Por José de Alencar (1872)
Rodearam os caipiras a mesa e devoraram as provisões, depois de terem molhado a garganta com um copázio de boa cachaça de Piracicaba, a fim de escorregarlhes bem o bocado, e não os engasgar.
Na extremidade oposta, tomava o Gonçalo seu café, observando os caçadores com a curiosidade natural à vida monótona do interior, mas também com um recacho de arrogante fatuidade. Sem dúvida tinha-se ele por um grande personagem, incógnito àqueles pobres diabos.
- Isso há de ser tarde já! disse olhando céu.
Era um pretexto para travar a conversa; mas os outros com a boca cheia não estavam dispostos à palestra. Apenas o Filipe correspondeu com um meneio de cabeça.
Virou o Gonçalo a palangana de café e acendeu o pito.
- É servido? perguntou oferecendo fogo ao caipira.
- Nada, obrigado.
- Ainda que mal pergunte, o patrício vem de longe?
- De Campinas!
- E anda caçando? Por estas bandas há muito veado e paca: mas como os caititus este ano, nunca se viu: é mesmo uma praga!
- Nós cá andamos no rasto, mas é de outra caça! atalhou um dos caipiras a rir.
- Viemos desencovar uma onça! acudiu outro.
- E é suçuarana!
- Qual! Tigre verdadeiro!
Fizeram coro os caipiras na gargalhada que despertara o dito do companheiro. Não compreendendo a pilhéria, o Gonçalo estava a olhá-los meio desconfiado e com um riso insosso.
- O patrício não lobriga?
- Por vida, que não! tornou o Gonçalo. Ainda que Suçuarana é o sobrenome cá do degas; por causa de ser malhado como a bicha. Não vê?...
E mostrou as manchas da cara.
- Sem falar da munheca!... Talvez o amigo não acredite; mas onde a vê, já pegou queda de braço com uma; e mais era um bichão da altura daquela porta, sem exageração! Agora quanto às risadas dos patrícios, a falar verdade não avento!
- Já vê que é caça gorda.
- É cá uma história!
- Por força que há de conhecer um tal Jão Bugre?
- Conheço bem!
- Pois aí está a bicha fera que viemos desencovar. Parece que a furna dele fica por aqui perto. Não podia nos dar notícia?
- Mas então os camaradas andam-lhe na pista?
Entrava o Chico Tinguá, com a pichorra de café e as palanganas que deitou sobre a mesa, recostando-se depois ao portal da entrada, com a perna trançada e a mão no quadril.
- Não ouviu falar no Aguiar, do Limoeiro, não?... Um fazendeiro, que o tal Bugre arrumou com duas facadas, há de andar por uns dois meses?
- Tenho uma idéia, replicou o Gonçalo.
- O negócio deu brado, porque o homem era rico e andava sempre com uma ruma de capangas. Mas Bugre fez-lhe as contas.
- É um temível!
- Marcado como ele só!
- Nem por isso! observou o Pinta. Mas então é por causa dessa morte que os camaradas vêm prendê-lo?
- O filho do Aguiar dá dois contos a quem filiar o meco.
- Não digo que não!
- Se quer entrar na festa?
Relanceando um olhar ao Tinguá, que parecia cochilar encostado à ombreira da porta, respondeu o Gonçalo com frouxidão:
- Nada; tenho obra mais fina.
- Quem sabe se o senhor conhece o Bugre?
-Pois que dúvida!
- Será mesmo o durão que dizem?
- É conforme. Eu cá não conto com ele.
(continua...)
ALENCAR, José de. Til. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1850
. Acesso em: 28 jan. 2026.