Por Joaquim Manuel de Macedo (1848)
Cândido não pôde conter um grito de surpresa.
CAPÍTULO XIII
O VELHO
MAS ANTES de acompanharmos os habitantes do “Céu cor-de-rosa” em sua visita ao “Purgatório-trigueiro”, justo é relatar uma cena ocorrida na mesma tarde, e talvez ao mesmo tempo em que sucedia a que acabamos de referir. Era a hora da sesta.
Pouco mais ou menos como acontecera a Cândido, que viu mostrar-se além da porta do seu velho sótão uma cabeça branca e dois olhos verdes, assim também Celina, que na hora da sesta se achava sentada junto do seu piano e começava a deleitar-se no estudo de suas músicas, viu aparecer uma cabeça branca e brilhar o olhar malicioso do velho guarda-portão.
Mas é verdade que ainda não se tem idéia nem se fez conhecimento com o velho guarda-portão.
Também poucas palavras serão de sobejo para que se faça uma idéia perfeita desse personagem.
A índole humana e piedosa de Anacleto, tinha dois ou três meses antes do começo desta história, chamado para o “Céu cor-de-rosa” um homem pobre e velho; e para que menos pesasse a este o benefício que recebia, Anacleto o envolveu sob a capa de um emprego, que em sua casa lhe dava. O velho Rodrigues foi pois ali reconhecido como – guarda-portão, – e estabelecendo o seu quartel-general no alpendre do “Céu cor-de-rosa”, via amanhecer e anoitecer em completa inação.
O guarda-portão da casa de Anacleto era portanto um criado sem exercício, uma praça-morta pouco mais ou menos. Passava os dias retirado em um dos ângulos do alpendre, e só às noites, em que claro luar e doce frescor de aragem sucediam a algum calmoso dia, deixava o pobre homem seu eterno posto por algumas horas, e sentando-se à porta do alpendre, cantarolava por entre os dentes algumas antigas baladas.
Era o velho Rodrigues um homem de cerca de sessenta anos, alto e de formas musculares; tinha os olhos pequenos, mas espertos, e o nariz aquilino. Os cabelos, que estavam já muito brancos, deviam ter sido de cor castanho escuros no tempo da mocidade, e corredios como eram, desciam então até quase encontrar-se com as sobrancelhas, que se mostravam espessas e cerradas; de ordinário apresentava-se este homem vestido de calças de brim escuro sem presilhas, e com bolsos aos lados de jaqueta do mesmo pano, e algumas vazes com um quimono de baeta preta sobre esta.
E, ou porque o velho Rodrigues fosse homem de poucas conversas, e dificilmente acessível para certa qualidade de gente, ou porque muitos notassem no seu hábito de resguardar-se de dia em um canto do alpendre e de só aparecer em algumas noites à porta deste, assentaram os garotos das circunvizinhanças de chamá-lo por acinte – o Coruja; – de modo que, quando em suas noites de escolha o velho se mostrava, e começava de cantar suas antigas baladas, era às vezes interrompido pelos gritos de – Coruja! coruja! – que lhe soavam ora de um, ora de outro lado da rua, acompanhados de risotas e motejos.
Mas tão pouco se dava disso o guarda-portão, que começava e concluía sem se interromper um velho solau, passava por uma balada, depois para outra e outra, até não poder mais de cansado, enquanto os garotos riam-se desmedidamente daquelas desusadas cantigas.
Pelo mesmo tempo, porém, em que começou esta história, sofreram também os hábitos do velho Rodrigues uma pequena modificação. Foi ela devida ao amor que dedicava à música.
Era costume do velho Anacleto e de sua filha sestear algum tempo depois do jantar; e a “Bela Órfã”, então mais que nunca em liberdade, ia sentar-se ao piano e estudar suas músicas. Em uma dessas horas de estudo, a moça, sentindo ruído e olhando para a porta, viu a cabeça branca do velho Rodrigues, que a escutava.
– Que faz aí, sr. Rodrigues? perguntou ela docemente.
– Escuto, respondeu o velho.
– Pois então é melhor ouvir de perto; entre.
O velho abriu a porta e entrou.
– Sente-se.
Rodrigues sentou-se junto do piano.
– Gosta de música? perguntou a moça.
– Oh! muito! muito!
– Sim: é verdade... também eu lhe tenho ouvido cantar à porta do alpendre.
– Que cantar! que canto eu?... cantigas tão velhas como eu, ou de- certo mais velhas ainda; que as aprendi no colo de minha mãe quando ela me fazia adormecer ouvindo-as.
– E que, portanto, devem ser bem caras ao seu coração.
– Decerto; mas só ao meu coração.
– Também não é assim, sr. Rodrigues, porque, pelo menos eu, tenho muitas vezes ficado esquecidamente à janela, ouvindo suas cantigas melancólicas e ternas.
– Está zombando de mim, senhora?
– Oh não! não! e tanto que lhe proponho o ensinar-me algum de seus velhos romances.
– Hoje ninguém mais gosta disso.
– Gosto eu, e lhe peço que nos ensine.
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. Os Dois Amores. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2158 . Acesso em: 6 jan. 2026.