender, amparar esse poderoso ponto de apoio para os seus dolos, violências e infames ciladas de que era vítima o matuto simplório, o sertanejo de boa fé, o mascate, enfim quem quer que passava por aquela infernal estância.

Apontavam-se no lugar outras tabernas, das quais algumas tinham à sua frente patrões mais hábeis do que o Timóteo; a do velho, porém, mestre no mister como nenhum outro, tinha fama extensa, quase geral na província. Era uma taberna tradicional por ter servido muitas vezes de teatro a cenas de sangue e morte.

Pelas festas de arraial, o jogo, a crápula aí se praticavam com prejuízo considerável da ordem pública, da fortuna particular, do sossego e honra das famílias.

Estas circunstâncias, este passado davam-lhe certo prestígio que atraía para o imundo balcão, ou para a lôbrega camarinha da tasca o vicioso por hábito, o filho da viúva, a rapariga infeliz, os quais iam encontrar debaixo das quatro telhas do casebre largo campo onde dar expansão a suas paixões reprovadas.

Quando algum freqüentador, exaltado pela cachaça, ameaçava esfaquear o vendeiro por alguma das suas, respondia ele, abrindo a camisa, e mostrando o largo peito coberto de espessos e avermelhados pelos:

(continua...)

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