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#Romances#Literatura Brasileira

A Condessa Vésper

Por Aluísio Azevedo (1897)

Mas Gaspar, ao entrar no quarto do pai, estremeceu, assustado pela escuridão e pelo completo silêncio que ali reinavam. Acendeu uma vela e penetrou na alcova; estava vazio o leito.

Possuído de mil receios e cuidados, correu toda a casa. O coronel tinha desaparecido.

— Ah! Já sei! exclamou, sobressaltado por uma idéia. Meu pai foi à casa do comendador! Depressa Corramos a encontrá­lo!

E os dois lançaram­se para fora.

Na rua tomaram um carro e mandaram tocar à disparada para o Caminho Velho de Botafogo, que era onde Moscoso tinha a sua residência na cidade.

As janelas do palacete do comendador mostravam­se iluminadas. Defronte do portão do jardim havia urna enorme fila de carruagens.

O palacete estava em baile.

Enquanto Gaspar e Gabriel confidenciavam tristemente essa noite encerrados no gabinete do médico, fervia o prazer e reinava a alegria em casa do próspero comendador.

As suas salas, regurgitantes de convivas, fremiam ao som da orquestra e ao quente rumor das danças. Por todas elas palpitava o gozo; por todas elas riso, jogos, libações e amor.

Em breve a festa chegava ao seu momento de delírio, a esse momento apogístico do baile em que a alma parece derreter­se na saturação dos vapores do prazer, em que as luzes, os vinhos, os perfumes das toilettes e das flores, o ansioso respirar na vertigem da valsa, se vaporizam pelo ambiente, despertando os sentidos e entontecendo o espírito; instante feliz em que mais deliciosamente gemem os violinos, em que cintilam com mais luz os diamantes e os olhos das mulheres, e os colos arfam, e o corpo cede de todo à volúpia, e o sangue se embriaga e vem até aos lábios reclamando beijos.

— De repente, porém, uma voz rude e áspera, voz de batalha, retumbou pelas salas, bramindo:

Silêncio!

Todos pasmaram. A orquestra emudeceu e os pares estacaram tolhidos de surpresa.

Ao fundo do salão, no meio da inconsciência do prazer, assomara o vulto venerando do coronel.

Seu porte, alto e alquebrado, destacava­se imponente; o longo capote aumentava­lhe a estatura, dando­lhe proporções naturais. O gás mordia­lhe asperamente a aridez da fronte, que faiscava como a ponta calva de um rochedo aos raios do sol; os seus olhos fundos e ardentes, chispavam de cólera, os cabelos, brancos e assanhados, davam­lhe à cabeça um terrível aspecto de loucura.

Todos o olhavam com assombro. As mulheres empalideciam desmaiadas.

O coronel, espectral e imóvel, permanecia ao fundo do salão.

Ninguém se animava a proferir palavra.

O comendador acudiu em sobressalto; mas, ao dar com o veterano, soltou um grito e estacou petrificado defronte daquela fantástica e ameaçadora figura, que o fitava sem pestanejar.

— Eu sou o coronel Pinto Leite, vozeou o fantasma; e eis aí o autor das infames mofinas que há vinte anos me amarguram a existência! Esse miserável ex­caixeiro de taverna, covardemente me persegue desde o dia que lhe não consenti fazer parte de minha família, casando com uma de minhas filhas! Que aos dois nos julguem dentre vós os homens de bem! Quanto a mim, quero apenas apontar a hipocrisia deste monstro ao anátema social e estigmatizá­lo com o ferrete do meu ódio.

E o veterano caminhou para ele.

Era um estranho caminhar de estátuas. O chão parecia ir desabar debaixo dos seus pés de bronze. Caminhou majestosamente até à figura vulgar do comendador, que quedava estarrecido como sob o domínio de uma fascinação magnética, e soltou­lhe em cheio nas faces uma bofetada.

Houve então uma geral exclamação de protesto e de pasmo.

Moscoso voltou a si com o sangue que lhe subiu ao rosto e quis lançar­se contra o agressor, mas os amigos o agarraram e conduziram lá para dentro, consolando­o com a idéia de que ele tinha sido vitima de um louco.

O esbofeteado reclamava a prisão do insolente que o fora provocar no seu domicílio.

Mas não apareceu um braço que se erguesse contra a venerável figura do coronel. Abriram­lhe caminho. E, ao passar o seu vulto encanecido e todo trêmulo de comoção, abaixaram­se as frontes por um instintivo impulso de respeito.

Ele atravessou a sala com o passo firme e desapareceu.

Ao chegar à porta do jardim, parava na rua, urna carruagem, que vinha a toda desfilada.

Eram Gaspar e Gabriel saídos ao seu encontro.

Os dois apoderaram­se dele.

O velho, entretanto, sem poder dar uma palavra, encostou a cabeça no peito do filho, e soluçou desafrontadamente.

— Chore! chore, meu pai! Desabafe! dizia Gaspar.

E o velho soluçava.

— Sinto­me bem! exclamou este afinal. Sinto­me bem! Tirei um peso do coração! Desmascarei aquele canalha e dei­lhe uma bofetada! Ah, meus filhos! já posso morrer tranqüilo! Estou consolado!

Recolheram­se à casa. Contudo, o pobre homem não pregou olho senão pela manhã, tal era a sua excitação.

(continua...)

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