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#Romances#Literatura Portuguesa

Os Brilhantes do Brasileiro

Por Camilo Castelo Branco (1869)

Em fins de 1848 perfazia dois anos e meio que Francisco José da Costa demorava no Rio, gozando os proventos de seus muitos trabalhos e créditos. As remessas de dinheiro feitas à irmã denunciavam o propósito de voltar proximamente à pátria. Uma instante recomendação fazia ele: era a compra da casinha de Viana, que Francisco ainda via luzente e doirada das ilusões de sua mocidade. Talvez que ali vá acabar os meus dias – escrevia ele. – Tenho posses para mais; no entanto, as minhas esperanças não vão mais longe; e as tuas, pobre Joana, são ver-me resignado na tristeza.

Era, pois, em novembro de 1848.

O doutor Costa, como no Rio o honorificavam, foi chamado para visitar um enfermo já seu conhecido e de muita consideração.

Era Hermenegildo Fialho de Barrosas – o roliço devasso que ele não tornara a ver desde o almoço de Petrópolis. Encontrou-o doente do fígado: desconfiou da enfermidade naquele clima, e no afogo do verão.

O acerto do tratamento desfez os mais graves sintomas: receava, não obstante, o facultativo que o doente recaísse por demasias de gulodice em que a enfermeira se mostrava complacente amiga, e lambaz quinheira.

Hermenegildo não dispensava duas visita diárias, pagando-as com generosidade, porque, dizia ele:

― Sou muito rico, conto mais de duzentos contos, não tenho herdeiros. Tinha uma irmã, que já morreu há três meses, com paixão de me ver sair de Portugal para nunca mais. Não poupe o meu dinheiro, Sr. Costa; e de cada vez que vier conte com uma nota de cem mil réis. O que eu quero é saúde para gastar o que tenho; que já não sou capaz disso.

― Então vossa senhoria não teve filhos de sua senhora? – perguntou o doutor.

― Nada, não tive, nem tenho de ninguém. Não sou de casta.

― Mas sua senhora, se não houve divórcio nem escritura especial, deve partilhar da sua herança, penso eu.

― Isso é cá uma história que eu contarei ao meu amigo doutor Costa. Minha mulher... minha ou lá do diabo de quem é, não há de receber uma pataca, se eu for adiante dela. Quando me apartei, desfiz-me de tudo; isto é, dispus a minha fortuna de jeito e com tais artes que ela não acha coisa a que deite as unhas.

― E tem ela recursos de que viva, depois que vossa senhoria a deixou?

― Não sei, nem quero saber. Dizem que o pai é rico; mas ele faz tanto caso dela como eu.

― Desculpe-me fazer-lhe uma pergunta...

― Pergunte o que quiser; que eu já não me importa falar nisto. Deitei o coração ao largo, e, como o outro que diz, leve o diabo paixões e mais quem com elas medra. Gosto do cavaco. Que queria o Sr. doutor saber?

― Se teve razões para privar inteiramente de recursos sua senhora. Às vezes acontece um homem, na sua posição de atraiçoado pela esposa, cavar mais fundos abismos à sua honra, atirando a culpada ao meio da sociedade, como que diz: “Aí vai uma mulher que eu podia salvar da extrema miséria... Levem-na à última paragem do vício!”

― Não que eu quis salvá-la – acudiu o doente – mas ela não quis. Dava-lhe que comer num convento, e a doida saiu pela porta fora, descompondo os meus amigos.

― E foi viver com o amante, ou esse mesmo a abandonou?

― Isso não sei. Eu o amante não lho conheci, nem sei quem fosse.

― Não sabe?! Então com que provas se julgou traído?... Desculpe...

― As provas foi ela gastar dinheiro grosso sem dizer no quê: disse que o dera, e acabou-se. Pois a quem dava ela o dinheiro?

― Era velha sua mulher?

― Nada: era uma rapariga bonita, bonita duma vez. Não tinha de seu; apaixonei-me pelo palmo da cara, e casei. Vossa senhoria, que é do Porto, nunca ouviu nomear um general chamado Noronha?

― Noronha?! – exclamou Francisco José da Costa, cravando os olhos pávidos no brasileiro.

― Sim, um general Noronha, que vivia em Ponte do Lima... Minha mulher era filha dele... ― Como se chama essa senhora? – interrompeu o facultativo respirando dificilmente.

― Ângela.

Francisco Costa, espaço de três minutos, ficou num espasmo e torpor de pensamento e ação. Aos olhos do brasileiro aquele ar espantado significava estar o doutor recordando-se de ter conhecido o general ou a filha.

― Talvez que o Sr. doutor visse alguma vez minha mulher no Porto... – prosseguiu Hermenegildo. – Eu morava na Rua do Bispo, numa casa de azulejo de quatro andares... Vossa senhoria está incomodado? – disse o doente, notando extraordinária mudança no rosto do médico. – Parece que está a enfiar!...

― Não, senhor. Estou bom... estava a ouvi-lo, e a lembrar-me... que não me é estranho o nome do general e da filha... Donde era sua senhora?

― De Viana, cuido eu.

― Mas eu tinha ouvido contar que uma filha do general Noronha casara na província do Minho...

― Foi comigo; eu estava então na minha quinta dos Choupos. Lá é que foi dar a tal senhora porque era amiga de minha irmã, que tinha estado no mesmo convento com ela, e eu fiz a grande burricada de casar, sem pedir informações a ninguém.

― E depois mudaram para o Porto? Em que ano?

― Em 1840.

― E foi no Porto que o Sr. Fialho teve razões para suspeitar da lealdade de sua senhora?

― Sim, senhor.

― Mas já me disse que não conhecia o amante, nem tinha a certeza de que ela o tivesse...

(continua...)

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