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#Romances#Literatura Brasileira

Numa e a Ninfa

Por Lima Barreto (1911)

— Quem ama alguém?... Aquele que estás vendo sempre disposto a submeter-se. Muda de donos, mas se submete... — observou o deputado Barbosa, que se aproximava.

Numa não insistiu com o colega de bancada. Ele o sabia mordaz na familiaridade, fácil em aguçadas ironias e encarniçado no cinismo resignado. Fora eleito porque, tendo publicado um trabalho histórico de valor, Neves quisera mostrar que a sua oligarquia sabia aproveitar os talentos humildes. Era líder da bancada, em que havia um tio de Cogominho, um cunhado, ele, Numa, genro, e outros que não eram propriamente parentes. Barbosa eleito, julgou que o melhor meio de manter a posição era apagar-se completamente e assim o fez.

Numa afastou-se e procurou outras rodas.

A manifestação não chegava e aquela gente fina ansiava pela sua chegada e a sua dissolução, para que ficassem à vontade, longe da presença daqueles vagabundos que deviam compô-la.

Quando Numa se aproximou de Xandu, esse dizia a Bogoloff:

— Meu caro Doutor, se eu for ministro, creia que hei de aproveitá-lo convenientemente. A República precisa de sangue novo. Veja só os Estados Unidos... Não acha, Dr. Numa. — Perfeitamente.

Costale, o Xandu — como era conhecido entre os políticos — julgava-se ianque e isto por dois motivos: por falar muito depressa e usar o bigode raspado, moda que pode ser romana ou napoleônica.

Desde muito que o casarão do velho Gomes não era aberto assim de par em par e não recebia tanta gente. Neves sempre fora parco em recepções e não gostava das grandes, em que uma multidão se move em suas salas, quase sempre de desconhecidos. Sua tia, D. Romana, gostava desse aspecto da vida familiar e tinha a simplicidade roceira de receber quem quer que fosse prazenteiramente.

A sua velhice adiantada, porém, fizera espaçar aos poucos os grandes bailes do poderoso político; ficaram raros, até mesmo quase suprimidos depois do casamento de Numa.

A velha D. Romana, com a volta naquele dia, do esplendor da antiga morada, remoçou, tornou-se ativa e não cessava de ir de uma sala para outra, perscrutando os desejos dos convidados. A neta conversava com algumas amigas, sem deixar o lugar que ocupara logo em começo. Procurava sopitar a impaciência com que esperava a chegada dos manifestantes, mas D. Celeste adivinhara-a e observou:

— É mesmo uma maçada, minha filha. A política — que coisa! Você deve ter gasto muito!

— Alguma coisa!

— Eu é que não queria receber dessas manifestações - dão no bolso! Todo o mundo quer ser político. É porque não sabem quanto custa.

Mme. Costale, esposa do Xandu, aventou por aí:

— Tudo é assim, D. Celeste: visto de fora é muito fácil, mas cá do lado de dentro é que são elas... Xandu, só em “facadas” gastou o ano passado um terço do subsídio... Pensam que os políticos ganham muito, mas é um engano.

— Ganham alguma coisa — disse D. Celeste — mas gastam muito. E as manifestações?

— Cada profissão — disse Mme. Forfaible, — tem os seus espinhos e não são só os políticos que ganham pouco. Meu marido...

— Sim — disse Mme. Costable — seu marido não tem que lidar com tanta gente.

— É o que me aborrece! — disse D. Celeste. — Que caras! Não sou nenhuma rainha, mas suportar gente tão mal vestida... Qual! É demais!

— Edgarda — disse Mme. Forfaible — é que não se aborrece.

— Eu — acudiu a mulher de Numa — não os aborreço, nem os estimo; suporto-os e os acho necessários.

— Pois olha, Edgarda — fez a esposa de Xandu, — se eu pudesse...

— Que é que fazia? — perguntou Mme. Forfaible.

— Mandava tudo para o Acre.

— E quem elegia o marido de você? — indagou, sorrindo, Edgarda.

— Quem?

— Isso não é preciso — disse Mme. Forfaible. — Deviam ser nomeados. Os generais não são?

— Mas os generais — refletiu Edgarda, não são representantes da Nação.



(continua...)

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