Por Machado de Assis (1878)
— Trata-se... de teu pai? perguntou a madrasta. Iaiá fitou-a e respondeu:
— Sim, mamãezinha; estava a sacudir a poeira do retrato de papai, e comecei a pensar... foi uma loucura... se ele... morresse?
Estela repreendeu-a com uma interjeição; Iaiá quis continuar, mas a outra interrompeu-a impetuosamente:
— Cala-te, disse; não penses em tolices. Dá cá o retrato.
— Não é verdade que ele é o melhor dos homens? perguntou Iaiá, enquanto Estela pendurava o retrato. A única resposta da madrasta foi caminhar para ela e dizer-lhe que nunca mais pensasse em semelhante cousa.
— Não sou senhora dos meus pensamentos, respondeu a moça, erguendo os ombros. Após alguns segundos de silêncio, Estela percebeu que alguma cousa preocupava a enteada, e disse-lho. Iaiá respondeu negativamente. Mas Estela insistiu:
— Não tens o teu ar do costume, e esses olhos andam vagamente de um lado para outro. Talvez... quem sabe…
— Não é isso que a senhora pensa, interrompeu Iaiá secamente.
Depois sentou-se, a olhar para o jardim, e a morder o lábio, que lhe tremia, e a comprimir os seios com a mão. Estela ficou um instante calada; enfim sacudiu benevolamente a cabeça e aproximou-se da menina. — Tu não tens confiança em mim, Iaiá, disse ela pousando-lhe a mão no ombro. Se tivesses, dizias-me em que é que pensas, porque é decerto em alguma cousa. Não é difícil deixar de pensar no Procópio Dias; acho até que é a cousa mais fácil; mas não será algum pensamento da mesma natureza? Anda; sê franca; sou apenas tua madrasta, e pouco mais velha que tu; posso ouvir tuas confidências e aconselhar-te. Onde acharás melhor amiga do que eu? Iaiá tinha aplacado a primeira sensação; afivelou de todo a máscara da tranqüilidade, enquanto não a substituía por outra. Ergueu-se e disse com afoiteza:
— Pois bem, vou confiar-lhe uma cousa... não... suponha... é melhor supor... tenho vergonha de dizer a verdade. Suponha que tive um amor de colégio...
— Tu? Aos treze anos!
— Aos doze e meio.
— Bonito! Não foi começar tarde. Esse amor naturalmente expirou nos braços da última boneca.
— Suponha que não, disse Iaiá em tom sério. Ora, se eu tiver de casar com o Procópio Dias…
— Quem te fala em casar com ele?
— Por ora é um gracejo; mas, se ele teimar, é possível que nem a senhora nem papai o desamparem, e ainda mais possível que eu me deixe vencer para contentar a todos. Mas é este o ponto de minha confidência; é uma idéia que me persegue há dias. Devo eu casar com um homem amando a outro? posso fazê-lo? devo fazê-lo? Estela estremeceu levemente, sob o olhar impassível e puro da enteada, e não respondeu logo. Iaiá parecia folgar com esse enleio de um minuto; mas ao mesmo tempo o coração lhe sangrava, porque o enleio era a confirmação de suas recentes suposições. A madrasta não tinha a penetração da enteada; além disso, como supor nela o conhecimento de um fato remoto e não divulgado? Estela nem cogitou nisso. Escoou-se o minuto, e ela respondeu com tranqüilidade:
— Não deves casar, se o amor pode ser satisfeito sem obstáculo. No caso contrário, o casamento é uma simples escolha da razão: sacrifica-te.
Iaiá, que tinha uma das mãos da madrasta entre as suas, largou-a subitamente. Estela riu, e bateu-lhe na testa com a ponta do dedo.
— Esta cabecinha! disse ela. Há aqui dentro muita cousa que é preciso capinar...
No primeiro instante, Iaiá empalideceu. Ao último gesto de Estela, respondeu com um sorriso forçado e sem cor. Logo que esta saiu, deixou-se cair na cadeira e fechou o rosto nas mãos. Quando dali saiu, meia hora depois, não trazia nenhum sinal de lágrimas, ou sequer de tristeza. Não vinha alegre, decerto; serena, sim, daquela serenidade com que o caçador do sertão se dispõe a encarar a onça.
Jorge foi jantar, e sobre a tarde apareceu Procópio Dias. Durante o jantar e a noite, Iaiá fez impressão na família e nos estranhos, pela singular alteração de seus modos. Estava um pouco pálida, mas a viva luz dos olhos parecia comunicar ao rosto uma porção do colorido ausente. Mostrou-se expansiva, e não galhofeira. Suas frases eram longas, deduzidas, iam até o fim do pensamento, sem as interrupções e saltos do costume. De costume, parecia que a moça pensava aos fragmentos, porque era quase impossível ter com ela uma conversa inteiriça e ordenada com a sua variedade própria. Naquele dia era o contrário. Como que a alma despira a roupa de bailarina, para enfiar um roupão caseiro, simples, apertado, subido até o pescoço. Era melhor assim? era pior? Nem uma nem outra cousa; era uma aparência nova.
(continua...)
ASSIS, Machado de. Iaiá Garcia. Rio de Janeiro: B. L. Garnier, 1878.