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#Romances#Literatura Brasileira

O Coruja

Por Aluísio Azevedo (1895)

A sua primeira comunicação foi a respeito da hipoteca da fazenda, o que, em completa ignorância de Teobaldo, se realizara havia mais de dois anos. Levara-o a dar semelhante passo a esperança de poder à custa de certas especulações recuperar os bens perdidos e desembaraçar-se das dificuldades em que se via; mas, por desgraça, tudo falhou, e o que ele supunha uma tábua de Salvamento não foi mais do que a mortalha das suas ilusões. E desde então a roda da fortuna, como se recebera um grande impulso, começou a desandar freneticamente; quanto mais enérgicos eram os esforços e tentativas que ele fazia para suster a sua queda, tanto mais vertiginosa ela se tornava; a sorte, afinal, já não tendo do que lançar mão para lhe quebrar a coragem, arrebatou-lhe a última força que lhe restava, a esposa; e tão certeiro fora este último golpe, que o desgraçado sucumbiu de todo, para nunca mais se erguer.

- Dentro em pouco tempo, disse ele, tenho de entregar tudo aos credores; só nos restarãoalguns contos de réis que se acham espalhados por aí nas mãos de vários amigos; ficame, porém, a consolação de que em toda esta desgraça não cometi uma única baixeza; podia ter enganado os meus credores e assegurar-te, a ti, um futuro mais auspicioso; não quis todavia e não me arrependo disso! Creio que farias o mesmo no meu lugar...

- Honro-me de poder afiançar que sim! respondeu Teobaldo com tal firmeza, que o pai lhe estendeu a mão exclamando:

- Obrigado, meu filho!

* * *

Emílio demorou-se na corte apenas dois dias mais; Teobaldo acompanhou-o até ao Porto da Estrela e voltou para o hotel muito impressionado e tolhido de estranhos pressentimentos.

Coruja vinha ao seu lado, caminhando de cabeça baixa, o ar concentrado e mudo de quem procura a solução de um problema.

O amigo acabava de lhe confiar tudo o que ouvira do pai.

- Que achas tu que eu devo fazer?... perguntava-lhe.

André respondeu depois de um silencio:

- Em primeiro lugar deves sair daquele hotel; é muito dispendioso e, uma vez que estás pobre, precisas fazer economias...

- Tens razão, replicou o outro, mas para onde irei morar? Bem sabes que nunca me vi nestes apuros...

- Eu me encarrego de arranjar a casa. Queres tu morar outra vez comigo?

- Não poderia desejar melhor... Mas, e o colégio!...

- Dá-se-lhe um jeito. O colégio não precisa de mim à noite; é bastante que eu me apresente lá às seis horas da manhã.

- Quanto és meu amigo...

- Pudera!...

E os dois separaram-se daí há pouco concordes na mudança.

Teobaldo correu então à casa do seu correspondente.

- Espere! disse-lhe o Sampaio com mau humor; .aquele mesmo Sampaio que dantes se mostrava tão atencioso com ele.

Teobaldo estranhou a grosseria do tratamento, mas teve ainda a generosidade de não acreditar que ela fosse já uma conseqüência de ruína de seu pai.

- Venho saber se... ia ele a dizer, quando o outro repetiu ainda mais forte:

- Espere!

O filho do barão mordeu os beiços e não retrucou, até que, meia hora depois, o negociante se dignou enfim de prestar-lhe atenção.

- Disse meu pai que eu tenho aqui algum dinheiro a receber. Quero saber quanto é.- São quinhentos mil réis, e é o resto. Depois disso nada mais tenho a lhe dar; terminaram os negócios de pai com esta casa.

- Já sei.

- O senhor pode receber a quantia de uma só vez ou por partes, como quiser...

- Quero-a toda.

- Lembra-se de que é o resto... Despache-me.

- Mas por que não deixa alguma coisa de reserva? Porque não quero de novo aturar as suas grosserias.

- Obrigado. Vai ser servido.

- Mas ande com isso!

- Espere, se quiser.

À noite, Teobaldo depositava em poder do Coruja os últimos quinhentos mil réis.

- É o que resta, disse ele; guarda-os tu, que sempre tens mais juízo do que eu.

André obedeceu, e a mudança efetuou-se no dia seguinte.

Foram ocupar duas salas de uma casa de cômodos.

O Coruja escolheu logo a pior para si, dizendo ao entregar a outra ao amigo:

- Agora é preciso começar vida nova... Tens belos recursos e ainda estás muito em tempode fazeres de ti o que lhes quiseres..

- Ah! decerto! respondeu Teobaldo, sempre com a mesma confiança na sua pessoa. Éimpossível que eu não encontre meios de ganhar a vida!

- Sim, mas convém não te descuidares.

- Não descansarei.

- E os teus estudos?

- Sei cá! Julgo que o melhor é deixar-me disso! Não tenho fé com as academias!

- Não sei se farás bem...

- Mas não vejo em ti mesmo um exemplo palpitante?...

- O meu caso é muito diverso; sou de poucas aspirações, não desejo ser mais do que um simples professor; tu, porém, tens direito a muito, e aqui em nossa terra a carta de doutor é a chave de todas as portas das boas posições sociais.

- Havemos de ver. Não posso agora pensar nisso, tenho a cabeça fora do lugar...

Pouco tempo depois, quando eles ainda estavam inteiramente possuídos pelo golpe que acabavam de sofrer com a morte de Santa, apareceu-lhes em casa, banhado de lágrimas, o velho Caetano, o fiel criado do Barão do Palmar.

Teobaldo estremecera com um pressentimento horrível e levou as mãos à cabeça, como para não ouvir o que seu coração já adivinhava.

E depois, voltando-se rapidamente:

- Fala!

(continua...)

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