Por Visconde de Taunay (1872)
—Não sou nenhum criançola, senhor Pereira. Sei bem o que estou dizendo. Este remédio é segredo meu, muito forte, muito daninho; mas não é nem uma, nem duas vezes, que com ele tenho curado empalamados. A coisa está no modo de dar o leite e na quantidade: por isso, é que não faço mistério, avisando contudo que com uma porçãozinha mais do que o preciso, o doente está na cova...
—Salta! atalhou Pereira, tal mezinha não quero eu... antes ficar empalamado. —Que é jarracatia? tornou a perguntar Meyer.
Coelho abaixou a cabeça e parecia estar refletindo na resolução que havia de abraçar.
Depois, com voz melancólica:
—O dito, dito, declarou, aceito tudo o que vosmecê me der. Agora, quanto fizer está bem feito... Como é que devo tomar o jaracatiá??
—Em tempo lhe direi, replicou Cirino. Fazem-se três cortes no pé da árvore e deixa-se correr o primeiro leite: eu mesmo hei de recolher o que for bom. Tenha toda a confiança em que o senhor ficará são... Bem sabe, ninguém em negócio de doença, mais do que outro qualquer, pode nunca dizer: isto há de ser assim ou assado... Todos estamos nas mãos de Deus. Só Ele pode saber se a moléstia nos sairá do corpo ou nos há de atirar à sepultura. Todo o bom cristão conhece isto e deve conformar-se com a vontade divina... O que o médico faz é ajudar a natureza e dar a mão ao corpo quando ele pode ainda levantar-se...
—Justo, justo! apoiou Meyer, então todo empenhado em picar um formoso coleóptero.
—Assim também é que eu entendo, disse o mineiro.
—Mas, o que é jarracatiá, senhor Pereira? insistiu o alemão.
Voltou-se o interpelado com impaciência:
—E uma árvore, Sr Meyer, árvore grande, de folhas cortadas, que dá umas espécies de mamõezinhos. Deitam leite muito grosso e queimam os beiços quando a gente não tem cuidado. E uma árvore, ouviu? Uma árvore! —Ah! exclamou o alemão concertando a garganta.
Nesta ocasião sacou Cirino da canastra outros remédios e passou-os a Coelho, dando-lhe minuciosas informações sobre o modo por que havia de usar deles.
—Tem muito enjôo, quando come? perguntou o curandeiro.
—Muito, Senhor doutor.
—Assim é, mas deixe estar; depois do leite de jaracatiá, volta-lhe a apetência. Nos primeiros tempos, o senhor só há de beber claras de ovos bem batidas. Depois, ira a pouco e pouco tomando mais alimento. —Deus o onça...
Levantou-se Pereira e, chegando-se à porta, anunciou:
—Ai vem gente... Estou ouvindo passos de animal montado... Sem dúvida e algum pobre engorovinhado de doença. Isto de moléstias, não faltam no mundo. Também há tanta maldade, que não pudera ser por menos.
Depois de ligeira pausa, acrescentou em tom de surpresa e aborrecimento.
—Hi meu Deus!... Nossa Senhora nos socorra... Sabem quem vem
chegando?... É o Garcia; está com o mal! há mais de dois anos e não quer crer na desgraça... Pobre coitado, sem dúvida vem comprar o desengano... Tenho muita pena dessa gente... mas, deveras, não a quero ver em minha casa... Vamos, senhor doutor, despache o Garcia depressa. Com lázaros não se brinca. A Senhora Sant'Ana de tal nos livre! Nem olhar é bom.
E, Pereira, voltando-se para dentro, pediu apressadamente:
—Não deixe o homem desapear, doutor: ficava-me depois o desgosto de ter que lhe fazer alguma má-criação. Pelo amor de Deus vá lá fora... Veja o que ele quer... e dê-lhe boas tardes da nossa parte... Olhe, esta chamando... Sala, doutor, saia!
Ouvia-se, com efeito, uma voz perguntar se estava em casa o Senhor Pereira.
Este, vendo que Cirino não se apressava à medida dos seus desejos, ou temendo que o recém-chegado lhe entrasse na sala, sem demora apareceu à soleira da porta e, com manifesta sequidão, respondeu ao humilde cumprimento de chapéu e à meiga saudação que lhe era dirigida.
CAPÍTULO XVII
O MORFÉTICO
O leproso. — Interesse? Ah! nunca inspirei senão compaixão...
O militar — Quão feliz fora eu se pudesse dar-vos algum consolo!...
( Xavier de Maistre, O Leproso de Aosta).
Não devo ter sociedade senão comigo mesmo, nenhum amigo, senão Deus. Generoso estrangeiro, adeus, se feliz. Adeus para sempre!
(Idem).
A pessoa que chegara, bem que tivesse descavalgado, não se adiantou ao encontro do dono da casa. Pelo contrário como que recuou, conservando-se depois imóvel, encostado a um burrinho, cujas rédeas segurava.
De seu lugar, perguntou-lhe Pereira com expressão não muito prazenteiro:
—Então, como vai, senhor Garcia?
— Como hei de ir, respondeu o interpelado. Mal... ou melhor, como sempre.
—Pois esteja na certeza de que muito sinto.
—Está ai o cirurgião? indagou Garcia.
—Não tarda a vir vê-lo ai fora... Olhe, é um instantezinho.
Palavras tão cruéis não pareceram fazer mossa ao desgraçado.
(continua...)
TAUNAY, Visconde de. Inocência. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=17500 . Acesso em: 28 fev. 2026.