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#Crônicas#Literatura Brasileira

Um passeio pela cidade do Rio de Janeiro

Por Joaquim Manuel de Macedo (1862)

Diversas outras ruas largas e bem construídas concorriam com aquelas para dividir-se o passeio em maciços de forma regular, cercados por gradaria de taboca e ostentando o tesouro de mimosos e floridos arbustos e a vegetação tropical, representada por árvores que haviam de ser corpulentas e frondosas, e que teriam de oferecer sombra e frescor ainda nas horas canhosas do dia.

Ao tocar a rua principal o ponto que a terminava, um largo espaçoso se fazia ver, e aí duas mesas de pedra abrigavam-se debaixo de um teto de jasmins, e adiante delas, e um pouco mais para o centro, mostravam-se dois pequenos lagos artificiais, do meio de cada um dos quais erguia-se uma pirâmide de cantaria, que de cada face da sua base deixava correr uma pena d’água com doce murmúrio. Paralelos às margens dos lados havia bancos de pedras.

Uma das pirâmides tinha a inscrição: “À Saudade do Rio”. A outra: “Ao amor do Público”. Quem sentiu a saudade e quem se lembrou do amor do público, a que foram consagradas as duas pirâmides, não me é dado dizer.

Alguns passos além das pirâmides e fronteiro à rua principal, levanta-se um outeiro artificial, vulgarmente chamado cascata, e que era ali o mais belo triunfo de mestre Valentim.

O outeiro fora todo formado de pedras sobrepostas como ao acaso, mas com admirável efeito, rebentando dentre elas ervas e arbustos apropriados. Algumas aves graciosas feitas de bronze pousavam sobre as pedras e soltavam dos bicos água cristalina, que se precipitava mais murmurante que ruidosa. Quase na base do outeiro, dois jacarés também de bronze, parecendo recrear-se entrelaçados fora do seu ninho, mostravam-se soberbos, lançando pelas bocas abertas cópia d’água claríssima, que ia com a que deitavam as aves ajuntar-se em um tanque semicircular que rodeava a cascata, e onde se reproduziam as imagens dos jacarés. Sobre o cume do outeiro, enfim, elevava-se um magnífico coqueiro de ferro, pintado ao natural, e tendo mais de vinte palmos de altura.

Antes de passar adiante, permitam-me que me vingue da aridez da minha descrição, conversando um pouco.

As duas pirâmides dos pequenos lagos artificiais bem poderiam ter-se queixado ao vice-rei Luís de Vasconcelos, por não lhes haverem dado mais alguns palmos de altura. As árvores que junto delas hoje se mostram orgulhosas as abafam e amesquinham, e acabarão talvez um dia por cobri-las com a sua copa.

Em compensação, o outeiro é uma grande obra de arte que não deixará jamais esquecer o nome de mestre Valentim.

Também o artista tomou a peito executar essa obra com verdadeiro primor. Foi Valentim que, depois de modelar aquele grupo de jacarés, vendo que falhara a primeira fundição, quis em pessoa dirigir a segunda, que deu o resultado feliz, louvado por quantos entendedores e mestre o estudam.

O coqueiro de ferro também foi obra do mesmo mestre, que muito nela se esmerou para agradar ao vice-rei. Se a tradição não mente, aquele coqueiro teve uma origem misteriosa, e serviu para abrandar o pranto da bela Susana, que em sonhos chorara a perda da palmeira querida, a cuja sombra trocara juramentos de amor com Vicente Peres. Mas o grande coqueiro pouco tempo resistiu ao furor das tempestades. O vento impetuoso quebrou-lhe os ramos, e tão estragado deixou-o que, no princípio do século atual, o vice-rei Conde dos Arcos o mandou arrancar e substituir por um busto de Diana em mármore.

Apesar de ser de ferro, a árvore de amor cedeu ao vento!

A moralidade da história não pode ser muito lisonjeira para os namorados.

E infelizmente não foi somente a palmeira que teve de desaparecer do formoso outeiro: as aves de bronze que pousavam sobre as pedras da cascata sofreram o mesmo destino. Como acabaram elas? Não me é possível dizê-lo ao certo. Mas, se em todo o caso, exigis uma explicação, inventarei a que me parece mais verossímil, e que mais serve para absolver de uma indesculpável incúria algum dos governos passados.

É ao conde dos Arcos que devemos lançar a culpa da perda daquelas aves graciosas. Para que mandou esse, que foi o último dos vice-reis do Brasil, colocar sobre o outeiro a intrépida Diana? Diana, como todos sabem, é caçadora, e, portanto, caçou as aves.

Se não vos serve esta explicação, também não vos darei outra.

Já conversamos: vou continuar, a descrição.

Do jardim podia-se subir para o terraço por quatro escadas de pedra, duas centrais e contíguas à cascata, e as outras duas nos pontos extremos.

O terraço era espaçoso e cheio de elegância. Mas as obras de arte que o enriqueciam quase que se sentiam abater ante a magnificência da natureza, que daquele lugar se admira.

Entretanto, aquelas obras não careciam de merecimento.

Logo, ao chegar-se ao alto das escadas centrais, encontrava-se por detrás do outeiro um menino que parecia querer voar e que segurava um cágado que vomitava água em um barril de granito lendo-se o dístico: Sou útil inda brincando, em uma faixa trazida pelo menino.

(continua...)

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