Por José de Alencar (1875)
— Escute. Os cavalheiros armaram-se de umas lanças finas, muito compridas para poderem chegar ao tope do mastro, e ainda assim era preciso que se erguessem sôbre os estribos para alcançar o alvo. Da primeira investida nenhum tocou na argola, nem da segunda: e de ambas ela, muitos dos campeões no ímpeto de mostrar sua proeza, levantaram-se tanto dos arções, que rolaram em terra.
— Coitados! disse Alina a rir.
— Na terceira investida poucos restavam; e dentre êstes, o mais esforçado e brioso era o capitão Marcos Fragoso…
— Eu já esperava!
— Por que menina?
— Pois não foi êle que primeiro lhe ofereceu a argolinha?
— Que tem isso?
— Tem que o cavalheiro de D. Flor por fôrça que havia de ser o mais brioso e esforçado de quantos lá estavam.
— E se fossem dois os meus cavalheiros?
— Devéras?…
— Foi o que aconteceu. O Marcos Fragoso que ia na frente, com um bote certeiro enfiou o argolão na ponta da lança.
— Bravo!
— Mas ao mesmo tempo outro cavalheiro que vinha contra êle à disparada, também com a lança em riste, enfiava o argolão pelo outro lado, de modo que os dois ferros ficaram atravessados em cruz.
— E êsse cavalheiro, quem era?
— Não se soube. Via-se que não era dos campeões, pois estava com trajo de cidade; e além disso tinha a cara amarrada com um lenço que lha cobria toda, deixando apenas a descoberto os olhos, por baixo da aba do chapéu.
— Que bioco!
— Houve quem visse o embuçado sair do meio do povo, pular na teia, apanhar a lança no chão, saltar na sela de um cavalo desmontado que passava, e correr sôbre o mastro, onde chegou justo no momento em que o Fragoso ia tirar o argolão, e para lho disputar.
— E o que sucedeu?
— Os dois campeões forcejaram cada um de seu lado para arrancar o argolão, mas não o conseguiram. Foi então que o desconhecido correu sôbre o seu contrário e arrebatou-lhe a lança da mão. Todos aplaudiram a façanha, menos o Fragoso que ficou passado no meio da praça, enquanto o vencedor, chegando ao palanque onde eu estava apresentou-me o argolão na ponta das duas lanças, repetindo - «À mais formosa».
— E você, Flor, o que fez?
— Eu, menina, não sabia o que fizesse de contente e ao mesmo tempo acanhada que fiquei, vendo todos os olhos fitos em mim. Foi minha tia D. Catarina, que recebendo o listão o passou pelo meu ombro, com o que redobraram os aplausos à proeza do desconhecido. E acabou-se a história; que eu não vi mais nada, nem dei por mim dêsse momento em diante até que tornámos à casa.
— E o desconhecido?
— Ouví depois que desaparecera assim como viera, de repente, antes que o pudessem descobrir; e não se soube mais dele.
— Mas você não desconfiou quem seria? Pois pelo modo parece que era pessoa conhecida.
— Quem podia ser, menina? E como havia eu de suspeitar?
— Pela voz. Êle não lhe falou?
— Três palavras.
— Pelo jeito do corpo, e modo por que montava a cavalo. Não reparou?
— Naquele instante, entretida como estava com a festa, não me lembrava de mais nada.
Alina calou-se um instante sob a preocupação da idéia que lhe acudira ao espírito, e depois inclinou-se para falar à companheira com a voz submissa e tímida expressão.
— Não se parecia com Arnaldo?
— Quem, Alina? O embuçado?
Alina confirmou com um gesto.
— Que lembrança! tornou D. Flor com surpresa.
— É porque você não sabe que Arnaldo desapareceu da fazenda no mesmo dia em que o senhor capitão-mór partiu.
— Sei, que já me contou mamãe Justa. Arnaldo foi à Serra Grande atrás de uns barbatões.
— Isto é o que êle diz.
— Mas, menina, que razão tinha êle para esconder-se?
— Não sei, Flor, respondeu Alina esquivamente.
A filha do capitão-mór não insistiu, e divagando os olhos pela floresta, ficou pensativa,
enquanto Alina inclinando a fronte absorvia-se também de seu lado em íntimas reflexões.
XVI – O vizinho
Um tropel de animais que ressoou perto de casa tirou as duas meninas de sua distração.
Ambas, impelidas por igual movimento de curiosidade, debruçaram-se à janela e retrairemse tomadas de surpresa pelo que viram.
Luzida quadrilha de cavaleiros acompanhados de seus pagens acabava de parar no terreiro. Eram todos mancebos, bem parecidos e trajados com o apuro e gala que então usavam, ainda mesmo no sertão, as pessoas de grandes posses.
O Agrela, que fôra prevenido da aproximação dos forasteiros desde que de longe os tinham avistado, saíra a recebê-los.
(continua...)
ALENCAR, José de. O Sertanejo. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1848 . Acesso em: 27 jan. 2026.