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#Romances#Literatura Brasileira

O Cabeleira

Por Franklin Távora (1876)

Cunha de Meneses, convicto da ineficácia dos seus esforços contra os quais se levantava, além da audácia e cinismo dos malfeitores, um tríplice embaraço que mais do que estes contrastava aqueles esforços — a falta de população, de tropas e de estradas — , embaraço que era favorecido indiretamente pela indiferença dos mais fortes, e diretamente pelo temor da maior parte dos moradores, renunciou ao empenho, que por muito tempo alimentou de reivindicar os foros da administração assim afrontados diária e ostensivamente pelos sobreditos malfeitores.

Com esta mudança de resolução coincidiu a sua promoção ao lugar de governador da Bahia. Em 31 de agosto de 1774 entregava ele a José César de Meneses, a quem já nos referimos, as rédeas do governo de Pernambuco, então, como ainda hoje, difíceis de sopesar.

José César teve de voltar a sua atenção para a guerra com a Espanha; e quatro meses depois de haver tomado conta do governo, fez partir para a Colônia do Sacramento, então novamente no poder dos espanhóis, bem como os fortes brasileiros de S. Miguel, Santa Teresa e S. Pedro do Rio Grande do Sul, um regimento de infantaria.

Em 1776 tinham seguido do Recife para aquela colônia cerca de 1100 pernambucanos.

A guerra seguiu-se a peste, e à peste a fome como vimos.

Quando se achava assim a braços com este tríplice flagelo, teve ciência de que diferentes ambulâncias que, em parte às custas do régio erário, e em parte às custas dos negociantes mais ricos da vila haviam sido expedidas por ordem sua para os pontos onde o mal se manifestava com maior intensidade, tinham caído nas mãos dos salteadores.

O governador mal pôde dominar a sua cólera, e na prática íntima com os que tinham muito lugar diante dele, declarou que daquele momento em diante o principal empenho do governo ficava sendo dar cabo dos criminosos que devastavam a província.

Desgraçadamente faleciam-lhe gente e dinheiro para pôr por obra este louvável empenho.

A terrível epidemia tinha desolado povoações inteiras.

A fome continuava a gerar os males que em toda parte são seus companheiros naturais e inevitáveis.

A seca devastava ainda o interior da província como chama que irrompe do seio da terra, e tudo abrasa e destrói.

Mas José César era ativo, enérgico, esforçado e de grandes espíritos. Confiava no poder da autoridade, e tinha por certo que havia de restaurar a tranqüilidade e a segurança privadas, e restabelecer o domínio das leis.

Enfim, depois de haver pensado com madureza sobre o grave assunto, deu ordem a seu secretário para que impedisse em seu nome aos capitães mores de Iguaraçu, Itamaracá, Várzea, S. Lourenço, Santo Antão, Tracunhaém, Nossa Senhora da Luz, Jaboatão, Muriboca, Cabo, Ipojuca e Serinhaém a circular seguinte: "Ordena o Sr. Governador e capitão general que, para um negócio que entende altamente com a paz pública, se ache vm. no dia oito do corrente mês, pelas nove horas da manhã, neste palácio, onde se há de celebrar junta a fim de tratar-se do mesmo negócio.

Vm. fará igual aviso aos coronéis das ordenanças que houver em seu distrito".

No dia designado acharam-se presentes onze capitães mores e outros tantos coronéis.

Depois do almoço, durante o qual lhes disse, explicou e particularizou todo o seu pensamento, convidou-os o governador a chegarem até aos paços do senado da câmara de Olinda.

Uma galeota, que estava às ordens em uma das rampas do palácio, os recebeu e os conduziu à capital ilustre.

A sessão da junta foi secreta.

Todos presumiram que a fome e a peste eram os motivos principais da reunião, mas dificilmente conciliaram esses motivos, que estavam no público domínio, com o sigilo que se guardou durante a sessão, e continuou a ser mantido depois do seu encerramento.

Seguiram-se, como é fácil imaginar, diferentes versões e fizeram-se longos e variados comentários.

Falou-se de guerra no exterior, de geral recrutamento, e de novos impostos.

Veio logo a pelo lembrar igual ajuntamento que se verificou em 1727, sob o governo de Duarte Sodré Pereira, e o imposto decretado nessa ocasião pelo dito ajuntamento, imposto calculado em 1 milhão e 50 mil cruzados, que se tornou efetivo em vinte anos, e foi destinado a ocorrer aos gastos com o casamento dos príncipes de Portugal.

Cuidou-se em opor à forçada contribuição, caso viesse a verificar-se, a resistência que naquele tempo apresentaram os povos da ribeira de S. Francisco. Mas passaram-se dias e semanas sem que ato algum público, oficial, ou simples revelação particular viesse confirmar as suspeitas. A deliberação continuou trancada debaixo dos selos do mais rigoroso segredo.

Uma manhã um batalhão de infantaria, devidamente municiado, moveu-se, e pôs-se em ordem de marcha na direção do sul. Este batalhão fez alto em Afogados.

— Temos guerra — gritaram os meticulosos pelos ângulos da vila.

(continua...)

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