Por Joaquim Manuel de Macedo (1862)
Admira realmente que em tão pouco tempo se executassem tantos trabalhos cuja dificuldade e importância ainda hoje podemos apreciar. Atualmente, quatro anos seriam apenas suficientes para a resolução da obra, a encomenda, apresentação e aprovação dos planos e dos orçamentos. Porque o primeiro ano empregaria o governo a considerar e reconsiderar a matéria. O segundo ano seria dedicado à escolha dos engenheiros e ao exame e estudo dos riscos e dos relatórios que eles apresentassem. Durante o terceiro ano, o ministro respectivo dormiria sobre o caso e, no quarto, enfim, depois de três meses de consultas, de cinco de hesitações, de mais três de dúvidas inesperadas, chegaria o último mês, no qual o ministro mandaria dar começo aos trabalhos, ficando um dia inteiro a admirar o esforço inaudito de sua patriótica atividade!
Dizem que todas essas delongas administrativas que entorpecem o desenvolvimento material do país, no império do Brasil, provêm das condições do sistema representativo. Não admito semelhante explicação. Penso também que no governo absoluto é mais fácil a pronta execução de qualquer projeto, porque o impulso parte de uma só vontade, e de uma vontade que não receia oposição, e que pode cortar arbitrária e imediatamente todos os obstáculos; e que pelo contrário, no governo representativo estudam-se as conveniências públicas, pesam-se os recursos do Estado, consulta-se finalmente a nação, ouvindo-se os seus representantes, para levar-se a efeito depois a idéia que se deseja realizar. Se não é assim, é pelo menos assim que deve ser. Mas, entre a demora imposta pela necessidade de se refletir e de se consultar os poderes competentes e a procrastinação soporizada que a preguiça e o desmazelo determinam há uma distância imensa, que se escapa aos olhos daqueles que nasceram com a proveitosa sina de passar a vida inteira dando apoiados a tudo quanto dizem os bons e os maus, e os péssimos ministros de Estado.
Os administradores preguiçosos e desmazelados desculpam-se com o sistema, como se desculpam em outros casos com o que nunca se deveriam desculpar, porque, mimosos como a sensitiva, preferem o descrédito do sistema representativo e dos mais nobres princípios a levarem um beliscão, que, aliás, é indispensável para arrancá-los do sono que dormem, sono de arganazes no inverno.
Mas onde vou eu a discorrer sobre espinhos, quando me está chamando a aprazível mansão das flores? Nada mais de incidentes nem de divagações. Começo já a descrição do Passeio Público do Rio de Janeiro, tal qual ele se mostrou no ano de 1783.
O Passeio Público, no espaço que compreendia, representava um hexágono de lados irregulares. Tinha, porém, de frente, na rua do seu mesmo nome, cerca de oitenta e seis braças, e de fundo, do portão da entrada até o gradil do terraço, dando sobre o mar setenta e quatro braças e sete palmos. Ficava-lhe a um lado, que era o da mão direita de quem entrava pelo portão, o largo da Lapa, e ao outro o largo da Ajuda, e, como apenas ficou indicado, corria-lhe pela frente a rua do Passeio, que ligava aqueles dois largos, e no fundo terminava acima do mar por um elegante terraço cuja base recebia às vezes os beijos, às vezes os embates violentos das ondas, ou namoradas ou embravecidas.
Pelos três lados que olhavam para a terra, o Passeio Público era fechado por um alto muro, interrompido em intervalos regulares por janelas com grades de ferro, e mais notável pela sua robustez do que pela graça, que, aliás, devia ter.
No meio da face que concorreu para formar a rua do Passeio, rasgava-se o muro, dando lugar ao portão da entrada que era todo de ferro e firmado em dois pilares de pedra lavrada. Sobre o portão ostentavam-se as armas reais portuguesas, olhando para a rua, e no reverso delas via-se um medalhão de bronze dourado com as efígies da Rainha D. Maria I e de seu esposo o Rei D. Pedro III, e ainda a epígrafe seguinte: “Maria I et Pedro III, Brasili regibus, 1783.
Do que fica exposto conclui-se que, embora tenham já passado perto de oitenta anos depois da abertura ou inauguração do nosso Passeio Público, nenhuma modificação tem este sofrido nem em suas dimensões, nem em suas disposições exteriores.
Penetrarei agora no seio do jardim.
Uma rua principal nascia à entrada do Passeio e ia morrer
entre duas pirâmides e diante de uma pequena cascata, de que logo falarei,
deixando bem no centro do jardim e no meio do seu correr um limitado terreiro
quase circular com quatro bancos de pedra, separados por ela e por mais duas
ruas laterais que vinham abrir-se no mesmo terreiro.
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. Um passeio pela cidade do Rio de Janeiro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=19326 . Acesso em: 31 jan. 2026.