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#Crônicas#Literatura Brasileira

Os Romances da Semana

Por Joaquim Manuel de Macedo (1861)

Na terça-feira emfim Luciano, que não cedera nem aos seus collegas, nem á sua mãi, obedeceu ao impulso de um máo pensamento. Veio-lhe á mente que indo ao theatro, e podendo lá encontrar a familia de Guilherme teria occasião de vingar-se em Dionysia das saudades e das afflicções que estava experimentando.

Cabeça de estudante! conceber um plano e executal-o é sempre obra de poucos momentos.

Immediatamente mandou procurar duas duzias de trajos e disfarces, e chegados estes, trancouse no quarto, e depois de muito escolher preferio um bello Pierrot.

Apezar de todos os seus cuidados, sua mãi observou tudo quanto el!e fazia, espiando-o cuidadosa pelo buraco da fechadura da porta, e sorrio ao vél-o trajando as roupas preferidas: sorrio talvez ou por achal-o bonito, ou por ver que o filho se resolvia a ir divertir-se.

As dez horas da noite Luciano entrou no theatro de S. Pedro de Alcântara.

Realmente, era um Pierrot magnifico.

Mas ninguém diria que a sua mascara escondia o rosto de um estudante!

Luciano esteve estúpido, durante duas horas completamente estupido, porque limitou-se a correr as salas e corredores, e a observar todos os camarotes.

O estudante perdera o seu tempo : a familia de Guilherme não tinha vindo ao theatro de S. Pedro : pelo menos elle não descobrira um só homem que com Guilherme se parecesse

A meia-noite lembrou-se Luciano de que bem podia ser que a família que procurava, tivesse preferido ir ao theatro Provisorio, e determinando-se logo a realisar seu plano, descia da terceira ordem dos camarotes, onde então se achava, quando ao chegar á escada da segunda ordem encontrou-se com dous dominós que parárão diante delle.

Os dous dominós erão provavelmente um homem euma senhora, epelo menos assim paredão pela differença da estatura, do andar, e dos modos.

O mais alto dos dous, que era um dominó preto, disse algumas palavras ao ouvido do outro, que era um lindo e gracioso dominó de setim azul, e emquanto o primeiro se deixou ficar immovel no lugar, em que estava, o segundo, o dominó de setim azul, avançou dous passos para Luciano, e tocando-lheno hombro, disse-lhe:

— Conheço-te !

— Pouco me importa isso : respondeu o estudante sem attender ao dominó azul, e sem ao menos contrafazer avoz.

— Vim procurar-te... escuta, tornou o dominó azul, tomando a mão de Luciano.

D'essa vez o estudante estremeceu ao som da voz que lhe fallava.

— Quem és ?... perguntou.

— Prometti que um dia e cedo viria encontrarte inesperadamente : eis-me aqui!

Luciano acabava de reconhecer a voz suave e pura da bella incognita.

— Meu Deus ! exclamou elle, e prendendo entre as suas uma das mãos do dominó, levou-o para o fundo do corredor, onde era menos numeroso o concurso.

— És tu ? és tu ? perguntou elle.

— Sou eu, sim ! respondeu a bella incognita atirando para traz o capuz do dominó, e libertando seu formoso rosto da mascaraque o occultava.

Era com effeito ella mesma, e mais encantadora do que nunca.

Luciano não sabia o que dizer-lhe: apertavalhe a mão, e chorava.

— Falla! conta-me... dize-me tudo quanto comtigo se tem passado! balbuciou elle emfim.

— Não, respondeu a joven : a historia fora demasiado longa, e não nos sobra o tempo.

Ouve-me, Luciano: amas-me sempre?...

— Oh! sempre! sempre! cada vez mais!...

— Escuta : não te lembra quando me juravas que me farias tua esposa, e que me darias o teu nome, a tua familia e teu futuro, que eu te respondi então que seria tua um dia, e breve, e quando pudesse provar-te que era digna de ti e da benção de teus pais ?...

— Sim... sim... e então ?

— Amas-me ainda, Luciano ?...

— Muito... como nunca se amou no mundo.

— Pois o dia afortunado chegou...

— Como?...

— O dia, Luciano, é hoje !

— Hoje ?...

— Dentro de meia hora, poderás ver meus pais, saber o meu nome, conhecer o meu passado e decidir se mereço a dita de ser tua esposa.

— Oh é demais ! é muita felicidade n'esta vida de soffrimento e de afflicções !

— Vem !

— Onde !

— A minha casa, á casa de meus pais.Luciano não poude deixar de olhar admirado

para a bella incognita..

— Hesitas ?... perguntou ella.

— Não ; mas teus pais quem são ?...

— Sabel-o-has bem depressa...

— E elles sabem...

— Tudo...

— Vamos.

O Pierrot deu o braço ao dominó azul, e ao descer a escala passou junto do Dominó preto que se conservara ainda no mesmo lugar, em que ficara ; mas logo depois sentindo que era por elle seguido passo a passo, lançou-lhe um olhar de desconfiança, e perguntou á sua bella incognita :

— Quem é este dominó ?...

— O teu maior amigo.

— Como se chama ?...

— Pois ignoras o nome do teu maior amigo ?...

— Intrigas-me.

_ É uma cousa muito natural em um baile de mascaras.

(continua...)

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