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#Crônicas#Literatura Brasileira

Os Romances da Semana

Por Joaquim Manuel de Macedo (1861)

— E que quer elle comnosco ?...

— Sem a menor duvida seguir-nos.

Os tres mascaras tinhão chegado á porta do Iheatro, e a um signal do dominó preto, que então se adiantou alguns passos, approximou-se um elegante carro.

— Seguir-nos ?... disse admirado Luciano.

— Sim, e entrar comnosco n'esta carruagem.

Com effeito, o dominó preto saltou para dentro do carro logo que vio dentro d'elle a bella incognita e Luciano, que cada vez mais sorprehendido se mostrava.

O carro partio.

— Para onde vamos ?... perguntou o estudante.

— Que te importa, uma vez que me levas a teu lado ?... disse a moça.

— Oh ! mas parece que durmo e que sonho, e tenho medo de accordar.

— Tranquillisa-te : accordaremos todos no seio da felicidade.

— Todos ?...

— Sim : não posso dizer accordaremos ambos; porque estás vendo que já somos tres...

— Mas o nosso terceiro companheiro é mudo?...

— Ah ! se soubesses como o seu coração palpita de alegria, ouvindo-nos !...

— Dominó preto, quem és tu ?...

O dominó não respondeu.

— Pergunta-me o que quizeres : eu responderei por elle.

— Pois começa por dizer-me o seu nome.

— Que empenho é esse, se ainda não sabes o meu ?... disse a moça com doçura.

— Quem és então ?... quem és, mulher encantadora ?... perguntou de novo Luciano, beijando com amor a mão da bella incognita.

— Quem sou ? pois não te diz o coração que sou a esposa que elle te escolheu ; que sou a mulher que te prendeu e conquistou-te ?...

— Sim ! sim ! é isso mesmo !

— Ves? disse a moça com um tom de irresistivel magia ; eu sou a soberana, e tu és o escravo...

— Sempre!

— Ninguém te obrigou a amar-me, e tu amaste-me, e amas-me ; ninguém te arrastou para junto de mim, e tu offereceste os pulsos ás minhas cadeias !... és meu! és meu escravo; não é assim ?...

— Oh! e como é doce poder sel-o ! ..

O carro parou n'esse momento á porta de uma vistosa casa de campo.

Luciano nem tinha reparado no caminho por onde fora trazido.

O criado abrio a portinhola da carruagem, os dous jovens apearão-se, e logo após elles o dominó preto.

Luciano vio a casa brilhante de luzes, como para uma noite de festa.

— Vem! disse-lhe a bella incognita, tomando lhe o braço.

O estudante não hesitou : o que se estava passando, começava a parecer-lhe um conto das Mil e uma Noites, e sua imaginação exaltada o impellia para ver o fim d'esse romance, em que elle tinha uma parte tão notavel.

Entretanto o seu coração palpitou mais fortemente, quando sentio que chegavão á porta da sala.

— Emfim ! disse em alta voz a moça antes de entrar.

— Quem é?... perguntou alguém, que na sala estava.

— Sou eu, meu pai; sou eu que trago o rebelde vencido, e para sempre encadeiado!

Luciano soltou um grito de sorpreza encontrando-se face a face com Guilherme, a esposa d'este, e sua própria mãi, que o vierão receber com os braços abertos.

— Meu Deus! exclamou o estudante chorando de alegria ; e meu pai!. . onde está meu pai?...

— Disfarçado em um dominó pela primeira vez na sua vida !... disse o dominó preto, arrancando a mascara.

Luciano cahio de joelhos.

— Que queres ? perguntou Eugênio sorrindo.

Luciano não poude fallar; mas apontou para aquella que fora a sua bella incognita, e que acabava de ser incognita, continuando sempre a ser bella e encantadora.

— Não te dizia eu, observou-lhe Eugenio ; não te dizia eu que dentro de pouco tempo tu me pedirias de joelhos que abençoasse o teu casamento com Dionysia ?...

Adivinha-se o resto. O casamento de Luciano com a filha de Guilherme vai em breve effectuarse, o estudante, maldizendo o seu louco orgulho que o fazia voltar o rosto á felicidade, reconhece e diz a todos que a bella incógnita não perdeu nenhum dos seus encantos por chamar-se Dionysia.

INNOCENCIO

I.

Na manhã do dia 24 de Janeiro do anno corrente de 1861 estava passeando á entrada da estação da estrada de ferro, no campo da Acclamação, á espera do trem que devia a todo instante chegar, um homem de 50 annos de idade, de estatura regular, um pouco gordo, nem bonito nem feio, mas que á primeira vista logo se fazia notar por um sorriso constante que lhe morava nos labios, sorriso que nem exprimia bondade, nem toleima ; muito claramente porém uma ironia cruel, e, talvez, insolente.

Esse homem chamava-se, ou antes chama-se Geraldo ; mas porque muito a miudo dá ao seu sorriso habitual as proporções de gargalhada, é, ainda mais do que pelo seu nome de baptismo, conhecido na cidade do Rio de Janeiro pela alcunha de — Risota.

(continua...)

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