Por Aluísio Azevedo (1891)
— Produto sem duvida de um profundo abalo nervoso. Vou tratar dele. Hei de curá-lo e estudar o caso, que me parece muito bonito. O que me convém saber é qual era o seu estado patológico antes desta crise, e qual o valor dos agentes estranhos que poderiam ter contribuído para ela. Como sabem, a nossa ciência neste ponto ainda está muito atrasada em toda a Europa. Quase nada se conhece desse grande mundo, extraordinário, fantástico, impalpável, quase incompreensível; esse mundo de fenômenos psíquicos fornecido pelas afeções nervosas! Basta dizer-lhes que entre nós a histeria é ainda um mistério; a sugestão magnética é um divertimento!! as suas singularíssimas manifestações escapam ao médico e são exploradas pelo clero, que as explica como obra do diabo e receita para todos os casos os milagres de Saint-Médard! Estamos mais atrasados que nas épocas empíricas de Platão; mas, tempo virá, meus amigos, em que esta mesma França, ignorante de hoje, há de dar sobre este assunto as mais belas lições de ciência. O futuro vingará minha obra, tão ferozmente amaldiçoada pela Sorbona e pelo Parlamento! Juro-lhos que a histeria, com todo o seu carnavalesco e brilhante cortejo de loucuras, não será um mistério no século XIX!
— E quanto tempo levará este homem sem dar acordo de si?... quis saber
Artur.
— Não sei... respondeu Cobalt. Ainda não posso dizer ao certo, se o que ele tem é uma crise cataléptica, ou se caiu em letargia histérica. Se for catalepsia, pode a síncope durar pouco e pode também durar muito; pode durar apenas algumas horas, como igualmente pode durar meses...
— Meses?...
— Pois não! Há casos observados de prostração cataléptica, que duram mais de cem dias... Espere! Vou fazer uma experiência...
E foi buscar um frasquinho de éter, que levou ao nariz de Ângelo. Este conservou-se imóvel.
— Não! não pode ser simples catalepsia... declarou o médico. Com a ação do éter, os catalépticos põem-se em movimento e reproduzem inconscientemente, por mímica, a cena que lhes determinou a crise.
— Então é letargia?... disse o outro.
— Creio que sim... E, se for... Oh! os senhores não imaginam que sonhos extravagantes, que visões, que fantasias, pode ele experimentar durante esse estado!... Foi isso o que no outro tempo levou muita gente à fogueira; tais cousas viam os histéricos nos seus delírios e tais cousas juraram ter presenciado, que os santos padres resolviam queimá-los, convencidos de que os infelizes eram feiticeiros ou tinham o diabo no corpo. E, mesmo agora, todas essas convulsionárias, que infestam Paris, protegidas pelos jansenistas, e que pretendem cair às vezes em estado de inspiração divina, para conversarem com os espíritos e outros seres sobrenaturais, o que mais são do que histéricas sinceras ou fingidas?...
Pobre moço!... lamentou Bouvier, considerando a pálida figura de Ângelo estatelada sobre o divã. Aí está em que deu tanta pureza de corpo e alma!...
— Agora o que convém, tornou o médico, é afastá-lo daqui, e proibir que lhe falem no ocorrido. A presença daquele cadáver agravaria o seu estado e poderia ser-lhe fatal. É preciso poupar-lhe esse perigo. O melhor será que desperte da letargia já em casa, deitado no seu próprio leito; e, como já não sou necessário neste lugar, encarrego-me de acompanhá-lo a Monteli. Ficam os senhores para tratar do enterro.
— Mas, doutor, observou o conde, permita que lhe lembre que a noite está horrível e que o padre Ângelo, se me não engano, não mora tão perto!
— Não importa! sei onde é... Levo-o na minha carruagem. Os cavalos são bons e o cocheiro conhece bem o caminho! Daqui a pouco estarei lá.
— Como quiser... Uma vez que se interesse tanto pelo padre Ângelo...
— Não é o homem que me interessa, declarou o médico, enfiando o seu longo capote de jornada; é o doente. O conde não ignora que eu tenciono apresentar ainda este ano à Academia umas memórias a respeito de certas enfermidades nervosas, que não foram estudadas em França... Preciso deste enfermo como de pão para a boca!
E foi chamar os criados, e ordenou-lhes que levassem Ângelo para o seu carro, o que ele mesmo ajudou a fazer, com uma solicitude de namorado a raptar a amada desfalecida.
— Cuidado, hein! gritou ele a Amílcar, quando o negro se apoderou do pároco. Adeus, conde! Adeus, Bouvier!
E saiu, acompanhando de perto o seu tesouro.
Durante a viagem não tirou a mão do pulso do histérico e, por várias vezes, debruçou-se sobre ele, auscultando-lhe o peito.
Continuava a letargia.
Salomé, quando viu seu amo entrar em casa carregado a braço por dois homens, levou as mãos à cabeça, e desandou numa terrível imprecação, contra todos os que tinham contribuído para fazê-lo sair àquela noite, fora de horas e por um temporal de morte.
— Malditos sejam! exclamou ela; que me obrigaram o pobre homem a cometer tamanha loucura! Agora, está aí! Vejam como ele volta! Que digam se eu tinha ou não tinha razão!
O médico tapou-lhe a boca com uma moeda de ouro, enquanto depunham o desfalecido no quarto, sobre o leito.
— Tome lá para o seu rapé... disse aquele, e não precisa afligir-se, tiazinha! O pároco não está abandonado, nem corre o menor perigo. Sou médico e não o deixarei enquanto ele precisar dos meus socorros. Apenas desejo que a senhora me ajude naquilo que for preciso...
— Estou às suas ordens, senhor doutor...
— Bom! Pois então, em primeiro lagar, nada de gritaria, que isso só serve para fazer mal; em segundo: vai a senhora contar-me minuciosamente como tem vivido aqui, até hoje, o nosso vigário, o que tem feito ele, e quais os incômodos que tem sofrido.
E Cobalt, enquanto ela dava conta da existência de Ângelo, escutava-a com os olhos fitos no chão, e só a interrompia para lhe pedir novos esclarecimentos sobre algum ponto que não ficara logo bem explicado.
(continua...)
AZEVEDO, Aluísio. A mortalha de Alzira. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16527 . Acesso em: 9 mar. 2026.