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#Romances#Literatura Brasileira

A Escrava Isaura

Por Bernardo Guimarães (1875)

— Ah! toleirões! — exclamou o Martinho, — vocês ainda estão com os beiços com que mamaram. Andem cá, andem, e verão se é maluquice, nem velhacaria. Enfim quero mostrar-lhes o meu jogo, porque desejo ver se a opinião de vocês estará ou não de acordo com a minha. Eis aqui a minha bisca. — concluiu Martinho mostrando um papel, que sacou da algibeira; — não é nada mais que um anúncio de escravo fugido.

— Ah! ah! ah! esta não é má!...

— Que disparate!... decididamente estás louco, meu Martinho.

— A que propósito vem agora anúncio de escravo fugido?...

— Foste acaso nomeado oficial de justiça ou capitão-do-mato?

Estas e outras frases escapavam aos mancebos de envolta, em um coro de intermináveis gargalhadas, que competiam com a orquestra do baile.

— Não sei de que tanto se espantam, — replicou frescamente o Martinho; — o que admira é que ainda não vissem este grande anúncio em avulso, que veio do Rio de Janeiro, e foi distribuído por toda a cidade com o jornal do Comércio.

— Porventura somos esbirros ou oficiais de justiça, para nos embaraçarmos com semelhantes anúncios?

— Mas olhem que o negócio é dos mais curiosos, e as alvíssaras não são para se desprezarem.

— Pobre Martinho! quanto pode em teu espírito a ganância de ouro, que faz-te andar à cata de escravos fugidos em uma sala de baile! — pois é aqui que poderás encontrar semelhante gente?...

— Olé... quem sabe?!... tenho cá meus motivos para desconfiar que por aqui mesmo hei de achá-la, assim como os cinco continhos que, aqui entre nós, vêm agora mesmo ao pintar, pois que o armazém de meu sócio bem pouco tem rendido nestes últimos tempos.

Martinho chamava armazém à pequena taverna de que era sócio Ditas aquelas palavras foi postar-se junto à porta que dava para o salão e ali ficou por largo tempo a olhar, ora para os que dançavam, ora para o anúncio, que tinha desdobrado na mão, como quem averigua e confronta os sinais.

— Que diabo faz ali o Martinho? — exclamou um dos mancebos que entretidos com as mímicas do Martinho, tomando-as por palhaçadas, tinham-se esquecido de jogar.

— Está doido, não resta a menor dúvida. — observou outro. — Procurar escravo fugido em uma sala de baile!... Ora não faltava mais nada! Se andasse à cata de alguma princesa, decerto a iria procurar no quilombos.

— Mas talvez seja algum pajem, ou alguma mucama, que por ai anda.

— Não me consta que haja nenhum pajem nem mucama ali dançando, e ele

não tira os olhos dos que dançam.

— Deixá-lo; este rapaz, além de ser um vil traficante, sempre foi um maníaco de primeira força.

— É ela! — disse o Martinho, deixando a porta, e voltando-se para seus companheiros; - é ela; já não tenho a menor dúvida; é ela, e está segura.

— Ela quem, Martinho?...

— Ora! pois quem mais há de ser?...

— A escrava fugida?!...

— A escrava fugida, sim, senhores!... e ela está ali dançando.

— Ah! ah! ah! ora, vamos ver mais esta, Martinho!... até onde queres levar a tua farsa? deve ser galante o desfecho. Isto é impagável, e vale mais que quantos bailes há no mundo. — Se todos eles tivessem um episódio assim, eu não perdia nem um. — Assim clamavam os moços entre estrondosas gargalhadas.

— Vocês zombam? — olhem que a farsa cheira um pouco a tragédia.

— Melhor! Melhor! — vamos com isso, Martinho!

— Não acreditam?... pois escutem lá, e depois me dirão que tal é a farsa.

Dizendo isto, Martinho sentou-se em uma cadeira, e desdobrando o anúncio, pôs-se em atitude de lê-lo. Os outros se agruparam curiosos em torno dele.

— Escutem bem, — continuou Martinho. — Cinco contos! – eis o título pomposo, que em eloqüentes e graúdos algarismos se acha no frontispício desta obra imortal, que vale mais que a Ilíada de Camões...

— E que os Lusíadas de Homero, não é assim, Martinho? deixa-te de preâmbulos asnáticos, e vamos ao anúncio.

— Eu já lhes satisfaço, — disse Martinho, e continuou lendo:

(continua...)

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