Por Joaquim Manuel de Macedo (1845)
O cabeleireiro não fez o menor movimento; tinha com efeito beijado duas ou três vezes alguns anéis das belas madeixas de Honorina; mas, conhecendo que ela se ofendia com isso, continuou a penteá-la, sempre sem dizer palavra.
— Porém, mãe Lúcia, não é isto ousadia demais?...
— Provavelmente ele não quis ofendê-la com tal ação; se a senhora visse como o rosto do pobre homem está exprimindo dor tão pungente...
— Está bem, mãe Lúcia, não lhe digamos nada; coitado! é um estrangeiro, que ignora os nossos costumes. Eu creio que ele não sabe uma palavra do português: ainda não disse nada.
— Eu também penso do mesmo modo, disse Lúcia, mas vamos à conclusão da história. — Sim, continuou Honorina; eu corri para minha mãe, e contei assustada o que acabava de acontecer-me, assegurando que a boneca era encantada; minha mãe, contrafazendo-se para não se rir, disse-me que sabia um segredo para destruir o encanto da boneca, e depois de me ouvir instar muito para que mo dissesse, depois de me ver beijá-la e abraçá-la mil vezes, ensinou-me que fosse outra vez ao quarto e que, subindo na cadeira, cantasse defronte da boneca a minha cantiga; eu olhei para minha mãe, como quem duvidava; mas tanto ela insistiu e me assegurou que com isso seria destruído o encanto, tantas vezes me repetiu as mesmas palavras, que acabei por acreditar e entrei de novo, posto que menos apressada, no quarto de meu primo.
— E então?...
— Entre a dúvida e a esperança coloquei-me defronte da boneca e comecei a cantar tremendo...
“Eu a vi fazer um movimento para mim...
“Quase que soltei um grito... pouco depois, já mais animada continuei... cantei o segundo verso...
“A boneca aproximou-se algumas polegadas do meu lado...
“O meu espanto só podia ser igualado pelo meu prazer; apesar da comoção que sentia, cantei ainda... cantei sempre... cantei até ao fim...
“E a boneca ainda se veio chegando... sempre mais... sempre mais... até que ao terminar a minha cantiga, estendi os braços e prendi-a entre as minhas mãos. Então eu pude ver que alguns arames sustinham a boneca em pé, e que diversos cordões, que se perdiam por baixo da mesa tinham servido, não sei como, para fazê-la mover-se em diferentes sentidos; desatei esses cordões, livrei a minha boneca dos arames, e abraçada com ela ia saltar da cadeira, quando caí nos braços de meu primo, que me cobriu de beijos... oh! mãe Lúcia! todo aquele encanto de arames e cordões era ele que tinha ideado... ele não tinha prima bonita... a boneca tinha sido comprada de propósito para mim.
— E depois?...
— Nós fizemos as pazes, e eu lhe cantava todos os dias a minha cantiga... Ai!... oh!... mãe Lúcia, este homem me cortou uma porção de cabelos!...
— Senhor! exclamou Lúcia.
— Senhor! disse a moça fazendo-se cor de nácar, saiba que eu amo muito os meus cabelos para consentir que eles sejam assim cortados contra minha vontade! Mãe Lúcia, onde está meu pai?...
— Ainda não veio, senhora.
— Pois devo eu estar sofrendo as loucuras deste homem?... eu juro que ele não é cabeleireiro... ainda tenho os cabelos soltos!... oh!... será possível que Raquel me mandasse cá semelhante homem para me pentear?...
O cabeleireiro, sempre silencioso e parecendo não compreender coisa alguma do que a moça estava dizendo, depois de guardar furtivamente no bolso da sua casaca ou sobrecasaca um belo anel de madeixa, ia continuar, quando Honorina se levantou; a moça estava rubra de despeito.
— Senhor, quero saber se me quer pentear ou não?... se quer, já o podia ter feito, se o não sabe fazer, deixe-nos.
Nada mais encantador do que a figura graciosa de Honorina: com uma mão pousada sobre o encosto da cadeira, em que estivera assentada, com os seus cabelos caídos até à altura dos joelhos, com as faces fortemente enrubescidas, ela encarava com olhos de despeito o homem que se atrevera a cortar-lhe um anel das suas belas madeixas.
O insolente cabeleireiro a princípio pareceu comovido por tantos encantos; depois, sempre sem dizer palavra, tomou o chapéu, cortejou as duas senhoras e foi saindo sem cerimônia alguma, e sem mesmo cuidar em apanhar um papel, que do seio lhe caiu.
— Então ele se vai, mãe Lúcia?...
— Parece que sim...
— Será crível!... que homem é este?...
— Olhe, Sr.ª D. Honorina, ele deixou cair um papel... vejamos.
— Dá-mo.
— Ei-lo.
Honorina abriu o papel e soltou um grito.
— Que é isto? perguntou Lúcia.
— É ele, mãe Lúcia, é ele!...
— Ele quem?... ele quem?... diga!...
— O desconhecido que jurou amar-me! o desconhecido de quem te falei!...
— Meu Deus!... e o que diz ele?...
— Ouve, respondeu Honorina, lendo o que estava escrito naquele papel: “Honorina!... perdoa, se te roubei um anel de madeixas, mas eu te amo! eu te amo com esse amor de poeta, com esse amor de fogo, que ainda quando acaba na desgraça e na morte, contanto que seja sempre o mesmo amor, é por força bem belo!...”
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. O moço loiro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2107 . Acesso em: 6 jan. 2026.